Professores e alunos vincam a mudança nas regras do concurso como a principal causa de uma quebra como há muito não se via. Mas existem também culpas no custo da habitação. Haverá falta de interesse dos jovens em seguir estudos, porque tal não é garantia de uma vida melhor? Todos pedem um estudo, para definir medidas e confirmar se há ou não uma “erosão na confiança da capacidade de o ensino superior ser um elevador social”
É o número mais baixo de colocados na primeira fase do ensino superior desde 2016. E, se a tendência se mantiver, há o risco de o mercado de trabalho em Portugal ficar sem profissionais em áreas onde já hoje existem falhas, como a tecnologia. O aviso vem de vários responsáveis de instituições do ensino superior e de organizações que representam os alunos universitários.
“Preocupante” é a palavra mais repetida para falar da quebra de 12% nos alunos colocados no ensino superior nesta primeira fase.
“Quando estamos a privilegiar a imigração qualificada, devíamos era estar a qualificar a nossa população, reforçando a ação social. É o momento de refletir, para ver o que é o melhor para o país. Estamos a tempo de olhar para o que está a acontecer e aprovar medidas que venham a corrigir a situação”, reage Maria José Fernandes, presidente do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos, também à frente do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave.
“É fundamental que o Governo analise os motivos que explicam estes resultados tão negativos, para existirem políticas que reforcem o compromisso do Estado com o ensino superior”, concorda Pedro Neto Monteiro, presidente da Federação Académica de Lisboa.
Principal culpado: mudanças no concurso
Há um fator que reúne unanimidade, entre professores e alunos ouvidos pela CNN Portugal, na hora de explicar porque houve menos seis mil colocados nesta primeira fase, quando comparado com há um ano: as mudanças no concurso. Este ano, pela primeira vez, passaram a ser exigidas duas provas de ingresso.
“A queda é sobretudo devida à alteração das regras de acesso, com o apertar da malha pelo aumento do número de disciplinas com exames nacionais”, reage Emídio Gomes, reitor da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.
Maria José Fernandes arrisca mesmo dizer que o “novo modelo” é responsável por “90%” desta redução, uma vez que “foram criadas mais dificuldades no acesso”.
Culpado paralelo: o custo do alojamento
Depois, há a questão do alojamento e do custo de vida, que tornam impossível a muitas famílias ter os filhos na universidade. Contudo, vincam os responsáveis pelas instituições de ensino superior, não explica a hecatombe deste ano.
Se todos os anos costuma haver variações “entre os 2% e os 3%”, neste concurso foi de 12%. O problema da habitação já existia no passado e “nunca houve uma avalanche deste tamanho”, alerta Paulo Jorge Ferreira, presidente do Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e reitor da Universidade de Aveiro.
Emídio Gomes vinca que este problema da habitação “afeta sobretudo as grandes áreas metropolitanas, onde a quebra de candidatos foi menos sentida”. “Sendo o interior mais barato, acabou por ser onde a quebra foi mais acentuada”, junta.
Diogo Machado, presidente da Federação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Superior Politécnico, confirma que este é um problema que afeta cada vez mais estudantes, classificando-o como “o maior entrave” depois da matrícula. Há estudantes que conseguem entrar na universidade, mas que, sem conseguir responder ao custo de vida, acabam por desistir durante os estudos. Para muitos, diz, a única alternativa de habitação são “contratos precários, o que não dá a possibilidade de o estudante ter acesso aos apoios”.
Alerta: o mercado de trabalho vai pagar o preço
Se a procura pelo ensino superior seguir esta tendência de quebra, uma coisa parece óbvia para professores e alunos: vão faltar profissionais no mercado de trabalho para as necessidades do país.
“Ficará ainda mais difícil atingir a meta de 60% dos jovens com 20 anos a frequentar o ensino superior em 2030”, aponta Paulo Pereira, presidente do Politécnico do Porto. “Corre-se um risco do ponto de vista do desenvolvimento económico e social”, junta.
Também Paulo Jorge Ferreira lembra que Portugal “ainda não está num patamar de qualificação ao nível das melhores economias” e refere que o maior impacto neste concurso se fez sentir “na engenharia, na informática e em serviços como o turismo”. E, invertendo a tendência positiva dos últimos anos, também aumentou o número de vagas vazias de cursos que formam professores.
Em resumo: o impacto está a acontecer em áreas onde já se sente hoje falta de mão de obra qualificada.
“Uma das áreas que ficou mais prejudicada com a redução de candidatos foi a área digital e das tecnologias, que é fundamental para o desenvolvimento para o país”, nota também Pedro Neto Monteiro.
Falta de interesse?
Poderão estes números refletir um desinteresse dos alunos na passagem pela universidade? Sem um estudo profundo, concordam professores e alunos, não será possível ao Governo perceber a situação e definir medidas em conformidade.
“É fundamental para que se confirme que não há uma erosão na confiança da capacidade de o ensino superior ser um elevador social. A falta de uma perspetiva de vida [ou seja, de evolução na carreira e bons salários em Portugal] pode gerar uma desconfiança em relação ao ensino superior nacional”, reconhece Pedro Neto Monteiro.
A segunda fase do concurso poderá trazer mais dados para perceber se houve uma migração de candidaturas da primeira para a segunda fase ou se a quebra se voltará a sentir. Ainda assim, os responsáveis de instituições de ensino superior ouvidos pela CNN Portugal vincam que a primeira fase continua a ser a mais determinante.