Engordar enquanto se está numa relação é real (especialmente se estiver feliz)

CNN Portugal , FMC
6 nov, 17:00
Casal (Getty Images)

A comida está presente em inúmeras atividades a dois e isso pode ter sentir-se na balança

De certeza que já ouviu alguém desabafar que ganhou algum peso depois de entrar numa relação, ou se calhar até já lhe aconteceu e ouviu o comentário “é normal, é sinal de que estás feliz”. E tal pode ser verdade. Estar numa relação duradoura e estável pode levar a que um dos membros ou até os dois ganhem algum peso, especialmente a partir do momento em que passam a viver juntos.

“É, de facto, algo muito frequente e uma dificuldade partilhada em consulta”, explica a nutricionista Lillian Barros. “Embora namorar, casar ou viver em conjunto por si não engorde, os novos hábitos podem ter um grande impacto, o que se reflete num maior consumo energético”, acrescenta.

Ainda que não existam muitos estudos científicos que estabeleçam uma relação de causa-efeito, como adverte o vice-presidente da Ordem dos Nutricionistas, José Camolas, aparentemente, existe alguma predisposição para o aumento de peso quando se está numa relação amorosa.

O jornal espanhol El País menciona duas investigações que verificam uma correlação. O primeiro, que foi publicado em 2012 na revista “Obesity”, concluiu que quanto mais tempo as mulheres passassem numa relação estável, mais quilos ganhavam. No caso do sexo masculino, o risco de aumento de peso disparava nos dois primeiros anos de coabitação e depois estabilizava. Para os autores do estudo, não existia só um culpado para estas mudanças, mas um conjunto de alterações de hábitos.

Em 2016, um outro artigo mostrou que quanto mais feliz era um casal, maior a tendência de engordar. Por outro lado, os investigadores notaram que quem estava infeliz, era mais ativo na luta contra o excesso de peso.

Porque é que tal acontece?

José Camolas refere, culturalmente, existe muito a tendência das pessoas “se mimarem umas às outras através da alimentação. Vão cozinhar como ato de amor e afeto”.

“É, como diz a sabedoria popular, os homens conquistam-se pelo estômago”, brinca. Na verdade, a tentativa de agradar ao outro leva muitas vezes o casal a comer com mais frequência alimentos menos saudáveis.

Lillian Barros acrescenta ainda que “a comida está presente em inúmeras atividades a dois. Sentar no sofá a ver um filme, comer pipocas ou gelado, pedir pizza ou sushi para jantar quando há preguiça de cozinhar, oferecer bombons para consolar depois de um dia difícil ou jantar fora para comemorar alguma data festiva, sem
esquecer o vinho a acompanhar a refeição”. São tudo hábitos que potenciam o aumento do peso, esclarece.

Aliado aos hábitos alimentares, é comum que o exercício físico passe para segundo plano. O tempo começa a escassear e os elementos do casal começam a privilegiar o tempo em conjunto, adotando um estilo de vida mais sedentário.

Além disso, se apenas um dos dois estiver investido em manter uma dieta saudável e equilibrada, o sucesso torna-se complicado.

“Se um estiver a comer um bolo, é provável que o outro se junte. Se um quiser comprar bolachas para ter em casa, o outro sentir-se-á tentado a comê-las por saber que estão na despesa”, nota Lillian Barros.

Existe ainda outro fator que ambos os especialistas referem: sentir-se feliz e segura numa relação contribui para que não exista uma preocupação tão grande com a imagem.

“As pessoas solteiras ou em fase de namoro têm a tendência para ter um maior cuidado com a aparência, procurando manter a linha para atrair a atenção do outro. Já os casais felizes e seguros do seu casamento podem não sentir esta pressão e deixarem a aparência para segundo plano”, esclarece a nutricionista.

Como se combate?

Ambos os especialistas indicam que a melhor forma de combater os quilos extra e com os quais não nos sentimos tão confortáveis é com um bom trabalho em equipa.

Se ambos estiverem investidos em fazer uma dieta e tiverem objetivos em comum, o processo fica mais fácil. “Quando um estiver menos motivado e pensar em desistir ou ingerir algum alimento menos saudável, o outro pode estimulá-lo a seguir o caminho certo”, nota Lillian Barros.

Se o parceiro ou parceira não for uma rede de apoio, a tarefa fica muito mais difícil, acabando por existir quase “um boicote” que conduz a uma rápida desistência do processo, afirma José Camolas.

Além da motivação, ter o apoio do companheiro “é uma estratégia que simplifica não só a escolha das refeições, como a escolha dos produtos a comprar no supermercado e a escolha do restaurante para um jantar romântico”, indica a especialista.

Se realmente o excesso de peso se tornar um problema para a autoestima e confiança e começar a ser sinónimo de problemas de saúde, o trabalho em conjunto e a adoção de outros hábitos podem ajudar a voltar ao peso que idealizam. Para tal, existem algumas dicas, elencadas por Lillian Barros, que podem ajudar.

Em primeiro lugar, aconselha a especialista, importa que sejam estabelecidos objetivos concretos e realistas, sendo que pode “nem se prender com um número na balança. Podem ser metas relacionadas com o aumento da qualidade de vida, como por exemplo ter mais saúde”, afirma.

Para ajudar a delinear um plano, pode ser crucial consultar um nutricionista. José Camolas afirma que “trabalhar com casais” é realmente benéfico, uma vez que se motivam um ao outro a cumprir o plano.

Outra dica importante é o planeamento das refeições em conjunto, ao que acresce fazer a lista de compras, tendo em mente as metas que cada um definiu. Para além disso, nenhum dos dois pode deixar-se levar pelos corredores da tentação, como os dos chocolates ou bolachas.

Pode ainda ser uma mais-valia para o casal, tanto para a adoção de um estilo de vida mais saudável como para o fortalecimento do relacionamento, a confeção em conjunto. Desta forma, adquirem uma nova rotina e podem inventar receitas, procurando substituir certos ingredientes por uns menos calóricos, como, por exemplo~, trocar as natas gordas por  natas de soja, leite ou bebida vegetal. Neste aspeto, a nutricionista aconselha ainda a que se criem pequenos desafios. Porque não ter um dia em que só se comam refeições vegetarianas?

Se, por outro lado, é um casal que gosta de comer fora ou que não possui grandes dotes culinários, optando por encomendar as refeições, não tem de deixar de o fazer. Contudo, podem adequar o que é escolhido, deixando de lado restaurantes que não oferecem as escolhas mais compatíveis com os objetivos.

Em relação às refeições, a especialista aconselha ainda a que não se coma mais do que o que é preciso. Também José Camolas explica que é algo muito comum, “há uma tendência de comer tudo o que se tem no prato” e, muitas vezes, é demais. “Cada um deve servir o seu próprio prato”, aconselha o especialista e caso tal não seja possível, como num restaurante, Lillian Barros recomenda a que as sobras sejam “levadas para casa e reaproveitadas”.

Além das refeições, existem outras práticas que podem ser boas aliadas, como beber muita água, ter uma boa rotina de sono, e praticar exercício físico.

Se os dois estiverem motivados a adotar um estilo mais ativo, como ir ao ginásio, praticar um desporto ou até fazer caminhadas diárias, vai ser mais fácil sentirem-se concretizados.

Ainda assim, o processo pode ser duro, como adverte Lillian Barros, e, por isso, um dos pontos fundamentais é que em casal sejam partilhadas as dificuldades sentidas e que sejam procuradas, em conjunto, as melhores estratégias para as ultrapassar. A especialista alerta ainda que, neste caminho, é importante não esquecer que “cada um tem o seu ritmo” e que é preciso paciência e entender que pode ser algo moroso, evitando sentimentos de frustração.

“Não encarar a dieta como “perdido por cem, perdido por mil”. Se comerem mais do que tinham estipulado, não encarem como se estivesse tudo perdido”, recomenda a especialista.

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