O Dia Mundial da Energia que acabámos de comemorar a 29 de maio é uma oportunidade única para refletir sobre como podemos melhorar a forma de produzir, comercializar e consumir energia e, dessa forma, contribuir para melhorar o nosso futuro enquanto sociedade.
Num contexto de transição energética, alterações climáticas, maior exigência regulatória e crescente preocupação com os custos suportados por famílias e empresas, a energia deixou de ser apenas um bem essencial para passar a ser também um fator central de competitividade, segurança, sustentabilidade e inovação.
Nos últimos anos, o mercado da energia em Portugal conheceu uma evolução profunda. A liberalização trouxe maior diversidade de ofertas, novos agentes, mais concorrência e uma relação mais dinâmica entre comercializadores e consumidores. Mas esta evolução trouxe também novos desafios: volatilidade dos preços, maior complexidade regulatória, pressão sobre margens, necessidade de digitalização e coexistência entre mercado livre e mercado regulado.
Os dados mais recentres mostram a dimensão desta transformação. Em 2025, o consumo de energia elétrica abastecido a partir da rede pública atingiu 53,1 TWh, o valor anual mais elevado de sempre no SEN, ultrapassando o anterior máximo histórico de 2010. No mesmo ano, as fontes renováveis abasteceram cerca de 68% do consumo nacional, com destaque para a produção solar fotovoltaica, que cresceu 25%. Estes números demonstram que Portugal está a consumir mais eletricidade, a integrar mais renováveis e a tornar o sistema elétrico mais exigente e complexo.
É neste contexto de maior complexidade que os comercializadores de energia desempenham um importante papel. O funcionamento do mercado liberalizado exige regras mais claras, maior previsibilidade regulatória e condições de concorrência equilibradas. Não descurando também o impacto crescente dos custos de gestão do sistema, os quais afetam os comercializadores e, direta ou indiretamente, acabam por se refletir nos consumidores. Em muitos casos, os comercializadores são também os consultores de empresas e consumidores nas suas escolhas, com impacto na eficiência energética. Durante muito tempo, a redução do consumo foi vista como um risco para quem vende energia. Mas, num mercado moderno como o nosso, o valor do comercializador reside na capacidade de ajudar o cliente e reduzir desperdícios, otimizar contratos, gerir riscos de preço, integrar produção renovável e tomar decisões energéticas mais inteligentes.
Este é um ponto essencial: a transição energética é incontornável, mas tem custos. A integração crescente de produção renovável, o reforço das redes, os serviços de sistema, a necessidade de equilíbrio entre produção e consumo, a digitalização, o armazenamento, a flexibilidade e a segurança de abastecimento implicam encargos que devem ser conhecidos, justificados e explicados.
A própria ERSE recorda que as tarifas de acesso às redes são repercutidas nas faturas de todos os consumidores, quer estejam no mercado regulado, quer estejam no mercado liberalizado. Por isso, o consumidor deve compreender que a sua fatura não resulta apenas da energia que consome ou do preço contratado com o comercializador. Inclui também componentes reguladas, custos de rede, encargos de política energética e custos necessários ao funcionamento seguro e equilibrado do sistema.
Defender faturas mais baixas não significa ignorar os custos de transição. Significa exigir transparência, previsibilidade e uma repartição equilibrada desses custos.
Importa também trazer para o debate uma ideia que pode parecer contraditória: é possível consumir mais energia e pagar menos. Esta afirmação não significa defender o desperdício. Significa reconhecer que a eletrificação da economia pode conduzir a um aumento do consumo elétrico e, ao mesmo tempo, a uma redução da fatura energética global.
Uma empresa pode consumir mais eletricidade e reduzir custos se substituir combustíveis fósseis por soluções elétricas mais eficientes, se otimizar horários de consumo, se contratar melhor, se investir em autoconsumo, armazenamento, monitorização e gestão ativa da procura. Da mesma forma, uma família pode aumentar o consumo elétrico ao carregar um veículo elétrico ou instalar uma bomba de calor, e ainda assim reduzir a sua despesa total com energia. O objetivo não deve ser simplesmente consumir menos, deve ser consumir melhor.
As Comunidades de Energia Renovável e o autoconsumo coletivo são expressão clara desta transformação. O consumidor deixa de ser apenas destinatário final da energia e passa a poder produzir, partilhar e gerir energia de forma mais ativa. Também aqui, fruto do seu conhecimento, os comercializadores podem ser fundamentais na criação, gestão e operação de comunidades de energia, autoconsumos coletivos e soluções integradas de autoconsumo, armazenamento e mobilidade elétrica.
O futuro do setor não estará em vender energia sem critério. Estará em garantir que cada kWh consumido cria mais valor, custa menos ao consumidor e contribui para um sistema energético mais eficiente, renovável e resiliente.
Estamos a um ano de celebrar o próximo Dia Mundial da Energia, e o sucesso da nossa evolução irá medir-se pela nossa capacidade, enquanto sociedade, de acelerar a transição energética, com o mercado, com os consumidores e com os comercializadores. Este processo só é possível se for feito com todos. E faz-se melhor quando a energia é consumida de forma mais inteligente, mais eficiente, mais autónoma, mais transparente e mais justa.
