A 11 de março de 2011, um terramoto de magnitude 9.0 e uma onda de 15 metros mudaram para sempre o debate nuclear global. O tsunami que atingiu a costa nordeste do Japão provocou um triplo colapso na Central Nuclear de Fukushima Daiichi. O desastre atingiu o valor máximo de 7 na escala internacional de acidentes nucleares. É o único evento para além de Chernobyl, em 1986, a atingir o máximo da escala. Mais de cento e cinquenta mil pessoas foram evacuadas. O terramoto (o maior jamais registado) e o tsunami causaram aproximadamente vinte mil mortes. Pensa-se que 2500 indivíduos ainda estão desaparecidos. Mais de 120.000 casas foram destruídas e, em fevereiro de 2025, quase 30.000 sobreviventes ainda permaneciam em alojamentos temporários. O custo humano é impressionante. Estima-se que mais de duas mil pessoas tenham sucumbido ao stress, ao deslocamento forçado, e a perturbação causadas por terem visto as suas vidas disrompidas.
No entanto, só há uma fatalidade direta devido a radiação.
As fusões dos núcleos de três dos quatro reatores (core meltdowns) da central deveram-se a um mau desenho. A proteção anti-tsunami não teria sido bem concebida, causando a inundação dos pisos mais baixos. Era precisamente nesses pisos que se encontravam os geradores a diesel usados em situação de emergência. Sem possibilidade de retirar o calor excessivo dos núcleos, estes derretem. No entanto, as explosões não foram dos reatores. Não eram explosões nucleares, mas sim explosões químicas de hidrogénio. Cada edifício que alberga o reator possui também uma piscina onde antigos elementos de combustível são colocados durante anos para arrefecer. Estes elementos estão contidos dentro de varetas de zircónio, que, a temperaturas elevadas reagem com a água, formando óxido de zircónio e moléculas de hidrogénio (Zr + 2H2O →ZrO2 + 2H2). Foi este hidrogénio, acumulado dentro dos edifícios, que causou as explosões. Tivessem sido respeitados todos os procedimentos de segurança e hoje a história poderia ser diferente. Poucos se recordam da central gémea de Fukushima Daini ou mesmo de Onagawa, mais próxima do epicentro do terramoto, mas onde nada aconteceu.
O Japão via-se assim com uma tragédia humana dupla: as mortes causadas pelo sismo e o trauma de um acidente nuclear. O processo de cura vai demorar décadas e as repercussões económicas não são desprezáveis. Os custos totais da remediação do acidente estão estimados em 160 mil milhões de euros, com tendência a aumentar. Estes custos incluem o desmantelamento, a descontaminação, e as reparações às vítimas, uma parcela com o mesmo peso que o desmantelamento em si. Mas, ao contrário da abordagem soviética em Chernobyl, o Japão optou por uma partilha aberta de informação desde o início. O processo de mitigação e desmantelamento é governado pela Agência Internacional de Energia Atómica e inspecionado por outras nações. A água contaminada durante o processo de desmantelamento será libertada no oceano, após processamento pelo sistema ALPS. Este processo retira todos os elementos radioativos com a excepção do trítio, um isótopo do hidrogénio, por ser quimicamente idêntico a este. Os níveis de trítio têm sido regularmente monitorizados internacionalmente e não constituem um perigo para a saúde pública.
O sector nuclear aprende e evolui. Das lições de Fukushima, uma delas foi a instalação de conversores catalíticos, capazes de eliminar acumulações de hidrogénio em excesso. Estando presentes em Zaporizhzhia, sabemos hoje que, mesmo após vários impactos balísticos, um evento tipo Fukushima seria hoje improvável nessa central. A Ucrânia, o outro país palco de um acidente nuclear no máximo da escala, olha hoje para a energia nuclear como garantia de independência e segurança energéticas e procura mesmo construir mais reatores.
O mesmo se passa no Japão, que faz também uma aposta forte na energia nuclear. Recentemente, reiniciou um dos reatores de Kashiwazaki-Kariwa, a maior central nuclear do mundo. O governo nipónico mostra-se favorável ao aumento da contribuição da energia nuclear dos actuais 10% para 20% do mix de eletricidade em 2040. A energia nuclear tem ajudado o Japão a ver-se livre da sua dependência de importações de gás natural. A maioria das forças políticas nipónicas são favoráveis à energia nuclear. Quinze anos depois, o Japão olha para a energia nuclear como uma forma de atingir as suas metas climáticas e de reduzir a insegurança de abastecimento energético, sem os estigmas do passado.
Não deixa de ser curioso que o medo de acidentes nucleares seja menor nos países que de facto os sofreram. E é bom ver a Europa finalmente a acordar para o erro estratégico que foi ter abandonado a energia nuclear.