Costuma trabalhar a partir de casa? Plataformas digitais permitem saber (quase) tudo o que faz

CNN Portugal , FMC
1 nov, 22:00
Computador

As horas a que um funcionário começa a trabalhar, quantos e-mails envia e quanto tempo passa no Facebook são algumas das informações que podem ser analisadas pela empresa, mesmo à distância

Está ou costuma estar a trabalhar a partir de casa? Pensa que isso lhe permite um descanso suplementar? Não tenha ilusões. Provavelmente, as plataformas digitais utilizadas pela sua empresa permitem monitorizar tudo o que faz. E o que não faz.

A pandemia forçou muitas pessoas a trabalhar a partir de casa e as empresas reinventaram-se, apoiando-se, em grande medida, em plataformas digitais como a Google Workspace, Microsoft Teams ou Slacker. São meios que permitem a comunicação interna, a partilha de ficheiros, reuniões e chats. Mas nem tudo são vantagens. As partilhas feitas podem ser vigiadas, alertam os especialistas em cibersegurança ouvidos pela CNN Portugal. Pode não ser fácil, mas basta que tenham acesso ao centro administrativo.   

Uma coisa é certa, garantem Nuno Mateus-Coelho e Ricardo Lafuente, ao aceder a estas plataformas através do login as empresas conseguem vigiar, pelo menos, o “fluxo de trabalho”.   

O professor universitário Nuno Mateus-Coelho explica que os serviços informáticos conseguem “saber a que horas é que o colaborador se liga, a que horas envia o primeiro e-mail, as horas em que o fluxo de trabalho é maior, sabendo quando as pessoas são mais produtivas”. Conseguem ter acesso “à lista dos ‘fush’, os e-mails enviados e recebidos e por quem”, concretiza.   

Ricardo Lafuente, da direção da D3 - Defesa dos Direitos Digitais, salienta que “passou a existir uma desmoralização do trabalho, em que as pessoas são reduzidas a números”, em que a produtividade de um trabalhador passa a ser definida pela análise destas plataformas e em que o trabalho é cobrado consoante o que dizem os números dos relatórios. 

O especialista acrescenta ainda que um dos grandes problemas não é só o controlo possível da empresa, mas também das grandes infraestruturas como a Google ou a Microsoft.  

“As próprias empresas abdicaram de alguma autonomia para depender destas grandes infraestruturas que armazenam os dados”, sublinha, afirmando que é um “paradigma” onde todos estamos mais vulneráveis.  

Na UE, empresas não podem aceder ao conteúdo privado

Estas plataformas que permitem a comunicação entre todos e que a empresa mantenha uma ligação, mesmo à distância, além de permitir análises quantitativas, permitem, por exemplo, aceder ao conteúdo de mensagens e e-mails, explicam os especialistas.  

Segundo Ricardo Lafuente, a partir do momento em que algo é escrito numa destas plataformas, fica registado e quem tiver acesso à parte administrativa consegue aceder a praticamente tudo. Como se costuma dizer, uma vez na internet para sempre na internet.  

Nuno Mateus-Coelho explica que quem tem acesso ao painel central das redes pode, por exemplo, “associar outro telefone à conta de um colaborador, pedir uma segunda autenticação e alterar a ‘password’, conseguindo aceder a tudo da conta do utilizador”. O trabalhador pode nem se aperceber que tal aconteceu e a única pista que poderá ter é, ao tentar entrar na sua conta, ver-se forçado a alterar a palavra-chave ou a repor uma antiga.  

Ainda assim, Nuno Mateus-Coelho salienta que, “por norma, e principalmente as grandes empresas, não o fazem” e procuram proteger os dados dos colaboradores.  

Tal ocorre, porque, apesar de, tecnicamente, ser possível aceder ao teor do que é escrito e enviado pelos colaboradores, legalmente as empresas não o podem fazer, nota o especialista e também a advogada Elsa Veloso.  

Nuno Mateus-Coelho diz que as grandes empresas temem a RGPD (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados) ou têm medo de perder prestígio.  

Elsa Veloso acrescenta que quando se trata de contas partilhadas, e para fins laborais, como é o caso, por exemplo, do e-mail de orçamento da empresa, o acesso é legal. Contudo, a nível individual o acesso é proibido.  

Ver informações privadas e das contas privadas não é legal em Portugal, explica a especialista em proteção de dados. A forte monitorização, habitual em empresas americanas, não é permitida no nosso país, nem nos países da União Europeia. O mesmo se aplica às plataformas usadas, como a Google, Microsoft ou Slacker, que tiveram de adotar certos métodos de segurança de dados, de forma a cumprir as normas europeias. 

Elsa Veloso explica, ainda assim, que “as empresas podem monitorizar o tráfego e bloquear o acesso a certos sites, como por exemplo sites de cariz sexual, ou de gaming, mas não podem violar os direitos fundamentais individuais”. 

Nuno Mateus-Coelho afirma que existem de facto empresas que procuram aceder a dados mais individuais, nomeadamente nas empresas mais pequenas, em que tal poderá ser mais exequível, mas que é “promíscuo”, e que quaisquer violações de palavras-passe serão detetadas em auditorias, o que poderá ser prejudicial para empresa.  

Mesmo que exista um contrato prévio em que o colaborador autorize que as suas mensagens e e-mails sejam acedidos, Elsa Veloso argumenta que tal pode ser contestado e impugnado, uma vez que a assinatura do colaborador não é “considerada livre”. 

Ter em atenção os sites visitados 

Nuno Mateus-Coelho esclarece, por outro lado, que as empresas conseguem identificar quais os sites que os colaboradores visitam, quantas vezes ao dia e quanto tempo perdem em cada um. Contudo, realça, não é visto o que os colaboradores fazem dentro dos mesmos.  

“É como o dono da autoestrada. Ele consegue ver que carros passam na autoestrada, mas não consegue ver quem está dentro do carro”, exemplifica.  

O especialista salienta também que para quem está de casa e utiliza a VPN do local de trabalho, o mesmo pode acontecer. Certos sites podem estar bloqueados, assim como se pode verificar quais é que são visitados, mesmo que se utilize um computador pessoal. “A VPN é uma extensão da rede do escritório”, nota.  

Importante a reter é que mesmo a partir de casa todo o fluxo de trabalho poderá ser analisado e, dificilmente, alguém que finge que trabalha sairá ileso. Contudo, se trocar mensagens em que fala mal do chefe, o mais provável é que ele não saiba, pelo menos por iniciativa própria. É como se estivesse no local de trabalho a ter uma conversa privada com um colega no corredor - o que será dito não será gravado e, posteriormente, reportado ao responsável pela empresa.

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