«O patinho feio do negócio»: agentes, comissões e egos dos presidentes

André Cruz , Porto Palácio Hotel, Porto
23 set, 01:03
Jorge Mendes (Photo by Joel Ryan/Invision/AP)

A FIFA quer limitar as verbas recebidas pelos empresários de futebol e o tema mereceu discussão no World Scouting Congress

O período de mercado de transferências é um dos que mais curiosidade suscita aos adeptos. Os rumores e as confirmações fazem correr muita tinta nos jornais, mas o que se passa nos bastidores ainda é francamente desconhecido pelo público em geral.

Na 5.ª edição do World Scouting Congress, que decorreu esta quinta-feira no Porto e juntou várias figuras do meio do futebol, um agente, um intermediário e um consultor reuniram para debater a intenção da FIFA em reduzir a percentagem máxima de comissões e a forma como se fazem negócios em Portugal.

O intermediário Nuno Patrão, da Footis, mostrou-se contra a criação de um teto para as comissões a terceiros em transações de jogadores.

«Muitas vezes, somos o patinho feio do negócio, mas a quem todos recorrem. Em relação às percentagens, estamos a falar de 200 e tal países filiados, e a lei de cada país sobrepõe-se às leis FIFA. Olhamos para as comissões pelo exagero do número, mas muitas vezes somos nós a potenciar o volume do negócio. Os agentes portugueses são os melhores do mundo, ajudamos os clubes portugueses. É sempre discutível discutir as percentagens, [a imposição de um teto máximo] estava prevista para este ano e a FIFA já andou mais um ano para a frente», começou por realçar.

Já Florian Willemssen, consultor legal da Seg International, destacou que as «novas regulamentações de agentes desportivos» previstas «terão muito impacto nos próximos anos».

«Estão a tentar agrupar todos os agentes numa só forma de trabalhar e queriam fazer isso já em setembro. Não o conseguiram fazer e agora vão tentar fazê-lo no próximo verão. A FIFA não está acima da lei, mas tem a liberdade para implementar estas leis se as conseguir justificar. No entanto, as leis da FIFA podem colidir com as de cada país. Por exemplo, nos Países Baixos, os jogadores não podem pagar diretamente comissões aos agentes», observou o neerlandês.

João Araújo, agente da Onsoccer, considera que esta mudança «pode ser preocupante».

«Limita muito o nosso raio de ação e pode impactar naquilo que é o acompanhamento dos jogadores – para quem trabalhamos. Quantos jogadores vamos querer transacionar? Com que jogadores vamos querer trabalhar? Eles vão ter as mesmas oportunidades? Existe espaço para todos os agentes, existem diferentes segmentos no negócio do futebol. Mas fará sentido continuar a trabalhar para jogadores que temos de levar para Indonésia ou Tailândia? Vamos baixar comissões que eram de 2 mil euros para 300?», questionou.

Nuno Patrão tem a opinião de que a comissão de um agente dificilmente determina o desfecho de um negócio.

«Se um clube tiver interesse num jogador, ele quiser ir e se estiver satisfeito com as situações contratuais, 99% dos negócios são concluídos independentemente do valor da comissão. A não ser que existam mais propostas nas mesmas condições para o jogador e, aí, o agente vai tentar que vá para outro clube», notou.

João Araújo, por seu turno, apontou que «o agente tem de ser um facilitador».

Novos mercados e como se fecham negócios em Portugal

O empresário destacou que as empresas têm de procurar novas formas de atuar e deu o exemplo da recente entrada de jogadores de mercados alternativos em Portugal.

«Hoje em dia, vem um jogador da Palestina, outro do Japão ou Austrália. Há 10 anos, não havia este tipo de concorrência. As empresas têm de ser mais criativas. Temos de encontrar oportunidades», frisou.

Já Nuno Patrão, explicou que cabe ao intermediário «juntar pontos de ligação». «As pessoas, muitas vezes, não entendem porque dois presidentes não falam entre si e fecham negócios. O intermediário tem de juntar dois egos, com certas expetativas. Quando um presidente quer dar X e outro quer receber Y, é necessário haver um intermediário. Por exemplo, um só quer pagar 10 milhões, outro diz que por menos de 20 nem quer conversa.»

«Quando vamos para reuniões, sabemos o perfil e a forma de atuar de determinado presidente ou dono. Por norma, sabemos a abordagem que devemos ter e até podemos ir para facilitar o negócio», acrescentou.

O empresário considerou ainda que as fugas de informação na comunicação social são «inevitáveis», mas podem atrapalhar. «Há momentos em que é importante, mas às vezes é um problema. Tem a ver com o momento do negócio. Às vezes, gera mau-estar e desconfiança entre as partes. Os agentes usam isso como estratégia, ou então os clubes fazem-no, cada caso é um caso.»

João Araújo considerou que, «se tivermos um bom jogador, é simples negociar em Portugal», mas lamentou os «orçamentos limitados».

«A maior dificuldade é ter o jogador ideal para o clube, a concorrência já é à escala mundial. O processo de negociação é normal, como comprar uma habitação», disse, acrescentando que «os clubes procuram trabalhar com agentes com quem já tiveram sucesso».

No que toca ao último mercado, Nuno Patrão reconhece que foi «bom», tendo em conta o panorama.

«Demos uma boa resposta e os clubes voltaram a estar ativos no mercado, depois de dois anos difíceis, terríveis. Os valores voltaram à normalidade, clubes grandes e pequenos a vender, novos talentos a aparecer e o próximo mercado de verão poderá ser melhor», projetou.

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