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Presidente da Associação Portuguesa de Energias Renováveis

Renováveis: a escolha inteligente que a Europa não pode adiar

12 jan, 13:02

Um sistema energético assente em fontes renováveis permitiria à União Europeia poupar 1,637 biliões de euros até 2050, o equivalente a 9% do PIB europeu ou ao total da despesa anual em saúde do bloco comunitário

O debate sobre a transição energética continua a ser marcado por hesitações políticas e perceções erradas, mesmo quando os dados mais recentes mostram que a Europa tem muito a ganhar com a mudança.

Um novo estudo da WindEurope e da Hitachi Energy reforça esta evidência: um sistema energético assente em fontes renováveis permitiria à União Europeia poupar 1,637 biliões de euros até 2050, o equivalente a 9% do PIB europeu ou ao total da despesa anual em saúde do bloco comunitário. Os números são tão expressivos que deveriam, por si só, encerrar o debate.

Para quem insiste em levantar dúvidas sobre os custos das redes, do armazenamento ou do backup, o estudo é taxativo: mesmo contabilizando todas essas necessidades, um sistema baseado em altas quotas de renováveis continua a ser, de longe, o mais barato e o mais eficiente.

O estudo compara dois caminhos possíveis. No primeiro, a Europa aposta na eletrificação rápida e na expansão massiva da energia eólica e solar. No segundo, mantém uma transição lenta, prolongando a dependência dos combustíveis fósseis.

As conclusões são inequívocas: só até 2035, o cenário renovável permitiria poupar 331 mil milhões de euros face ao cenário mais conservador. Não se trata apenas de uma diferença contabilística; representa uma mudança estrutural na forma como a Europa organiza a sua economia, gere os seus recursos e assegura a sua autonomia estratégica.

O relatório desmonta também a ideia de que alternativas como a energia nuclear, o hidrogénio ou a captura de carbono poderiam constituir soluções economicamente mais vantajosas. Qualquer aposta pesada nessas tecnologias acarretaria custos adicionais entre 487 mil milhões e 860 mil milhões de euros até 2050. Mesmo considerando os investimentos necessários para eletrificar a indústria pesada e modernizar as redes, o modelo renovável continua a ser o mais económico, o mais resiliente e único que, ao permitir aumentar a segurança energética, cria as condições necessárias para assegurar soberania política.

A dimensão económica não é a única relevante. A questão energética tornou-se, sobretudo após a invasão da Ucrânia, uma questão de soberania. No cenário renovável mais ambicioso, a dependência energética europeia cai de 71% em 2030 para apenas 22% em 2050. No cenário lento, permanece em níveis incompatíveis com estabilidade geopolítica: 78% em 2030 e 54% em 2050.

Em 2000, a energia eólica e solar representava 0,8% da eletricidade europeia; hoje representa 30%. As emissões caíram quase um terço e a economia cresceu 45%. Não há qualquer vantagem em abrandar a ambição climática. A verdadeira questão já não é “se” devemos avançar, mas quanto custará continuar a adiar o inevitável.

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