Contra onda de despedimentos, as maiores rondas de investimento têm mais de 250 vagas de emprego

ECO - Parceiro CNN Portugal , Diogo Ferreira Nunes e Ana Marcela
7 fev 2023, 12:29
Trabalhadores

Entre as 10 empresas portuguesas com maiores rondas de investimento em 2022, cinco assumem que estão a reforçar equipas apesar do atual contexto de despedimentos a nível mundial no setor tech

O verbo ‘despedir’ tem estado nas bocas do mundo pelos piores motivos. Grandes empresas tecnológicas como Microsoft, Amazon, Salesforce, Spotify, Alphabet e Meta anunciaram, nas últimas semanas a saída de dezenas de milhares de trabalhadores depois de os anos da pandemia terem ficado marcados por crescimento e novas contratações. Em Portugal, no entanto, há empresas que estão a remar contra a corrente: entre as 10 empresas que mais capital levantaram em 2022, há cinco que têm um total de mais de 250 vagas para este ano.

Exemplo disso é a Power Dot. A empresa portuguesa que opera postos de carregamento para carros elétricos tem 80 vagas abertas para 2023. “Iremos contratar, não só para complementar a estrutura atual — como é o caso das áreas de vendas e de operações — mas também para novas funções, no sentido de estarmos cada vez mais perto dos nossos parceiros”, assinala fonte oficial à ECO Pessoas. No final do ano, deverão ser 180 os trabalhadores da companhia portuguesa.

Para acelerar as contratações, a Power Dot recebeu um carregamento de 150 milhões de euros do fundo francês de investimento em infraestruturas Antin. Foi a segunda maior injeção de capital para uma companhia portuguesa em 2022, segundo os dados da plataforma Dealroom e da Startup Portugal. “Esta ronda permitiu-nos atingir objetivos importantes, como duplicar os pontos [tomadas] de carregamento operacionais: cerca de 700 em janeiro e mais de 1.500 até dezembro de 2022”, lembra a Power Dot.

Pretendemos acelerar a entrada em novas geografias, alargar a liderança europeia em vigilância marítima a missões terrestres e promover o desenvolvimento de novos produtos",  Ricardo Mendes, Presidente executivo da Tekever.

Da carga em terra para a vigilância no mar passamos para a Tekever, atualmente com mais de 300 funcionários. Em 2023, a empresa que constrói drones para o mercado europeu quer “manter ou acelerar o ritmo de contratações“, depois do crescimento de mais de 30% no último ano. A tecnológica procura, pelo menos, 70 pessoas para “acelerar a entrada em novas geografias — Médio Oriente, EUA e América do Sul — alargar a liderança europeia em vigilância marítima a missões terrestres e promover o desenvolvimento de novos produtos”, ambiciona o presidente executivo, Ricardo Mendes. “As áreas de engenharia e data science estão entre os perfis mais procurados”, acrescenta Ricardo Mendes.

A empresa recebeu um investimento total de 25 milhões de euros ao longo de 2022. Em ritmo contra a corrente de despedimentos, o espírito na Tekever “é de grande otimismo” porque as áreas de inteligência artificial, drones e espaço “tornaram-se ainda mais centrais e apelativas” em 2023.

Remote, FRVR, Cleanwatts e Aptoide não responderam ao contacto da Pessoas/ECO para este trabalho.

A Smartex também aposta na inteligência artificial, através de dispositivos que reduzem o desperdício de produtos têxteis. A solução rendeu um investimento de 24,7 milhões de dólares (22,8 milhões de euros no câmbio atual), tecido suficiente para reforçar a equipa com “50 a 75 novos trabalhadores“, nota fonte oficial.

Para já, procuram-se perfis sobretudo tecnológicos — QA Automation, QA Testers, Python Developers, Front-End Developers. Também há vagas para engenheiros mecânicos e técnicos de instalações, por exemplo. A pensar na expansão além de Portugal, Itália e Turquia, a empresa também valoriza os “conhecimentos de inglês e outras línguas como turco ou uzbeque”.

A desaceleração no setor tecnológico e respetiva consolidação leva os recursos a procurar projetos em que confiam e com mais estabilidade, pelo que a RealFevr está extremamente bem posicionada para conquistar o melhor talento do mercado", Fred Antunes, Presidente executivo da RealFevr.

“Em contraste com a desaceleração das contratações no setor de tecnologia, que se verificou no ano passado, a Cleanwatts mais que duplicou o tamanho da sua equipa em 2022. Este ano, estamos a planear continuar a contratar a bom ritmo“, adianta Michael Pinto, CEO da Cleanwatts. “As nossas principais áreas de contratação para o 2023 estarão focadas em vendas, engenharia (software e hardware developers), gestores de projeto, gestores de produto e gestores técnicos de instalações de energias renováveis”, concretiza.

No final do ano passado, a companhia, que fechou com sucesso uma ronda de 25 milhões, fechou contratos para criar mais de 100 Comunidades de Energia Renovável (CER). “Começámos 2023 com uma carteira de mais de 40MWp, em capacidade solar agregada, sobre a nossa base instalada existente. Até o final deste ano, esperamos superar esses números, consolidando a nossa posição como líderes de mercado para as CER em Portugal e consolidando a nossa presença em Itália e nos Estados Unidos, além de entrar no mercado espanhol”, aponta o CEO.

E para ter o talento que necessitam para energizar o crescimento lançaram ainda a Cleanwatts Academy, sob a liderança de Andreia Carreiro, diretora de Estratégia de Inovação. “A Cleawantts Academy visa promover a colaboração académica com as principais entidades de pesquisa e formar os líderes “verdes” do futuro, oferecendo-lhes a oportunidade de concluir projetos de pesquisa de mestrado e doutoramento connosco.”

A Amplemarket também vai aumentar a equipa ao longo de 2023. Tem mais de 40 vagas disponíveis, depois de ter recebido um investimento de 12 milhões de dólares. “Neste momento, somos cerca de 60 pessoas e prevemos acabar o ano com mais de 100 trabalhadores“, prevê à ECO Pessoas o cofundador e presidente executivo da empresa, João Batalha. Vendas, engenharia e marketing são três dos departamentos que serão aumentados.

Os reforços na equipa vão ajudar a “triplicar novamente as receitas, continuar a melhorar o produto e escalar e profissionalizar os nossos processos internos”, lembra o líder da solução que pretende “otimizar o serviço das equipas de vendas e maximizar resultados”. Outro dos grandes objetivos passa por chegar a empresas com maior dimensão, além de trabalhar com empresas pequenas e médias.

Contratar com cautela

Apesar das metas estabelecidas, João Batalha assume a abordagem nas contratações baseada em “crescimento eficiente“, para não haver “recrutamento excessivo a longo prazo”. Este tem sido o pressuposto para o anúncio de despedimento de algumas das maiores tecnológicas internacionais ao longo das últimas semanas.

 A cautela nas contratações também tem em conta a necessidade de prolongar o capital angariado junto dos fundos de investimento. Há menos dinheiro disponível no mercado, por conta da política monetária restritiva dos bancos centrais da Zona Euro, de Inglaterra e dos Estados Unidos. Isto explica que o investimento em tecnológicas tenha caído 35% em 2022 face ao recorde de 2021, para 415,1 mil milhões de dólares. Num olhar por trimestre, os últimos três meses de 2022, com 65,9 mil milhões de dólares, marcaram o pior período desde os dois primeiros trimestres de 2020, quando a Covid-19 travou os mercados financeiros.

Fonte: CBInsights

A Codacy assume prudência em 2023 depois de ter duplicado a equipa ao longo do último ano. “Decidimos abrir todas as posições que estávamos à procura no terceiro trimestre do ano passado e de contratar 95% dos perfis até ao final do 2022. Fizemos isto porque, independentemente das condições de mercado, o negócio moderno quer ser líder em software”, assume o líder da tecnológica, Jaime Jorge.

A plataforma que permite aos programadores reverem as linhas de código recebeu um investimento de 15 milhões de dólares em série B de financiamento e prevê para 2023 através da “construção consistente de novo valor de produto e de melhoria substancial da nossa capacidade comercial, através de foco em indústrias e regiões específicas”.

Decidimos abrir todas as posições que estávamos à procura no terceiro trimestre do ano passado e de contratar 95% dos perfis até ao final do 2022. Fizemos isto porque, independentemente das condições de mercado, o negócio moderno quer ser líder em software",  Jaime Jorge, Presidente executivo da Codacy.

Apesar de apostar no desenvolvimento de jogos para a Web3, a RealFevr não brinca com o assunto, mesmo depois do jackpot de investimento de 10 milhões de euros em 2022. Embora sem definir números, Fred Antunes considera que “a desaceleração no setor tecnológico e respetiva consolidação leva os recursos a procurar projetos em que confiam e com mais estabilidade, pelo que a RealFevr está extremamente bem posicionada para conquistar o melhor talento do mercado”. O líder da tecnológica define a inteligência artificial como “a tendência” para 2023 mas que todos os perfis relacionados como dados, “front-end, back-end e solidity continuam com uma procura bastante superior à oferta”.

A RealFevr refere também que “estará focada neste ciclo de investimento em consolidar a sua estrutura, escalar, e aproximar-se do que é uma tradicional estrutura corporativa multinacional sem perder agilidade, transformar-se numa tecnológica multi-desporto, ao mesmo tempo que completa o seu ecossistema”.

Vistos largos para recrutar

Para o caso de não haver talento suficiente em Portugal, desde o ano passado que existe um novo visto de trabalho para estrangeiros extra-comunitários à procura de trabalho. Também passou a ser atribuído um visto de estada temporária ou de residência para os nómadas digitais. Desde outubro, já foram atribuídos 200 vistos, com nómadas dos Estados Unidos, Reino Unido e Brasil a liderar a procura, segundo informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

As novas regras, no entanto, dividem as empresas ouvidas pelo ECO Pessoas.

“A única restrição que temos tido a nível de contratação é o fuso horário em que as pessoas trabalham. Neste momento estamos restritos desde a Eastern Timezone (Costa Leste) dos Estados Unidos até à Ucrânia”, nota Jaime Jorge. “Temos visto, sem dúvida, um interesse renovado e surpreendente por trabalhar em Portugal, até de perfis executivos, que falam connosco para permitir uma mudança para o país”, detalha o líder da Codacy.

“É verdade que temos notado um aumento significativo de candidaturas provenientes de outros países para as vagas abertas em Portugal, o que nos entusiasma. Hoje em dia, por exemplo, temos no escritório de Lisboa pessoas da Turquia e do Brasil”, nota a Power Dot, que pretende “cultivar uma equipa diversa”. O líder da Tekever refere apenas que os vistos “criam mais liberdade para recrutamento“.

Continua a ser difícil e moroso o processo de emigração para Portugal. A experiência que os nossos colaboradores têm durante o processo de espera pelo visto é realmente negativa e afeta o seu bem estar", Smartex.

“A existência de vistos para nómadas digitais e extracomunitários torna Portugal um local atrativo, mas o que verificamos é que o grande fator impulsionador de novas contratações na Cleanwatts é mesmo a oportunidade de contribuir para a transição energética e para a descarbonização”, considera Michael Pinto. A empresa, refere, está a “recrutar ativamente novos talentos internacionais, em particular, para cargos técnicos e de engenharia que estão com alta procura.”

“No último ano, também trouxemos contratações importantes, do mercado internacional, para permitir uma maior internacionalização dos nossos negócios, incluindo o nosso VP de RH e o nosso Head de Comunicação Corporativa para o mercado internacional”, continua. Neste momento, a Cleanwatts é uma empresa multicultural com colaboradores portugueses, americanos, italianos, indianos, alemães, húngaros, irlandeses, iraquianos e paquistaneses.

Embora a Amplemarket seja uma empresa remota e aceite pessoas de qualquer país, João Batalha considera estes vistos como uma ferramenta que vem “facilitar a entrada em Portugal“. Fred Antunes assume o uso destes vistos mas nota que “as capacidades técnicas e pessoais, paixão pelo projeto, pelo setor e alinhamento com a equipa continuem a ser a maior influência na política de contratações” da RealFevr.

Apesar de apostar na diversidade cultura, a Smartex encontra defeitos na execução da política do Estado. “Continua a ser difícil e moroso o processo de emigração para Portugal. A experiência que os nossos colaboradores têm durante o processo de espera pelo visto é realmente negativa e afeta o seu bem estar”, remata a tecnológica.

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