"O PSD foi humilhado pelo PS": Cavaco Silva, a entrevista na íntegra à CNN Portugal

3 jun, 22:40

Prefere a palavra escrita, mas abriu aquilo que apelidou de "exceção" para falar com a CNN Portugal. Durante os últimos anos, Cavaco foi atirando para a arena pública textos com críticas fortes. Fê-lo porque "é social-democrata" e porque se preocupa com o futuro do país

Aníbal Cavaco Silva esteve anos sem dar uma entrevista a uma televisão, mas só nesta semana foi falado por todos os órgãos de comunicação social em duas ocasiões diferentes. Por um artigo de opinião no jornal Observador e agora nesta entrevista exclusiva à CNN Portugal. Estes dois diferentes momentos têm coisas em comum: as críticas ao antigo líder do PSD Rui Rio e ao Governo de António Costa. Comecemos por aquilo que lhe é mais próximo, o seu partido. 

Nesta entrevista conduzida por Maria João Avillez, Cavaco Silva disse que o PSD de Rui Rio foi "suporte do PS" e que permitiu que fosse "humilhado" pelos socialistas. O antigo Presidente da República relembrou que, nas últimas eleições legislativas, "o PSD não foi vencedor em nenhum concelho ao sul de Alcobaça" e, por isso mesmo, "quase que pareceu um partido regional". 

"Eu penso que muitos eleitores viram ao longo do tempo um PSD que era suporte do PS. Quando às vezes era mesmo humilhado em debates na Assembleia da República pelo PS. Em atitudes completamente reprováveis por parte do PS em relação ao maior partido de oposição", disse.

Qual foi então o maior erro do PSD? Segundo Cavaco, "deixar-se enlear na dicotomia direita/esquerda". Porquê? "Porque era uma armadilha montada pelo PS e por alguns órgãos de comunicação social para desqualificarem o Partido Social Democrata e impedirem que alguns votantes saíssem do PS para votar no PSD. Direita e esquerda não são ideologias". 

O fantasma de Passos Coelho

Depois de tanto tempo sem dar uma entrevista, era quase inevitável que nesta, que durou mais de 40 minutos, Cavaco não retrocedesse no tempo até ao mandato de José Sócrates e de Pedro Passos Coelho. Na ótica do antigo Chefe de Estado, o PSD de Rio não fez verdadeira oposição porque "não denunciou" a "chocante" desinformação e as "mentiras" que o PS "e alguma comunicação social" foram lançando sobre o governo de Passos Coelho. 

"Foi o Governo do Partido Socialista que colocou o país numa situação de quase bancarrota. Em que o Estado não tinha dinheiro para pagar aos funcionários, nem aos pensionistas. Em que os bancos não tinham dinheiro para emprestar às empresas ou aos cidadãos. E o Partido Social Democrata devia elogiar o trabalho que foi feito pelo Governo do Doutor Passos Coelho, porque foi o governo socialista que negociou aquele duríssimo programa de austeridade com o Fundo Monetário Internacional". 

Terá o PSD vergonha ou algum embaraço sobre o seu passado? Nem Cavaco tem uma resposta ou uma explicação. "O melhor é olhar para o futuro", admitiu. E por futuro entenda-se o nome de Luís Montenegro, recém eleito presidente do partido. 

O antigo Presidente da República confessou que conhece Montenegro "razoavelmente bem" e que vê nele "uma pessoa séria e honesta". Na mesma sala onde decorreu esta entrevista, Cavaco Silva conversou com os dois candidatos antes das eleições diretas: Luís Montenegro e Jorge Moreira da Silva. A ambos disse que era preciso unir o partido e "trabalhar fortemente para criar uma alternativa credível ao Partido Socialista", mas sem "dar lições".

"A apatia dos militantes"

Durante esta fase negra do PSD que durou quatro anos, surgiram dois novos partidos à direita: a Iniciativa Liberal e o Chega. Ainda assim, Cavaco não considera que isso tenha complicado a vida aos sociais-democratas. Existe um outro fator "absurdo".

"O que foi muito negativo para o PSD nos últimos tempos foi o arrastar desta situação na escolha do novo líder. Cinco meses sem líder, podemos dizer assim. Eleições a 30 de janeiro e o novo líder só estará em plena efetividade de funções passado cinco meses. Isto é um absurdo total. Por isso não me surpreendeu aquilo que dizem as últimas sondagens". 

Entende por isso que o PSD não foi tido nem achado em temas fulcrais do país. A pandemia, a guerra, o Orçamento do Estado, o Programa de Governo e o Programa de Estabilidade. "Eu não consigo entender", acrescentou, dizendo ainda que ficou surpreendido com "a apatia dos militantes".

Sobre o polémico artigo publicado no jornal Observador, admitiu que já o tinha escrito, à mão, há mais de um mês e que a única pessoa que sabia da existência daquelas palavras era a mulher. Decidiu publicá-lo agora porque, desde o início, tinha decidido tal só aconteceria depois da aprovação do Orçamento do Estado para 2022. "Eu tive que lembrar determinadas coisas que parece que estavam muito esquecidas na mente do senhor primeiro-ministro". 

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