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Setor tecnológico é o que mais despede mas continua a contratar. Estes são os perfis mais procurados

4 mar 2023, 18:55
Computador

O setor tecnológico tem sido um dos mais afetados pelo novo contexto económico mundial. Ainda assim, continua a haver procura por determinados perfis, dando impulso à relevância dos programas de reconversão profissional

O setor tecnológico soma já mais de 120 mil despedimentos em 2023. Ainda assim, a área continua a recrutar, sendo mesmo um dos setores com maior procura. Como se justifica, então, este aparente paradoxo?

A resposta pode residir numa alteração dos perfis tecnológicos mais procurados dentro do setor. Segundo o guia da Hays para 2023, o reforço das equipas internas e a diminuição da externalização de serviços de IT (Tecnologias de Informação), nomeadamente na área de infraestruturas e segurança, tem alimentado a procura por profissionais mais especializados, como arquitetos e engenheiros altamente qualificados.

Neste sentido, entre os perfis especializados com maior procura, a recrutadora destaca algumas áreas em particular, nomeadamente, Cloud Architect, Security Engineer, Network Engineer, System Engineer e perfis de Digital Workplace. No entanto, dado que a maior parte dos projetos ocorrem em contexto internacional, a Hays aponta ainda para a necessidade de um conjunto de competências de gestão de projeto assentes em metodologias Agile. Como tal, perfis como Business Analyst, Project Manager, Scrum Master são os mais recrutados, assegura.

Contudo, ressalva a Hays, também a área de Data Analytics regista uma tendência de crescimento. O motivo para tal prende-se com o facto de muitas empresas se focarem, atualmente, na recolha e análise de dados, nomeadamente no que diz respeito ao comportamento das empresas, pessoas e da sociedade em geral. Neste sentido, estão a ser reforçados departamentos com perfis como Artificial Intelligence/Machine Learning Engineer, Data Scientists e Business Intelligence Analyst/Developer.

As empresas neste ramo estão igualmente a apostar cada vez mais na digitalização, sendo que este processo passa pelo desenvolvimento de plataformas internas, ou externalização de plataformas já existentes. Em ambos os casos, existe uma procura por profissionais com conhecimentos de programação, pelo que os software engineers “tornam-se cruciais”, refere a Hays.

Existe também uma aposta em plataformas low-code, bem como em profissionais com variedade de hard e soft skills. No que diz respeito ao ERP (Planeamento de Recursos Empresariais – sigla inglesa), o sistema SAP continua a ter maior presença de mercado, resultando em mais solicitações ao nível de recrutamento. O mesmo também se pode dizer do sistema Salesforce, na vertente de CRM (Gestão de relações com o cliente – sigla inglesa), embora o SAP tenha um mercado mais consolidado no que toca ao potencial número de candidatos selecionáveis para processos de recrutamento, aponta a Hays.

A entrada de multinacionais e de centros tecnológicos em Portugal, paralelamente ao recrutamento de empresas tecnológicas, tem inflacionado salários e tornado o recrutamento muito competitivo na área, garante a recrutadora. Isto, por sua vez, tem incentivado as empresas a lançar políticas de retenção. Por outro lado, a recrutadora conclui que, para fazer face à dificuldade na atração de talento, têm-se multiplicado o número de academias de formação e reconversão profissional no país.

Bootcamps: um meio para a reconversão profissional

À CNN Portugal, João Magalhães, cofundador e CEO da Academia de Código, defende que o futuro do setor tecnológico será o contínuo crescimento, especialmente quando falamos em software, “a base de qualquer tecnologia”. Dado que o software terá sempre de ser produzido e desenvolvido por um profissional (o programador), João Magalhães explica que este contexto irá continuar a estimular a procura por este tipo de talento.

O CEO também acredita que esta procura resistirá a todas as novidades e novas tecnologias no mercado, como a programação “low code” ou “no code”. “Alguém que pense como um programador conseguirá sempre destacar-se”, sublinha. Neste sentido, João Magalhães refere ser por isso que a academia disponibiliza não só o seu bootcamp, <Academia de Código_>, mas também a ubbu, um projeto de programação para crianças, nas escolas.

Embora João Magalhães destaque não haver um perfil standard no que diz respeito aos estudantes da <Academia de Código_>, existem algumas tendências no que toca às pessoas que procuram este bootcamp. Aliciados pela atratividade da área e possibilidade de progressão na carreira, 57% dos estudantes que passam pela academia têm entre 26 e 33 anos. A percentagem de alunos na faixa entre os 18 e os 21 anos situa-se nos 6%, seguidos por 18% que entram no curso com idade compreendida entre os 22 e os 25 anos. No polo oposto, 6% ingressam no bootcamp entre os 34 e os 37 anos, enquanto 12% têm 37 ou mais anos.

No que respeita ao nível de educação, 27% dos alunos da academia não tem grau de ensino superior e 24% frequentou a faculdade, mas não chegou a terminar. Já 24% tem uma licenciatura e 16% tem o nível de mestrado. Por outro lado, a experiência profissional tem sido um fator em mudança. Em 2015, quando a academia abriu, 100% dos estudantes estavam desempregados, mas desde 2020 que se tem acentuado o número de pessoas empregadas à procura de uma “upskill”, por considerarem que se podem tornar desempregados no futuro, explica o cofundador.

O peso das soft skills

O cofundador defende que a própria aprendizagem da programação está em tudo relacionada com o desenvolvimento de “competências humanas”, em parte, porque a própria aprendizagem neste setor é contínua já que “estão sempre a aparecer novos problemas para resolver e novas ferramentas para dominar”.

Dado que o bootcamp segue um formato intensivo e de curta duração (14 semanas intensivas de programação Full-Stack), a academia procura promover nos alunos uma cultura de independência, de forma a que “descubram as respostas, não as tenham dadas de mão beijada", explica João Magalhães.

O motivo para tal, prende-se com algumas das soft skills que a própria instituição identifica como essenciais, elementos que vão além do domínio ou fluência num conjunto de ferramentas. Neste sentido, João Magalhães descreve um interesse crescente, por parte das empresas, em pessoas com um “gosto natural” pela resolução de problemas, capacidade de trabalhar em equipa “de forma ágil” e comunicar com clareza, com sólida autoestima, resiliência e resistência à frustração.

Programar nas escolas

A contribuir para a aquisição destas competências desde cedo está ainda o projeto ubbu. João Magalhães explica que este projeto tem um grande impacto no presente e futuro das crianças pois, além da aquisição de competências importantes, permite a introdução da área tecnológica de forma democrática e igualitária em escolas de todos os contextos.

O programa destina-se a crianças entre os 6 e os 13 anos, sendo que os conteúdos são adaptados aos anos de escolaridade e lecionados pelos próprios professores, pois não precisam de ter formação prévia na área, facilitando a implementação do modelo nas várias escolas.

A reação, garante João Magalhães, tem sido “muito positiva”, tanto por parte das escolas como por parte dos professores, alunos e suas famílias. “Entre os vários aspetos, identifica-se já nas crianças que têm contacto com a ubbu, uma melhoria da sua capacidade de raciocínio lógico, de resolução de problemas e um incremento no que respeita à sua criatividade”, refere.

Estes elementos, aliados a uma plataforma “que nem sempre tem paralelo nas outras matérias”, têm tido um impacto na performance dos alunos noutras disciplinas, como é o caso de matemática, garante.

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