Fran Navarro: «No Dragão vimos que tínhamos nível para estar neste lugar»

2 abr, 09:50
Fran Navarro

Entrevista a Fran Navarro, avançado de 24 anos do Gil Vicente, que já se tornou no melhor marcador dos gilistas numa só edição do campeonato. Chegou da equipa B do Valencia sem sequer imaginar que iria ser titular, tornou-se imprescindível e sente que está a contribuir para fazer história.

A relação de Fran Navarro com o Gil Vicente só foi oficializada no verão passado, mas o namoro já era antigo e despertou durante o inverno. O espanhol encontrou na terra do Galo o seu aconchego, depois de uma passagem infeliz pela Bélgica e tornou-se numa das principais figuras da equipa-sensação do campeonato português.

Com o «amargo de boca» por não se ter estreado pela equipa principal do Valencia, onde treinou com Pote e foi parceiro de ataque de Toni Martínez nos escalões de formação, estreou-se apenas este ano numa Primeira Liga e nem o próprio esperava este rendimento. Leva já 13 golos, o que representa 34% da totalidade da equipa, um registo apenas superado por Ricardo Horta (35%). 

Teve como momento alto o golo no Dragão, após um rasgo de brilhantismo que, diz ao Maisfutebol, mesmo que quisesse repetir, não iria correr tão bem. Foi aí que a equipa tomou consciência da sua real qualidade. Objetivos? Jogo a jogo e, se correr bem, manter o lugar europeu.

Como é que surge a possibilidade de vir para o Gil Vicente?

No ano passado, no meu último ano no Valencia, tive a oportunidade de vir, mas estávamos para descer de divisão e a equipa precisava dos jogadores que estavam a jogar a titular, então não aconteceu. Depois, no verão, tratou-se de tudo com o Valencia e não tive dúvidas em vir para cá.

Falou com alguém antes de vir para Portugal para se informar sobre o clube ou o campeonato português?

Sobre o clube, não. Mas falei sobre o campeonato com o Uros Racic, Pepelu e o Toni Martínez. Disseram-me que era uma liga top e aqui estou, muito contente por ter dado este passo.

A relação com o Toni Martínez vem de há muitos anos, quando jogou com ele e com o Pote no Valencia.

Sim.

O que se lembra desses tempos e deles enquanto jogadores?

Lembro-me que o Pote, nós chamávamos-lhe Pedro Gonçalves, estive com ele um ano e nos treinos notava-se que era um jogador muito bom. Mas, depois, cada um fez o seu caminho. Estive três anos com o Toni Martínez, sempre em juvenil. Jogávamos os dois na frente. Foi muito bom jogar com ele e fico contente pelo passo que deu para jogar agora no FC Porto. Ainda mantemos contacto.

Ainda antes de vir para o Gil Vicente, esteve no Lokeren da Bélgica, em 2019/20. Como correu essa experiência?

Esse ano foi o pior que passei na minha carreira. Não jogava na minha posição, que é de avançado. Jogava a extremo ou no meio-campo, como médio-centro, algo a que não estava habituado. A língua também era muito difícil. As coisas não correram bem nessa primeira época fora [de Espanha].

Mas essa experiência fora ajudou na adaptação este ano?

Sim, mas Bélgica e Portugal não têm nada a ver. Portugal e Espanha são países vizinhos, entende-se tudo e a liga portuguesa é muito diferente da belga.

No final do jogo com o V. Guimarães, em que marcou dois golos, Ricardo Soares elogiou-o, disse que todos no clube gostavam muito de si e que ficava feliz porque tinha chegado cá com défice de confiança. Porque chegou a Portugal desacreditado?

Não estava sem confiança, mas era um salto muito importante na minha carreira. Vinha com vontade de demonstrar o que valho e com a ajuda do mister e do corpo técnico aprendi muito. Desde o início da temporada até agora sou um jogador diferente, com mais experiência e mais qualidade.

Fran Navarro com Jeison Murillo num treino da equipa principal do Valencia
Fran Navarro com Jeison Murillo num treino da equipa principal do Valencia

Esteve uma vez no banco de suplentes num jogo da equipa principal, mas nunca se estreou. Ainda tem esse sonho de jogar pelo Valencia?

Sim, no final de contas é a equipa da minha cidade, da minha família e dos meus amigos. Esse foi um dia muito especial para mim, não tive a sorte de jogar, mas sempre terei essa vontade de poder jogar no Valencia.

Alguém do clube tem falado consigo?

Da equipa B, sim. Da primeira equipa falo com Carlos Soler e Toni Lato, mas falamos mais da vida no geral.

Passou do terceiro escalão espanhol para a primeira divisão portuguesa. Sentiu esse salto?

Sim, notei muita diferença. Os treinos são muitos mais físicos, mas depois o teu corpo também se habitua. Os adversários aqui têm todos um nível muito alto.

Considera que o campeonato português é competitivo?

Estou muito contente com a liga portuguesa, é difícil ganhar a todas as equipas, sobretudo fora de casa. Todos têm um nível de competitividade muito alto. Mas claro que se nota muito a diferença para os três de cima [FC Porto, Sporting e Benfica].

É, portanto, uma boa porta de entrada para jogadores formados nos grandes clubes espanhóis que não têm oportunidade de ficar na equipa principal?

Sim, claro. Não tendo oportunidade em Espanha, vir para Portugal é uma boa opção.

Que objetivos tinha em mente quando chegou a Portugal?

O objetivo era saber como me iria sentir numa primeira divisão, porque era a primeira vez. Não tinha objetivos como ‘vou marcar 15 golos’. Era desfrutar, passar um bom tempo e aprender o máximo possível.

Nos melhores sonhos esperava este impacto?

Não esperava. Nem tão pouco sabia que iria jogar sempre a titular este ano, mas o mister está a confiar muito em mim. Quando cheguei cá não pensava que iria ter tantos minutos.

Diante do Belenenses, estava a cumprir castigo e os teus colegas de posição, o Elder Santana e o Calero marcaram. Como é a relação entre os três?

O bom desta equipa é que quem não joga a titular, quando entra como suplente, cumpre. Há 11 titulares, mas quem entra acrescenta sempre o máximo.

Chegou a Barcelos avaliado em 300 mil euros pelo Transfermarkt. Agora, esse valor está em três milhões de euros. A que se deve?

Na terceira divisão espanhola, o teu valor não vai ser tão alto como se estiveres em Portugal, a fazer golos e com a equipa na posição em que está. Todos os jogadores se valorizam.

Tem uma meta de golos para estes últimos sete jogos do campeonato?

Nestes sete jogos que faltam, os jogadores têm de desfrutar e tentar cumprir os seus objetivos, mas sempre a pensar na equipa. Se a equipa estiver bem, os jogadores também vão estar.

Sem contar as grandes penalidades, seria o segundo melhor marcador da Liga, apenas atrás de Darwin. Acredita que vai continuar nessa disputa?

Sou o segundo marcador de penáltis, o primeiro é o Samu [Lino]. Deixou-me bater contra o Vizela, calhou a mim. Nestes últimos sete jogos vou tentar, como avançado, marcar golos e fazer o meu trabalho. Mas o importante é ajudar a equipa com trabalho e ilusão para seguir em frente.

Não é o típico avançado de área. É trabalhador e procura muitas combinações com os colegas. Considera-se um avançado completo?

No ano passado, no Valencia, não vinha tanto receber [a bola] como neste ano. O mister ensinou-me que, como jogamos com um avançado e não dois, tenho de ir em apoio e na rutura.

Estava habituado a jogar com outro avançado.

Sim e era sempre eu que ia na rutura. Como agora jogo sozinho, tanto vou em apoio como na rutura, depende do jogo e dos movimentos da equipa. Ter mais possibilidades é melhor para a equipa mas também para mim.

Fran Navarro é o melhor marcador do Gil Vicente (13 golos) e o quinto da Liga

O Gil Vicente é uma das equipas que melhor joga em Portugal. Isso também beneficia o seu trabalho?

Com os jogadores que o Gil Vicente tem este ano, para mim, também é mais fácil. Com o Pedrinho, que comanda o jogo da equipa, com o Samu, qualquer um que jogue a titular. Nos jogos e nos treinos entendemo-nos muito bem.

O Pedrinho e o Samuel Lino são os dois jogadores que mais destaca no Gil Vicente?

O Pedrinho está a receber muitos prémios de homem do jogo no final das partidas e foi quem mais me surpreendeu. Tal como o capitão, o Rúben [Fernandes], que atrás é muito seguro. Penso que esta equipa é muito boa, temos bons jogadores.

Qual a importância de Ricardo Soares, quer para si quer para a equipa?

Desde a pré-época até agora todos os jogadores, individual e coletivamente, melhoraram muitíssimo. Fazemos muitos treinos individuais como, por exemplo, os meus movimentos. Quando acaba o treino, ficamos os três avançados com o mister e trabalhamos individualmente para melhorar. Quantas melhores individualidades houver, melhor será a equipa.

Neste momento, é inevitável falar em Europa. O Gil Vicente é quinto classificado, com mais 10 pontos do que o V. Guimarães e a três do quarto, o Sp. Braga. Já podem dizer que ir às competições europeias é um objetivo?

É verdade que o objetivo do Gil Vicente era a manutenção, salvar-se. A equipa está a evoluir muito bem e estamos numa situação em que a equipa está muito perto da Europa. A equipa tem ilusão.

O que esperam para a reta final do campeonato?

Esta semana pensar no Arouca, pensar semana a semana e arrancar o máximo de pontos possível para conseguirmos manter a quinta posição ou até quarta, se der.

Que importância têm tido os adeptos que ainda no último jogo bateram a melhor assistência da época?

Num estádio sem adeptos, o futebol não é tão bonito. Mas quando está cheio, os adeptos animam-te e tudo sai melhor. Num sprint, mesmo que não chegues à bola, aplaudem-te e sentes-te muito melhor. Os dois jogos que gostei bastante fora de casa foram contra o FC Porto, que estava cheio, e contra o Sp. Braga. Foi impressionante.

Considera que é a equipa, com o bom futebol e bons resultados, que está a trazer os adeptos ao estádio?

Sim. O Gil Vicente está a fazer história e é normal que os adeptos tenham mais vontade de ver a equipa do que quando está mais abaixo na tabela.

Como é que a equipa manteve os pés no chão nestes meses em que recebeu muitos elogios?

O grupo é uma família, sabemos que estamos num momento importante, mas temos de ter sempre os pés no chão e saber que faltam sete jogos e há que dar o máximo em cada um.

Que sabor teve tornar-se no melhor marcador do Gil Vicente num só campeonato?

Foi muito bonito e ainda por cima contra o FC Porto. Não tinha conseguido marcar contra o Sporting e era um bom dia para fazer história no Gil Vicente. Foi um golo muito bonito, mas muito difícil também. Saiu tudo automaticamente.

No Dragão, tornou-se no jogador com mais golos numa época ao serviço do Gil Vicente, superando os 12 de Ferreira em 2003/04

Gostava que me explicasse três momentos desse jogo: o que pensou aquando da expulsão do Vítor Carvalho, no lance do golo e após o apito final?

Treinas toda a semana para que chegue o jogo, a fazer certos movimentos para lhes causar dano e quando no segundo minuto expulsam o Vítor… ‘Pff, meu Deus, o que fazemos agora?’. Lembro-me que o mister me disse para jogar a extremo, trocar com o Antoine [Leautey], depois pediu-me outra coisa e houve alguma confusão. Mas começámos a jogar, sempre com muita posse de bola, e o FC Porto a correr atrás dela. O lance do golo foi uma jogada muito boa. Todos tocam na bola, chega ao Talocha, que passa ao Samu e ele dá para mim. Foi uma coisa muito rápida. Controlo, porque já vinham os defesas e o [Fábio] Cardoso vem para mim, toco na bola como consigo e desvio do guarda-redes. Entrou de forma perfeita. Podia tentar 10 ou 20 vezes que não iria sair tão bem.

E o que sentiram no final?

Quando acabou o jogo, a sensação era muito boa. Fizemos uma grande partida com um a menos, aí vimos que tínhamos nível para estar [no lugar] onde estamos.

Pensa numa possível saída no verão?

Pensar no futuro não te ajuda a estar concentrado no dia a dia. O importante é acabar bem a temporada e, no verão, o clube decidirá.

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