Entrevista com Roberto Martínez, Selecionador Nacional de Portugal, Parte II
Nesta segunda parte da entrevista com Roberto Martínez, Selecionador Nacional de Portugal, deixamos para trás os troféus conquistados – que fazem parte do passado e é tempo de olhar para o futuro, com o Mundial a aproximar-se e uma convocatória à porta.
Roberto Martínez guia-nos até ao espaço mais reservado da Cidade do Futebol, até ao balneário da Seleção Nacional, a área «sagrada» onde só entram os melhores. E onde, garante, é mais difícil entrar do que, depois, jogar.
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Já nos disse lá em baixo que o balneário da seleção portuguesa é especial, descreveu as várias gerações que tem… Aqui estamos no espaço sagrado dos jogadores. Quem é que manda aqui? É o Roberto Martínez? São os jogadores? É o Cristiano Ronaldo?
Há momentos, há momentos… Eu acredito muito que o jogador precisa de ter responsabilidade. E o grupo de jogadores também. A voz do capitão é importante, tal como é a voz de todos. Estamos a falar de um balneário onde os jogadores chegam quando estão num momento bom nas suas carreiras, quando são importantes nos seus clubes. E aqui temos um grupo de liderança importante. Estamos a falar do capitão do Manchester United, dos capitães do Manchester City, do capitão do Porto…
Então, não é um um balneário que não tenha voz, mas também é importante ter clareza.
A equipa técnica e o selecionador precisam de dar isso: clareza. Há momentos que não são para criar um balneário, mas sim para criar um ambiente de alto rendimento e, para isso, é preciso ter clareza, disciplina e respeito. E nós temos esses valores, são fundamentais.
Quando entra aqui um miúdo pela primeira vez e olha para os craques que passa a ter como colegas da equipa… Já sentiu algum a tremer?
Eu gosto muito desse momento. Há dois momentos na experiência de um jogador novo na Seleção. A primeira chamada é um momento incrível porque premeia o trabalho feito na carreira de um jogador, que é muito, muito exigente e difícil; a chamada à Seleção é um momento incrível.
Mas chegar e entrar no balneário… Eu gosto muito, adoro ver a dinâmica, o que acontece. Estamos a falar de entrar no balneário onde estão os seus heróis.
No último estágio tivemos o Carlos Forbs, um jogador que nasceu no ano em que o capitão fez a estreia pela Seleção. Estamos a falar de uma dinâmica muito interessante.
Recordo o momento em que o João Neves chegou ao balneário da Seleção. Foi um momento que me fez ter - antes de ele entrar no relvado, antes da estreia do João Neves - um sentimento de que ele viria a ser um jogador muito importante para o futuro do futebol português. Vi o respeito que os jogadores importantes tinham por um miúdo que mostrava uns valores humanos incríveis.
Mas detetou isso pela personalidade dele quando chegou aqui ao balneário? Foi por alguma atitude que ele teve? Ou porque os jogadores o receberam normalmente como um deles?
O que acontece depois do primeiro treino, a segunda reflexão… Há momentos durante o estágio que são, penso eu, mais difíceis do que defrontar o adversário. E é aqui (no balneário). O respeito dos colegas, as decisões do jogador em momentos importantes…
Lembro-me do João Cancelo marcar um golo contra a Bósnia, fora de casa, e de a sua celebração ter sido com um miúdo novo que tinha chegado à Seleção. Há momentos que falam muito e que são importantes para nós podermos valorar e utilizar no futuro.
E é muito difícil chegar aqui? Quando faz as suas escolhas, é muito difícil um jovem entrar aqui?
É, é difícil, mas é a minha responsabilidade. Eu tenho muita experiência… Trabalho com a equipa técnica e temos um processo de escolha. Há muita informação, muito trabalho feito para podermos ver tudo aquilo que está a acontecer nos momentos de forma dos jogadores.
Quando eu cheguei a uma seleção (na Bélgica) depois de sete épocas na Premier League, tive de fazer a minha primeira escolha. E foi difícil, porque não tinha experiência.
Era mais o aspeto subjetivo, olhar para aquilo que, taticamente, queria fazer no campo.
Mas agora não. Agora há um processo de muita, muita informação. Nas últimas semanas, há dois jogadores que estão acima de todas as tabelas, que são o Mateus Fernandes e o Gonçalo Guedes. Essa informação é importante. Mas, sim, é difícil chegar aqui.
Porquê? Por causa dos outros jogadores. Estamos a falar de uma geração muito competente. No entanto, é difícil chegar aqui, mas depois não é difícil jogar, porque aí já é o jogador. Chegar é muito difícil, mas treinar é muito fácil, porque o jogador experiente da seleção abre as portas e ajuda muito o jogador novo que chega.
Falou de dois nomes, o Gonçalo Guedes e o Mateus Fernandes… Deixe-nos sugerir mais alguns: o Paulinho, mais experiente, o Rodrigo Mora, mais jovem… Há algum, entre estes ou outros, que possa sonhar com o Mundial ou já é muito tarde?
Podem, podem. Eu já disse muitas vezes que o trabalho da equipa técnica… e o meu… é continuar a acompanhar jogadores novos.
Porquê?
Porque nós temos três grupos. O grupo de jogadores que fizeram um bom trabalho com a Seleção - e isso é o mais importante. Estamos a fazer a avaliação de 36 jogos. Isso é uma informação muito importante. Estamos a falar de podermos ser competitivos. Para podermos executar conceitos táticos, precisamos de uma repetição.
Mas depois também precisamos de talento novo e também precisamos de jogadores em bons momentos de forma.
Ou seja, há três grupos: o grupo de jogadores que têm um compromisso, uma responsabilidade forte dentro da seleção; o grupo de jogadores cujos momentos de forma estamos a acompanhar; e um grupo de jogadores que ainda não estiveram na Seleção, mas que têm uma valência diferente.
Antes do Europeu foi o Chico (Conceição), era muito importante para nós ter um jogador assim. E foi importante para a Seleção. Antes da Liga das Nações foi o Rodrigo Mora, um jogador que é diferente, um jogador que chega na área e tem pausa.
E agora estamos a acompanhar jogadores que também têm possibilidades.
O Paulinho fez duas épocas muito boas no México. Agora temos um lugar para mais um ponta-de-lança. Há o Fábio Silva, o André Silva, o Chermiti, que está a crescer muito no Rangers. E o Paulinho faz parte desse grupo.
Deixe-nos perguntar, porque é das coisas de que mais se fala em Portugal… Quem é que manda nas escolhas? Recebe pressões, recebe influências de empresários ou de clubes? Pressões para convocar, para não convocar, para utilizar ou para não utilizar? Recebe essas pressões?
(risos...) Não, não.
E há quem tente fazê-las?
Não, não. É importante saber que estamos a falar da Federação Portuguesa de Futebol. É uma instituição muito, muito, muito forte, séria e profissional. Eu gosto de abrir... Não é uma decisão só do selecionador, isso seria uma estupidez.
Acredito muito na opinião da minha equipa técnica e é uma escolha aberta, dentro da informação que nós temos, que é muita. Acompanhamos os jogadores, tudo o que eles estão a fazer nos clubes, mas não só nos jogos; estamos a falar dos treinos também.
Por isso, temos mesmo muita informação. A escolha de agora não é a escolha de há 10 anos, porque a informação é diferente.
Mas é só responsabilidade da equipa técnica e do selecionador. Mais ninguém. Não há pressões de fora. Isso não acontece.
O Roberto é treinador de muitas broncas aos jogadores no intervalo dos jogos? Qual foi a maior bronca que deu aos jogadores no intervalo?
Bem, são quase 20 épocas.
Tem que ter uma…
Exatamente, há muitas. Eu acho que para o treinador é importante ser honesto e ter uma reação natural com os jogadores.
Eu não acredito que o treinador precise de ser o polícia ou de ser uma pessoa que esteja ali para castigar. Não. O respeito à liderança é atingir o nosso sonho, mas, claro, há momentos nos quais é necessário ter uma voz que mostre que os níveis são bons ou que não são bons.
Acontece, sim, acontece. Mas também acredito que o que acontece no balneário precisa de ficar no balneário. Claro, em 20 épocas como treinador dá para ter muitos momentos assim.