Montenegro "não compreende porque é que está a ser incompreendido". As estratégias de um primeiro-ministro que decidiu "chutar a crise para canto"

11 mar 2025, 07:00

Na véspera da previsível queda do Governo, Luís Montenegro arriscou um mea culpa seletivo, ao mesmo tempo que definiu o ângulo da sua campanha - quem não deve não teme. Politólogos viram na entrevista de Montenegro uma forma de desarmar críticas e transformar as eleições antecipadas num plebiscito à sua liderança

O Governo vai cair esta terça-feira e, menos de 24 horas antes, o primeiro-ministro deu uma entrevista à TVI e à CNN Portugal onde assume um erro. Não o de ter mantido na sua esfera uma empresa familiar que continuou a receber avenças de várias empresas, mas sim o de não ter “correspondido a ímpetos e a intervenções mais vezes”. Para os politólogos que o ouviram, nasce uma ideia: Luís Montenegro enveredou por este mea culpa para tentar desarmar críticas ao mesmo tempo que tenta, a toda a velocidade, esvaziar os detalhes da polémica que enviará o país para eleições antecipadas. 

Com Luís Montenegro a dar a garantia que o destino está traçado e que, mesmo na eventualidade de ser constituído arguido, irá continuar à frente do PSD, o primeiro-ministro “posiciona-se como o autor de umas eleições que vão funcionar, na prática, como um plebiscito a si mesmo”, refere o politólogo e professor catedrático José Filipe Pinto, sublinhando que o chefe do Executivo quer colocar o ónus da sua legitimidade popular na população e não na opinião dos deputados. 

“Contando para isso”, continua, Montenegro não abriu o jogo totalmente, mas fez “uma jogada arriscada para a oposição”. “O primeiro-ministro tentou, de forma controlada, antecipar-se a qualquer novidade que possa vir a ser descoberta durante a campanha e, mais tarde, durante a comissão parlamentar de inquérito anunciada pelo PS”. 

Montenegro está a tentar, assim, “junto da opinião pública, passar uma imagem de alguém que é credível, de alguém que tem obra feita, e que, no plano pessoal, não infringiu a lei, sendo que, se o tiver feito, será uma coisa que pode ser sanada rapidamente, porque não consubstancia uma gravidade”. E é aí que entra outro ponto do manual político para as consequências da crise política, a tentativa de “vitimização que serve claramente os seus propósitos”. 

No fundo, aponta a politóloga Paula do Espírito Santo, Montenegro mostra “não compreender porque é que está a ser incompreendido”. “Há uma tentativa de passar a mensagem de que a oposição e a comunicação social deveriam perceber melhor que a opção que ele está a fazer não compromete em nada o serviço público que está a prestar ao país”. 

“O que Montenegro está a dizer, e que vai ser um dos pontos centrais durante a campanha, é que em vez de as questões económicas e internacionais dominarem a agenda, a oposição está a incidir numa interpretação extensiva e abusiva daquilo que foi a decisão e a atividade dele”, sublinha.

Paula do Espírito Santo aponta ainda para outra estratégia que Montenegro utilizou na entrevista de segunda-feira à noite. “Ele quis divulgar intencionalmente detalhes que, no fundo não acrescentam muito à polémica com que está a lidar, mas ao dá-los permite-lhe jogar o jogo da transparência e descolar-se da ideia de que ele foi o catalisador deste problema”. Um desses momentos foi a revelação de um investimento antigo em ações do BCP, que foram vendidas na semana anterior a ter tomado posse como primeiro-ministro, que lhe renderam uma mais-valia de cerca de 200 mil euros, mas que poderiam ter rendido muito mais caso as mantivesse na sua carteira. “São manobras evasivas, a impressão com que eu fico é que ele queria ocupar o tempo da antena a chutar para canto”. 

Montenegro sereno a horas de ser demitido pelo Parlamento

A horas de saber que o seu Governo vai cair, Montenegro, referem os politólogos consultados pela CNN Portugal, pareceu também não encarar essa situação com a gravidade do momento, mesmo sabendo que 70% dos portugueses discordam da necessidade de serem chamados novamente às urnas. José Filipe Pinto tem uma explicação para isto. 

“Luís Montenegro teve a vitória curta em termos de votos e é uma vitória curta em termos de tempo e o que está a tentar é que esta vitória que é curta seja extensível a uma nova legislatura”. “Ele percebe claramente que se continuasse agora com a  omissão parlamentar de inquérito iria ter meses de agonia política, o que permitiria à oposição, principalmente ao Chega e ao Partido Socialista, cavalgarem sempre a onda da suspeição”.

Tudo isto, continua o politólogo, funciona no sentido de se apresentar aos eleitores “como alguém que não deve não teme”, será esse o mote, aliás ensaiado nesta entrevista quando, por várias vezes, referiu a frase que trazia de casa e fez questão de repetir: “Eu não faço fretes a ninguém”.

Mesmo perante essa perspetiva de eleições quase garantidas, acrescenta Paula do Espírito Santo, Montenegro apresentou uma postura de leveza. “Não me pareceu que altere muito o nível de preocupação perante a possibilidade de eleições, pelo menos observando a forma mais descontraída como ele também vai tratando este tipo de assuntos”.

Na mesma linha, José Filipe Pinto nota no seu tom durante a entrevista que Luís Montenegro quis, ao enunciar o escrutínio que incidiu sobre si e que o fez vender as ações que detinha do BCP e passar a Spinumviva para os filhos, a vontade de se “mostrar como alguém que saiu prejudicado a nível patrimonial em nome da ética, mais até do que a legalidade”. 

Sobre a questão legal, a Procuradoria-Geral da República continua a analisar a denúncia anónima que recebeu relativamente à empresa familiar pelo que, destaca José Filipe Pinto, Luís Montenegro “ainda não sabe qual vai ser o comportamento do Procurador-Geral da República, Amadeu Guerra, e não sabe se será aberto um inquérito se existirem indícios de crime”. Isto explicará, diz, a ainda não revelação dos nomes dos clientes desconhecidos da Spinumviva. “Nesta perspectiva, Luís Montenegro não podia dar todos os esclarecimentos, não podia de maneira nenhuma abrir totalmente o jogo, precisamente para guardar alguns trunfos para um possível inquérito criminal”.

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