Entrevista com Roberto Martínez, Selecionador Nacional de Portugal, Parte V
Ainda no campo de treinos da Cidade do Futebol, deixamos o tema Cristiano Ronaldo e olhamos para os três meses que faltam para o Mundial – um período crítico, no qual uma lesão pode destruir um sonho individual e enfraquecer uma seleção.
Tentamos também perceber como vai ser feita a preparação para o Campeonato do Mundo, sendo certo que as grandes seleções – as que aspiram a chegar longe no troneio – já não gostam de estágios muito longos e dão especial importância à parte mental do atleta.
Uma nota: esta entrevista foi feita antes de Cristiano Ronaldo se lesionar ao serviço do Al Nassr.
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Vimos há tempos a lesão do Samu, que vai falhar o Mundial (pela Espanha). Quem é que na sua seleção não pode mesmo lesionar-se?
(risos…) Ninguém, eu não gosto de lesões. Este é o período de maior ansiedade, estas oito semanas antes do Mundial, porque uma lesão pode deixar um jogador fora da competição. Mas os nossos jogadores trabalham muito bem, são muito profissionais e isso também ajuda a evitar lesões.
No estágio de março vai ter algum cuidado, alguma gestão de esforço para evitar essas lesões? Ou é um verdadeiro teste para o Mundial?
Não. Reparem, eu estou muito satisfeito que possamos jogar nos Estados Unidos e no México (em março).
É um período muito importante para nós, mas a gestão de minutos também vai ser importante. Estamos a falar de março. Historicamente, é o estágio mais difícil para o jogador, porque é o momento decisivo da época.
Para nós é bom ir agora aos Estados Unidos e ao México, porque conseguimos experienciar os protocolos de altitude, os protocolos de jogar num estádio fechado, como é o estádio de Atlanta, defrontar adversários da CONCACAF, que são muito diferentes. Para nós é muito importante fazer essa preparação.
Mas também (é importante) a gestão dos minutos. Deve ser um estágio menos exigente do que o de setembro, onde tivemos de ir à Arménia e à Hungria.
Há uma coisa fundamental: que no fim da época todos os jogadores tenham um período para desligar. E só podemos fazer isso se agora, em março, tivermos estes jogos com o México e os Estados Unidos.
Quem não for a este estágio em março, quem não estiver, não vai ao Mundial?
Não, não, não.
Ou seja, não haverá caras novas no Mundial se não estiverem em março?
Bem, para haver um jogador novo precisa de estar em março. Nesta altura temos jogadores que foram muito importantes nos últimos três anos, por isso não é o que eles vão fazer em março que vai decidir se vão entrar na lista. Mas um jogador novo, que nunca esteve na lista, precisa de estar em março, faz sentido.
Como é que vai ser, depois, a preparação final para o Mundial? Vai começar muito cedo?
A preparação é importante. Este é o meu terceiro Mundial. Tive a experiência de preparar o Mundial da Rússia e o Mundial de Catar. Todos os Mundiais são diferentes, mas este é muito complexo, porque são três países, o clima é importante…
Vamos ter uma preparação flexível. Flexível porque é pensada em função do jogador, de forma individual. Não é o mesmo terminar a época no dia 24 de maio ou terminar no dia 30. Não é o mesmo ter uma época com cinco mil minutos ou ter uma época de três mil minutos. A preparação vai ser muito individual.
Abrimos a cidade de futebol no dia 25 de maio, mas começamos a nossa concentração no dia 3 de junho.
Além disso, acho que a Seleção precisa de estar com os nossos adeptos antes de ir para os Estados Unidos. Teremos dois jogos, a 6 e a 10 de junho, e vamos para os Estados Unidos no dia 12.
A base será em Miami. Porquê?
Ficamos em Miami porque é lá o terceiro jogo, com a Colômbia. Acompanhei todo o Mundial de Clubes e o jogo mais exigente - ou as condições mais exigentes - são em Miami. E jogar às sete e meia da tarde…
Teremos 15 dias para adaptar o corpo para jogar a essa hora com a Colômbia. Já os jogos em Houston são em estádio fechado. É mais fácil preparar os jogos de Houston com as condições de Miami.
Ficamos em Miami até à final, não é?
A final é em Nova Iorque! Miami é para o terceiro lugar, então não!
Quer dizer, ficar lá, como base, como casa da seleção...
É complexo. Acho que não podemos falar de mais de três jogos. O Mundial são três jogos há três caminhos. Terminar em primeiro do grupo é um caminho - que é muito diferente do caminho de terminar em segundo ou em terceiro. Miami é só um dos caminhos.
É um Mundial complexo e por isso é que é importante que em março possamos preparar muitos dos protocolos que precisamos utilizar.