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«Ganhar o Mundial é muito difícil, mas a nossa equipa está preparada»

15 mar, 11:59

Entrevista com Roberto Martínez, Selecionador Nacional de Portugal, Parte I

Roberto Martínez chegou a Portugal há pouco mais de três anos. Chegou, na altura, contratado por Fernando Gomes para suceder a Fernando Santos, na sequência da eliminação da seleção portuguesa nos quartos de final do Mundial do Catar, após a derrota com Marrocos.

Portugal apostava pela terceira vez num treinador estrangeiro (o primeiro não lusófono) para o lugar de Selecionador Nacional, depois de Otto Glória e Luiz Felipe Scolari.

Martínez vinha, ele próprio, de um Mundial dececionante: a Bélgica, que orientava – e que levou ao topo do ranking da FIFA, onde esteve durante mais de três anos, apesar de não conquistar qualquer título – tinha-se ficado pela fase de grupos, levando à saída do técnico catalão.

Podia não ser grande cartão de visita para pegar numa equipa das quinas a transpirar talento e a exigir liderança forte.

Começou por cativar o público ao comunicar em português e, mais importante, ao qualificar-se para o Europeu 2024 só com vitórias. A fase final pode ter sido mais curta do que aspirava a ambição lusitana, mas, para Roberto Martínez, marcou um ponto de viragem, um «clique» que embalou a equipa para o sucesso, um ano depois, na Liga das Nações.

Tudo isso numa altura em que, com nova liderança na Federação Portuguesa de Futebol, abundavam rumores da provável saída do Selecionador, para uma possível contratação de José Mourinho.

Agora segue-se o Mundial, o «Santo Graal», o sonho «proibido» - mas que até pode parecer lógico, com tanta qualidade e com a experiência acumulada.

É desse sonho, a três meses da partida para os Estados Unidos da América, que se fala em grande parte desta entrevista. Mas também do percurso feito até aqui, das alegrias e das angústias, das possíveis novidades entre os convocados e do futuro do próprio Roberto Martínez, que termina contrato após o Campeonato do Mundo.

 

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Roberto Martínez recebe-nos à entrada da Cidade do Futebol. Vem sorridente, preparado para uma conversa que vai passar por vários temas e cenários, sem tabus, como prometido.

A primeira paragem é no hall de entrada, onde brilham as grandes conquistas de Portugal, incluindo o troféu da Liga das Nações. Comecemos, então, por aí.

 

Roberto Martínez, está aqui a taça do Europeu, a da Liga das Nações… Temos aqui espaço para a Taça de Campeão do Mundo?

Pois... Espaço há… E também acho que temos um grupo de jogadores que tem o compromisso e tudo aquilo que é necessário para poder conquistar o Mundial. Mas ganhar ou não o Mundial… Isso tem um processo… Acho que a nossa equipa já está com muita experiência, já tem (este tipo de) situações nos balneários dos seus clubes, então julgo que o grupo está muito preparado.

Não ganhar o Mundial seria, de alguma forma, um mau resultado, uma frustração?

Não, não. Ganhar o Mundial é muito, muito difícil. O que é importante é tentar ganhar.

Nós temos o estímulo do Mundial de 66… Eusébio com a sua participação e a terceira posição de Portugal.

Mas a minha experiência diz-me que a equipa chega ao Mundial e tem três jogos. É tudo o que tem. Jogar um Mundial é tentar crescer, é enfrentar as dificuldades e ter uma responsabilidade como equipa de lutar para ganhar o próximo jogo.

E é isso que nós precisamos de mostrar. Já ganhámos a Liga das Nações e acho que mudámos a mentalidade durante o Europeu; no jogo contra a França houve um clique.

O que é que aconteceu nesse jogo que deu esse clique?

É um momento, um processo em que a equipa acredita muito na atitude do grupo.

Uma coisa é o talento. Nós percebemos que o talento do jogador português é de alto, alto nível. Estamos a falar de um balneário com muito talento.

Mas depois há o aspeto de acreditar nos valores da equipa, naquilo que podemos fazer.

Acreditar que podemos jogar olhos nos olhos contra a Espanha, contra a Alemanha, contra a França… Acho que houve um momento no jogo, durante o Europeu, onde a equipa sentiu que podemos fazer isso.

Perdeu os complexos?

Não digo os complexos, foi um ganhar de confiança, acreditar naquilo que o balneário tem. No nosso balneário há quatro gerações, é um balneário que tem muita experiência, mas também muita fome. Está muito bem equilibrado.

O Roberto chegou aqui há três anos. O que é que esperava alcançar? Quando entrou aqui, o que é que esperava ganhar?

Não, eu não trabalho assim. Eu acho que os objetivos são mais do dia a dia, são mais objetivos de poder perceber o compromisso dos jogadores.

Eu fiquei muito, muito surpreendido com o perfil do jogador português.

No futebol em geral, no futebol mundial, há o jogador tático e o jogador competitivo.

Penso que o jogador português é uma mistura muito, muito boa de jogador competitivo, que joga para ganhar, que percebe o que precisa fazer para ganhar os momentos-chave dos jogos, mas também gosta da informação, do aspeto tático, porque o futebol precisa disso.

Agora já são mais de três anos aqui, já são 54 jogadores que foram chamados à Seleção. Agora percebo muito bem o compromisso, a dinâmica do balneário, que fica acima do talento desta equipa. Claro que o nosso objetivo é tentar ganhar tudo e acho que agora estamos numa posição onde a equipa está bem para enfrentar o Mundial.

Esta taça (Liga das Nações) é a mais importante da sua carreira? Ou foi aquela Taça de Inglaterra aos 40 anos de idade (ganha com o Wigan, em 2013)?

Todas são importantes, porque as taças refletem muito trabalho. O troféu é um processo, mas acho que esta taça foi muito importante por podermos vencer a Alemanha na Alemanha ao fim de 25 anos, vencer a Alemanha depois de sofrer o primeiro golo, ver uma equipa que termina o jogo ainda mais forte depois das substituições. Houve muitos aspetos importantes.

E depois a final contra a Espanha. Foi a primeira final que ganhámos contra a Espanha. Há passos que são muito importantes para o aspeto de confiança, toda a parte psicológica que é importante para continuar a avançar.

No Mundial há um aspeto psicológico muito grande e as pessoas não falam disso.

Só há oito equipas, oito países que ganharam o Mundial em 92 anos de história. Porquê? Porque há esse aspeto de poder acreditar, de poder vencer no aspeto psicológico.

Penso que agora a nossa seleção tem isso. A Liga das Nações foi uma competição onde a equipa mostrou que está preparada psicologicamente.

Para si, esta taça também foi importante. Na altura discutia-se se ia continuar, se ia sair...  Consolidou o seu lugar. Agora o seu contrato está a acabar. Vai renovar contrato? Espera ficar aqui?

Eu acho que o futebol é isso… O futebol é o momento-chave, o jogo-chave, a competição-chave... Mas agora não é o selecionador, ou o futuro selecionador, que é importante; o que é importante é o Mundial. E nisso estamos alinhados com o presidente, falámos sobre isso e o foco é o Mundial. Na minha cabeça só há espaço para a preparação do Mundial.

Portanto, a próxima Liga das Nações, na qual já sabemos com quem vamos jogar, tem tempo?

O que importa é que nós sabemos que o sorteio para a próxima Liga das Nações está feito e que os jogos vão ser importantes. Acho que são adversários para podermos continuar com o objetivo de chegar à posição número um do ranking mundial, que é o objetivo pelo qual Portugal precisa de lutar. Agora a posição do selecionador não é importante. O importante, agora, é o foco no Mundial.

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