Exclusivo. "As pessoas que trouxeram os casos BES são as mesmas que depois vieram dizer que tudo estava bem"

18 nov, 23:58

Em entrevista à CNN Portugal, Carlos Costa aconselhou os banqueiros a ler o capítulo dedicado à troika: "O Banco de Portugal evitou uma nacionalização do sistema bancário"

Carlos Costa estava no início do seu mandato como governador do Banco de Portugal (BdP) quando José Sócrates pediu o resgate financeiro, que acabou por trazer a troika ao país. Entre 2010 e 2020, o homem que voltou a ser do momento - pelas polémicas que envolvem o livro "O Governador" - esteve debaixo de uma enorme tempestade com a resolução do Banco Espírito Santo (BES), a falência do Banif e os problemas com Isabel dos Santos e o banco BIC. Esteve bem, mal, nem uma coisa nem outra? As opiniões divergem, mas o ex-governador não só parece estar de consciência tranquila como ainda aconselha os banqueiros, que o têm criticado, a ler o livro. 

Em entrevista exclusiva à CNN Portugal, o colapso do BES foi um dos temas abordados, com Carlos Costa a afirmar que "os casos que trouxeram ao Banco de Portugal não diziam respeito ao BES, mas a entidades que eram da esfera de um acionista de um BES, o que é muito importante". Disse ainda que as pessoas que levaram esses mesmo casos ao banco central foram "as mesmas que passados dois meses vieram dizer que afinal não havia nada e que tudo estava bem". 

Na ótica do ex-governador, se na altura tivesse cometido o erro de "tomar uma ação contra o Estado de Direito e contra a jurisprudência", teria feito "um grande favor a quem hoje quisesse fazer um pedido de indemnização por danos patrimoniais supervenientes". 

"O Banco de Portugal aceitou-o [Ricardo Salgado] no board. Todavia, os acionistas não convocaram a assembleia-geral para lhe dar poder, para o nomear. Foi o Banco de Portugal contra tudo e contra todos que reforçou a entrada dele no board, porque os acionistas fizeram de tudo para adiar." 

"Seria muito interessante que os banqueiros lessem o capítulo da troika"

Nesta mesma entrevista à CNN Portugal, Carlos Costa aconselhou os banqueiros a ler o capítulo dedicado à troika. "Eu julgo que seria muito interessante que os banqueiros lessem o capítulo de entrada da troika (...). O Banco de Portugal evitou uma nacionalização do sistema bancário. (...) E eu orgulho-me de ter defendido o sistema bancário contra ventos e marés".

Questionado se a troika foi melhor que o PEC 4 (Programa de Estabilidade e Crescimento), cujo chumbo levou à queda do governo de José Sócrates, o ex-governador foi claro: "Não tenho dúvidas nenhuma."

"O PEC 4 precisava de um pacote financeiro. Certamente que há um espírito de grupo em que uns e outros tendem a condescender entre si. Eu coço-te as costas e tu coças as minhas. A presença do FMI na troika era um elemento de garantia de seriedade do programa de ajustamento."

Carlos Costa explicou ainda que tinha um "acordo comum" com Fernando Teixeira dos Santos, na altura ministro das Finanças de José Sócrates, mas estavam "em trincheiras diferentes". "É evidente que Teixeira dos Santos ficou numa posição de sacrifício, mas que teve como contrapartida minimizar os custos do ajustamento que poderia ser feito depois", defendeu. 

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