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Mulheres com endometriose enfrentam quatro vezes mais riscos de ter cancro dos ovários, sugere estudo

CNN , Jacqueline Howard
18 ago 2024, 17:00
Ecografia (Associated Press)

O risco de desenvolver cancro do ovário parece quadruplicar entre as mulheres com endometriose, em comparação com as mulheres a quem não foi diagnosticada a doença, indica um novo estudo.

Os cientistas sabem que a endometriose pode estar associada a um risco acrescido de cancro do ovário, mas o estudo explica como esse risco pode variar consoante os subtipos de endometriose.

A endometriose é uma doença comum e frequentemente dolorosa que ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora do próprio útero. Estima-se que afete mais de 11% das mulheres com entre 15 e 44 anos de idade nos Estados Unidos.

As mulheres com formas graves da doença – endometriose infiltrativa profunda, endometriomas do ovário ou ambos – têm um risco global de cancro do ovário “acentuadamente aumentado”, cerca de 9,7 vezes superior, em relação às mulheres sem endometriose, aponta o estudo, publicado na quarta-feira na revista médica JAMA. A forma de endometriose profundamente infiltrada encontra-se nas profundezas do tecido ou do órgão e os endometriomas do ovário, por vezes chamados “quistos de chocolate”, são quistos que se formam no ovário.

E as mulheres com endometriose infiltrativa profunda, endometriomas do ovário ou ambos parecem enfrentar um risco quase 19 vezes maior de cancro do ovário de tipo I, que tende a crescer mais lentamente, em comparação com as mulheres sem endometriose, de acordo com o estudo.

Contudo, as pessoas com endometriose não devem entrar em pânico com os resultados do novo estudo, dizem os especialistas, porque o cancro do ovário em si ainda é raro.

De acordo com o Instituto Nacional do Cancro, cerca de 1,1% das mulheres norte-americanas serão diagnosticadas com cancro do ovário em algum momento da sua vida. Este ano, estima-se que haverá cerca de 20 mil novos casos de cancro do ovário e que cerca de 13 mil pessoas morrerão da doença.

“É de notar que, devido à raridade do cancro do ovário, a associação com a endometriose apenas aumentou o número de casos de cancro em 10 a 20 por cada 10 mil mulheres”, afirma Karen Schliep, autora principal do novo estudo e professora associada da Divisão de Saúde Pública da Faculdade de Medicina da Universidade do Utah.

“Não recomendamos, nesta altura, qualquer alteração nos cuidados clínicos ou na política”, adianta. “A melhor forma de prevenir o cancro do ovário continua a ser a recomendação de fazer exercício, não fumar e limitar o consumo de álcool.” Para além da idade, ter historial de família de cancro do ovário, cancro da mama ou cancro colorrectal é também um fator de risco importante para o cancro do ovário.

Em geral, as pessoas com endometriose devem estar cientes dos sinais de alerta do cancro do ovário, incluindo inchaço, dor abdominal e alterações na função intestinal ou da bexiga, diz por email BJ Rimel, oncologista ginecológico e diretor médico do Cancer Clinical Trials Office no Hospital Cedars-Sinai, que não estava envolvido no estudo.

“Se uma pessoa tem endometriose e as pílulas contracetivas orais foram recomendadas pelo seu médico para tratamento ou apenas para contraceção, então eu definitivamente consideraria tomá-las”, sublinha Rimel. “As pílulas contracetivas orais estão associadas a uma redução de 50% do risco de cancro do ovário, o que é uma excelente notícia.”

Investigadores detetam aumentos “chocantes”

Para o novo estudo, uma equipa de investigadores dos Estados Unidos analisou dados de cerca de 500 mil mulheres do Utah, com idades compreendidas entre os 18 e os 55 anos. Os dados provêm da Base de Dados Demográficos do Utah no Instituto Huntsman de Cancro, e os investigadores analisaram de perto quantas mulheres foram identificadas como tendo endometriose nos seus registos de saúde electrónicos, bem como quantas desenvolveram cancro do ovário entre 1992 e 2019, com base no Registo do Cancro do Utah.

Os pesquisadores descobriram que o risco de todos os tipos de cancro de ovário era 4,2 vezes maior entre as mulheres com endometriose do que nas mulheres sem a doença. O risco de cancro do ovário de tipo I era “especialmente elevado”, aponta o estudo, cerca de 7,5 vezes mais elevado nas mulheres com endometriose, e o risco de desenvolver cancro do ovário de tipo II – que pode ser mais agressivo – era cerca de 2,7 vezes mais provável.

“A magnitude destas associações varia consoante o subtipo de endometriose”, escrevem os investigadores. “Os indivíduos diagnosticados com endometriose infiltrativa profunda e/ou endometriomas do ovário tinham 9,66 vezes mais risco de [terem] cancro do ovário em comparação com indivíduos sem endometriose.”

Os investigadores descobriram que, em relação às mulheres sem qualquer tipo de endometriose, as mulheres com endometriose infiltrativa profunda têm o risco mais elevado de cancro do ovário em geral – cerca de 18,8 vezes mais elevado – e as mulheres com endometriose infiltrativa profunda juntamente com endometriomas do ovário tinham o segundo risco mais elevado, cerca de 13 vezes mais elevado.

Estes aumentos dramáticos foram surpreendentes para Schliep e os seus colegas.

“Ver este salto de dez vezes, com intervalos de confiança bastante apertados entre oito e 12 vezes, e depois um risco 19 vezes maior, como epidemiologista, nem sempre se vê esse tipo de relações”, diz Schliep. “Essa é a parte que foi chocante para mim, apenas do ponto de vista da epidemiologia.”

Os dados do estudo não indicaram quais as mulheres com endometriose que foram tratadas especificamente com contracetivos orais ou com agonistas da hormona libertadora de gonadotropina, o que poderia distorcer ligeiramente os dados, uma vez que as pílulas anticoncecionais estão associadas a um menor risco de cancro do ovário e ainda não está claro quais as associações que os agonistas da hormona libertadora de gonadotropina podem ter no risco de desenvolver cancro. Para além disso, algumas mulheres indicadas como não tendo endometriose nos dados poderiam não ter sido diagnosticadas ou ter sido incorretamente diagnosticadas.

Mas, de um modo geral, o estudo vem contribuir para o corpo de investigação que sugere uma ligação entre a endometriose e o risco de cancro do ovário, escreve Michael McHale da Universidade da Califórnia, em San Diego, num editorial que acompanha o novo estudo no JAMA.

“Além disso, estes dados apoiam a importância de aconselhar as mulheres com endometriose profunda infiltrativa e/ou ovariana relativamente ao risco acrescido de cancro do ovário. Embora o número absoluto de cancros do ovário seja limitado, o aumento do risco é significativo”, refere no editorial. “Nas mulheres que já não vão engravidar ou que têm opções alternativas de fertilidade, deve ser discutida e considerada a possibilidade de uma cirurgia mais definitiva. Como sempre, a tomada de decisões partilhada é essencial, tendo em conta estes dados em evolução.”

‘Em geral, o risco ainda é relativamente reduzido’

O novo estudo mostra a associação mais forte até à data entre a endometriose e o risco de cancro do ovário, afirma Tatnai Burnett, especialista em cirurgia ginecológica minimamente invasiva da Mayo Clinic em Rochester, no Minnesota, que não esteve envolvido na investigação mas cujo trabalho se centra na endometriose.

Burnett acrescenta que esta associação pode ser motivada por uma série de fatores.

“Sabemos que uma proliferação anormal de células – como na endometriose, em que vemos células onde não deveriam estar – é um fenómeno genético. As células ganham a capacidade de se moverem ou de estarem em sítios e, provavelmente, existe alguma relação genética com isso”, indica.

“Mas depois há uma série de outras ligações potenciais, desde ligações inflamatórias a fatores imunológicos”, acrescenta. “As associações potenciais são múltiplas, pelo que não creio que possamos efetivamente adivinhar uma coisa em particular.”

Ainda assim, as pessoas que têm endometriose não devem entrar em pânico com a associação, ressalta Burnett.

“O risco, em geral, ainda é relativamente reduzido entre os riscos de cancro”, afirma. “Atualmente, mesmo com os níveis de risco conhecidos, não recomendamos qualquer rastreio universal para as doentes com endometriose e não vejo que isso mude necessariamente. Já acompanhamos as mulheres com endometriomas ou endometriose cística com ecografia, para excluir o desenvolvimento de malignidade. Por isso, não vejo que isto altere as nossas recomendações nesta altura.”

A endometriose em si é um diagnóstico que não é totalmente compreendido, o que também torna a associação com o cancro do ovário difícil de compreender completamente, diz Deanna Gerber, oncologista ginecológica do Perlmutter Cancer Center do NYU Langone Hospital-Long Island, em Nova Iorque, que não esteve envolvida no novo estudo.

Poderá haver um fator genético a determinar a associação, ou a inflamação que se observa frequentemente na endometriose poderá aumentar o risco de cancro do ovário, indica, mas os fatores hormonais também poderão determinar a associação.

As doentes devem ter em conta que “o risco de cancro do ovário é extremamente baixo na população em geral, inferior a 2%, o que é muito, muito menos do que um cancro comum como o cancro da mama”, afirma Gerber. “Assim, no estudo, um risco quatro vezes maior de cancro do ovário mantém as mulheres com um risco muito baixo.”

O novo estudo demonstra uma associação entre a endometriose e o cancro do ovário, mas não a causalidade – e o que é que impulsiona exatamente essa associação ainda não é claro, de acordo com Rimel, do Cedars-Sinai.

“Há vários mecanismos propostos, mas nenhum está completamente provado. Algumas mutações em genes como o ARID1A estão associadas à endometriose e ao cancro do endométrio, o que pode ligar os dois”, adianta Rimel num e-mail.

Acrescenta ainda que outro mecanismo possível poderia envolver a forma como a endometriose se forma e como essa formação pode danificar os tecidos, criando um ambiente mais propenso ao cancro – mas é necessária mais investigação.

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