"Desejar um ofício é essencial, mas não pode ser descartada a realidade". Como devem os indecisos escolher um curso superior?

25 jul, 13:42
Instituto Superior Técnico

Começa esta segunda-feira a primeira fase do concurso nacional para acesso ao ensino superior. Se as notas não forem um problema, o que deve pesar mais na escolha do curso: empregabilidade ou realização pessoal? Um especialista ajuda a decidir

As candidaturas ao ensino superior começaram esta segunda-feira e, como sempre nestas etapas, haverá indecisos até ao último minuto. Mas se as notas dos exames de final de secundário e até a disponibilidade financeira da família para pagar uma renda numa cidade diferente condicionam a escolha do curso, assumindo que ainda há lugar para optar, como devem escolher os indecisos? Com a razão ou com o coração?

A resposta não é simples: "Optar por uma área de estudos a partir da qual o jovem, supostamente, irá entrar no desafiante mundo do trabalho, é cada vez mais uma tarefa importante que merece a maior seriedade de análise", diz o psicólogo Hélder Leal, que trabalha em orientação vocacional, à CNN Portugal. "Esta questão é tão mais importante na medida em que não se trata pura e simplesmente de escolher um curso e ingressar numa faculdade. É muito mais do que isso. É ser genuíno. É ser ele próprio. É o finalmente decidir e permitir-se investir no que é importante para si", sublinha o especialista, que chama a atenção para a necessidade do apoio familiar nesta decisão do jovem.

Este passo, que culmina com "a entrada do jovem no mercado de trabalho e num afastamento em relação à família de origem, em relação a muitas questões", deve ser "muito bem pensado, muito bem preparado", reflete Hélder Leal. E, por isso, o estudante deve ser motivado pelos que o rodeiam a pensar e a "envolver-se em atividades que lhe permitam reduzir as suas incertezas. A família deve apoiá-lo facilitando a sua tomada de decisão", acrescenta o psicólogo. 

E o que deve pesar mais, razão ou coração? Hélder Leal admite que há, na decisão de escolher uma área para desenvolver carreira, um lado "romântico, prazeiroso", até porque "a vida também passa pela fantasia". Mas não devem pôr-se de lado as perspetivas de futuro dessa mesma carreira. 

"Claro que desejar e acreditar amar um ofício, uma área de estudos, é importante, crucial", assinala Hélder Leal. "Mas não deve nem pode ser descartada a realidade", sublinha, pedindo aos estudantes que comecem a pensar nesta decisão "com consciência e tempo", sem se limitarem ao "aqui e agora".

"Se o jovem mantiver muitas incertezas ou tiver de escolher forçosamente porque não conseguiu a nota desejada e necessária num exame, então por vezes também deve contemplar a possibilidade acrescida de aguardar um ano, melhorar as suas notas, desenvolver as suas ideias e finalmente decidir", explica o psicólogo. 

Os interesses da "máquina escolar"

Hélder Leal não deixa de apontar, porém, que mesmo quando se faz atempadamente uma orientação vocacional ao aluno, a decisão final de escolha do curso baseia-se "apenas numa avaliação quantitativa", que passa pelas notas. "Por outro lado, o nosso país está integrado numa união de países em que Bolonha permite uma estandardização do ensino e, portanto, a circulação dos alunos europeus numa busca mais alargada para a realização dos seus ciclos de estudos", assinala, acrescentando que, no seu entender, o que faz sentido "não é a abertura de cursos" no nosso país, contemplando um número mínimo de alunos, "mas a abertura de cursos com resposta às necessidades do nosso país". 

"Ao fazermos isso, apostamos na empregabilidade, na satisfação pessoal, numa sociedade com futuro. Mas, claro, fazemos frente aos interesses da máquina escolar", lamenta. 

O psicólogo lança ainda críticas ao sistema educativo português, que diz estar "completamente ultrapassado" e não considera o aluno como o deveria considerar, o que culmina muitas vezes nos episódios de incerteza quando chega a etapa de fazer a candidatura a um curso do ensino superior.

Para Hélder Leal, a escolaridade obrigatória até ao 12.º ano com alternativas educativas que começam apenas no 10.º ano de escolaridade, "quando na prática todos reconhecem que o insucesso escolar se situa cerca dos sextos e sétimos anos de escolaridade", deveria ser repensada e reavaliada com o objetivo de dar melhores ferramentas aos alunos para decidirem o seu futuro.

O especialista diz mesmo que o ensino profissional deveria estar acessível a partir do sétimo ano e que deveria incluir professores "com know-how". "São mudanças não apenas educativas, mas sociais, profundas", explica. E que, em termos de sucesso profissional, teriam, na visão de Hélder Leal, "garantias elevadas de  satisfação, sucesso e prosperidade".

Saúde e engenharias garantem emprego

Esta segunda-feira abre o concurso nacional para ingressar nas universidades e politécnicos: a primeira fase de candidaturas estende-se de 25 de julho a 8 de agosto e este ano há um reforço de vagas, 53.640 no total. A segunda fase do concurso realiza-se entre 12 e 23 de setembro e a terceira e última fase de candidaturas ao ensino superior irá de 7 a 11 de outubro.

Para apoiar as decisões informadas dos candidatos, o Governo disponibiliza o portal Infocursos, com dados e estatísticas dos cursos superiores disponíveis em Portugal, nomeadamente a lista de licenciaturas ou mestrados disponibilizados por cada instituição de ensino superior pública ou privada. Segundo o portal, que compila informação atualizada sobre os 4.043 cursos técnicos superiores profissionais (CTeSP), licenciaturas, mestrados integrados e mestrados de 2.º ciclo do país, há 33 licenciaturas e cinco mestrados integrados com emprego garantido.

Seis destes cursos são de enfermagem e outros oito são na área da engenharia. Para além dos mestrados integrados de Medicina, que asseguraram sempre emprego aos seus diplomados, o curso de Engenharia Informática e de Computadores, do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, garantiu empregabilidade a todos os 333 alunos.

Já nos cursos com taxa de desemprego mais elevada, segundo o Infocursos, surge em primeiro lugar o curso de Turismo da Universidade Católica, com uma taxa de 17,6% de desemprego, seguindo-se a licenciatura em Marketing da Escola Superior de Comunicação, Administração e Turismo de Mirandela, que pertence ao Instituto Politécnico de Bragança, com uma taxa de 17,2%. Em terceiro, com taxa de desemprego de 17%, mais uma licenciatura em Turismo: desta vez, a da Escola Superior de Tecnologias de Fafe. Nesta lista de menor empregabilidade encontram-se ainda cursos superiores nas áreas das Artes Plásticas, Cinema, Criminologia ou Serviço Social. 

A Fundação José Neves, por exemplo, disponiza um simulador que permite verificar a evolução profissional e perceber o que é necessário para exercer determinada profissão ou desenvolver uma carreira em determinada área. Na plataforma Brighter Future, definida como um "instrumento de pesquisa e análise" que permite comparar dados sobre empregabilidade, educação e competências, os indecisos quanto ao futuro poderão ficar a saber, por exemplo, que a programação informática é uma das competências digitais mais pedidas pelos empregadores no primeiro trimestre de 2022, e que a profissão de especialista em bases de dados e redes é das que maior crescimento registaram nos últimos anos.

De acordo com os dados recolhidos pela plataforma da Fundação José Neves, os cursos com menos propensão ao desemprego (medida a partir do número de recém-diplomados inscritos nos centros de emprego) são os da área da Saúde em primeiro lugar, seguindo-se a Matemática e Estatística, com a Engenharia em terceiro posto.

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