Europa prepara-se para criar a maior reserva da energia que Trump mais detesta para responder aos EUA

26 jan, 14:19
Energia Eólica no Mar do Norte (Getty)

Países europeus com costa no Mar do Norte ambicionam edificar um parque eólico com capacidade de 300 gigawatts (GW) até 2050

Vários países do norte da Europa estão juntos para discutir a tecnologia energética que Donald Trump mais detesta. A descrição relativa à energia eólica é do POLITICO e serve para falar da reunião que vai juntar, esta segunda-feira, Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Irlanda, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Islândia e Reino Unido em Hamburgo.

A terceira edição da Cimeira do Mar do Norte que, desde 2022, reúne os países empenhados em fazer desta zona marítima, conhecida pelas águas pouco profundas e vento constante, o pilar central da independência energética europeia. O encontro surge duas semanas após o conflito entre Estados Unidos (EUA) e União Europeia (UE) sobre a Gronelândia, e parece que a resposta de Bruxelas a Trump é simples: aumentar maciçamente a produção de energia eólica no Mar do Norte.

A ser assinada pelos representantes presentes, a Declaração de Hamburgo firma o compromisso de construção de projetos conjuntos de energia eólica offshore capazes de gerar 100 gigawatts (GW), o que equivale aproximadamente à capacidade total de geração de energia elétrica anual do Reino Unido.

O objetivo é o mesmo desde o início dos encontros: edificar um parque eólico com capacidade de 300 gigawatts (GW) até 2050. O projeto transformaria esta na principal bacia de energia offshore do mundo, como escreve o jornal Le Monde. E, neste momento de tensões crescentes entre europeus e norte-americanos por culpa da crise da Gronelândia, esta é uma conquista especialmente simbólica, até porque o ano passado foi o primeiro em que a União Europeia produziu mais eletricidade a partir das energias eólica e solar do que de combustíveis fósseis.

Para além dos dez ministros da Economia dos países da região, o chanceler alemão, Friedrich Merz, também estará presente no encontro e receberá outros quatro chefes de Estado ou governo, de acordo com o jornal francês. Vão ainda atender à cimeira o comissário europeu da Energia, Dan Jørgensen, e, pela primeira vez, um representante da NATO para que sejam discutidas questões de segurança da infraestrutura.

É esperado que os dez países aprovem um plano amplo com vista a acelerar o desenvolvimento da energia eólica offshore do Mar do Norte. Para isso, Estados, indústria e operadores de redes elétricas devem assinar um “pacto de investimento” com o propósito de garantir a implantação de uma nova capacidade de produção entre 2031 e 2040 que terá como meta um acréscimo de produção anual de 15 GW. Atualmente, a Europa tem uma capacidade eólica offshore de 37 GW.

O POLITICO, que cita fontes do governo alemão familiarizadas com o assunto, refere que é esperado que desta terceira edição da Cimeira do Mar do Norte saiam três declarações assinadas. Além da Declaração de Hamburgo, em que os chefes de Estado se comprometem com estreita cooperação e esforços conjuntos para garantir a segurança de infraestruturas críticas, os ministros da Energia deverão assinar outra declaração com a infraestrutura de rede necessária para parques eólicos offshore, incluindo medidas de financiamento e aceleração do planeamento.

E, por último, haverá um Pacto Conjunto de Investimento em Energia Eólica Offshore para o Mar do Norte, assinado pelos ministros da Energia e principais atores do setor. Ambos os lados prometem fazer todo o possível para que a energia eólica offshore volte a ser viável.

Parque de Eólicas no Mar do Norte, em águas do Reino Unido (Getty)

Ao POLITICO, o secretário de Energia do Reino Unido, Ed Miliband, e o comissário de Energia da UE, Dan Jørgensen, garantiram que esta reserva de energia verde sem precedentes permitirá à União Europeia “produzir energia limpa internamente e "oferece uma alternativa à crescente dependência da UE em relação ao gás natural liquefeito importado, em que grande parte vem agora dos EUA".

“Depender tanto dos combustíveis fósseis, sejam eles provenientes da Rússia ou de qualquer outro lugar, não nos garante a segurança energética e a prosperidade de que precisamos. Isso torna-nos extremamente vulneráveis ​​à volatilidade dos mercados internacionais e à pressão de atores externos”, afirmam.

O entusiasmo com o projeto megalómano de energias renováveis não consegue, no entanto, esconder um facto que se mantém: embora esteja num declínio lento nos últimos anos, o gás natural continua a representar quase um quarto do fornecimento de energia à Europa e é fundamental para manter a indústria europeia em funcionamento.

Junta-se a isso ainda o facto de alguns países e empresas europeias não estarem convencidos de que é necessário impedir a chegada de petroleiros norte-americanos e Trump sabe-o. Como se pôde ver no discurso do presidente norte-americano no Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça, em que ridicularizou as eólicas que os europeus têm vindo a instalar e classificando-os como “perdedores”.

Os EUA são o maior exportador mundial de gás natural e, desde que a UE deu início à interrupção do fornecimento de gás russo através do Nord Stream, as importações para o velho continente vindas da América do Norte quadruplicaram, como detalha o o Instituto de Economia Energética e Análise Financeira (IEEFA).

O gás norte-americano foi peça-chave para permitir a Bruxelas impor sanções económicas mais presadas à Rússia e abandonar a energia russa. Contudo, esta crescente dependência da energia de Washington ganhou um significado geopolítico completamente diferente assim que Trump regressou à Casa Branca.

Em suma, a Europa transferiu as importações de combustíveis fósseis de uma fonte não confiável, a Rússia, para um conjunto de novas fontes potencialmente não confiáveis. A Comissão Europeia tem vindo a reconhecer que esta “dependência energética excessiva” de qualquer um destes produtores de combustíveis fosseis constitui um “risco de repetir os problemas anteriores” como aconteceu com a Rússia.

Foi precisamente com este pensamento em mente que surgiu a Cúpula do Mar do Norte, em 2022, vista como uma espécie de antídoto para a dependência energética, perante o receio latente de que Trump ouse usar o gás como arma, tal como fez Putin após a invasão da Ucrânia.

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