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Jornalista nascido em Madrid de mãe portuguesa. Comentador da CNN Portugal e correspondente do canal espanhol La Sexta.

Um Leão no Reino das Espanhas

6 jun, 19:06
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A visita do Papa ao país vizinho vai encher estádios e pôr as ruas em festa, mas também põe em causa valores da esquerda (laicidade, aborto, eutanásia) e, sobretudo, bandeiras mais ou menos assumidas da extrema-direita (belicismo, xenofobia, elitismo)

A viagem papal pela Espanha é um sucesso mesmo antes de começar, porque a agenda honra o legado de Francisco e vai ao encontro de algumas das grandes preocupações do nosso tempo, nomeadamente a imigração. Robert Prevost vai estar com os mais fracos: migrantes, presidiários e vítimas de abusos, entre outros, mas também com os jovens. 

Poucas vezes incluímos os jovens entre os mais desprotegidos, talvez porque são o que são — jovens — e os que já não o somos (ou não tanto) temos inveja da saúde, do futuro pela frente, da falta de mochilas e manias. Mas também são os que mais sofrem a crise da habitação, a precariedade dos salários, os excessos das novas tecnologias e tantos outros males que nos assolam. 

O Papa também vai estar com os mais velhos e os sem-abrigo, mas a fragilidade, nestes casos, é mais evidente. Vai estar com representantes das artes, da cultura, das empresas e das universidades. Vai benzer a Torre de Jesus da igreja mais alta do mundo (desde fevereiro passado, a Sagrada Família de Barcelona: 172,5 metros) e vai encher o estádio Olímpico de Barcelona e o Santiago Bernabéu, na mesma semana em que se esgotam os bilhetes para ver Bad Bunny no Metropolitano. Curiosamente, Leão XIV acaba de esclarecer que “é do Real Madrid”, e talvez por isso vai ser recebido no estádio do Real, enquanto os concertos do porto-riquenho decorrem na casa do Atlético.

Papa progressista e conservador

Sei que a razão não é essa, mas em tempos de pensamento mágico vale tudo. Como sou laico e ateu, a visita papal não me suscita grande entusiasmo, mas mentiria se dissesse que me deixa indiferente, e não só porque passei três anos numa creche chamada Mater Gratiæ e mais 11 no colégio Nuestra Señora del Pilar. Não fico indiferente porque este Papa está a consolidar-se como referência moral numa época marcada pela agressividade e a polarização instigadas por Donald Trump.

As coincidências do Papa com o Governo progressista espanhol são claras na oposição ao massacre em Gaza, à guerra no Irão, às deportações nos EUA ou ao compadrio dos ‘tecnoligarcas’ (os padrinhos das novas tecnologias) com a Administração norte-americana, que enriquece descaradamente com investimentos em criptomoedas, inteligência artificial (mais ou menos mortífera) e outros brinquedos do presente e do futuro.

Prevost vai discursar no Parlamento espanhol, um templo da palavra e da democracia que abre as portas, pela primeira vez, à intervenção de um pontífice, que também é o chefe de um Estado autocrático onde as mulheres não votam, como denuncia o presidente de Ateus da Catalunha, Albert Riba. As entidades que se opõem à chegada do Papa a Barcelona denunciam ainda a gratuidade do estádio Olímpico para a vigília papal e outros privilégios da Igreja, como as vantagens fiscais imobiliárias ou as receitas obtidas através do IRS em Espanha (mais de 400 milhões de euros só no ano passado).

Elefantes na sala

No avião, a caminho de Madrid, Leão XIV dedicou uns momentos a falar com os vaticanistas, os jornalistas que cobrem a atualidade no Vaticano. Também com o correspondente do El País em Roma, Íñigo Domínguez, que fez parte da equipa que investiga, desde 2018, abusos sexuais em organizações católicas de países hispanófonos. Confrontado pelo jornalista, Prevost respondeu: “Saliento que, não só eu pessoalmente, mas também nos locais por onde passei, sempre trabalhei para estabelecer normas, para as seguir, e continuarei a fazê-lo também a nível de toda a Igreja, porque é uma ferida que ainda está aberta”. 

Até à data, nenhum Papa falou em Espanha sobre este assunto. Domínguez ofereceu a Leão XIV um livro sobre um dos casos mais graves destapados, o do jesuíta espanhol Padre Pica na Bolívia, e uma ‘pen’ com seis relatórios do El País sobre pedofilia na Igreja, incluindo uma lista de 94 altos funcionários eclesiásticos acusados de encobrir casos publicada pouco antes da viagem pontifícia.

Antes de aterrar em Madrid, Prevost alertou para o maior perigo que enfrenta a Igreja em Espanha: a manipulação por parte da extrema-direita. O antagonismo com o Vox, cujos dirigentes são maioritariamente católicos, mas anti-imigração, é frontal — algo que não deve surpreender, tendo em conta o alinhamento, ou mesmo dependência, do Vox e dos partidos afins europeus (Chega, AfD, Fidesz e companhia) com o mundo MAGA ou mesmo ‘trumpiano’. 
Se a extrema-direita tenta reconciliar-se com o Papa durante a visita, para não sair mal na foto, na extrema-esquerda não há contradições nem vontade de disfarçar. Leão XIV é contra o aborto, a eutanásia, os casamentos igualitários... e por isso não pode haver afinidade com partidos como Unidas Podemos ou Somar.

Num país onde cada vez há menos católicos (como no resto da cristandade europeia), as posições antibelicistas do Papa são partilhadas por quase 70% dos espanhóis, de acordo com uma sondagem recente. Quase 60% da população opõe-se também às deportações em massa nos EUA e são maioria os que defendem a regularização de mais de meio milhão de imigrantes impulsionada pelo Governo esta primavera, aplaudida pelo Vaticano. 

Os votantes dos dois partidos maioritarios, PP e PSOE, são os que melhor opinião têm de Leão XIV e da primeira visita à Espanha de um pontífice desde 2011. No antigo Reino das Espanhas, as lutas pelo poder que enfrentaram Leão, Navarra, Castela ou Aragão não impediram as alianças posteriores entre monarcas cristãos que deram lugar à união dinástica consolidada pelos Reis Católicos. 

Mais de quinhentos anos depois, esses mesmos reinos transformados em comunidades autónomas continuam a receber o bispo de Roma de braços abertos. A minha esperança, enquanto votante laico e progressista preocupado pelo avanço da extrema-direita, é que este Papa ajude a desmascarar e enfraquecer o discurso xenófobo, belicista e polarizante de um número crescente de políticos e figuras públicas. Que contribua, em 2026, para a dissolução do populismo de extrema-direita, do mesmo modo que João Paulo II contribuiu para a queda do comunismo no final do século passado.

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