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Autor. Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

Procurar emprego (3/4) | A nossa pegada digital e o currículo que nunca dorme

27 ago, 15:00
Viciados na Internet, telemóveis e redes sociais. Foto Bill Hinton / Getty Images
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Guia Prático de Sobrevivência no Mercado de Trabalho 2026: artigo 3 || Se não despreza tudo o que é, não desvalorize tudo o que faz. Incluindo digitalmente

No Artigo 2 da rubrica “Guia Prático de Sobrevivência no Mercado de Trabalho 2026, que pode ler aqui, falei de Hard Skills e Soft Skills ou seja, competências técnicas e competências comportamentais. Hoje vou escrever sobre algo que pode condicionar as nossas chances de termos sucesso na procura de emprego: a nossa presença digital. O currículo que nunca dorme, nunca se cala e nunca se esquece.

Seja a própria Inteligência Artificial a fazer o primeiro filtro ou pré‑seleção, como descrevi no Artigo 1, ou seja um recrutador humano, não podemos ser ingénuos ao ponto de achar que, antes de chegarmos às fases avançadas do processo de recrutamento, a nossa presença digital não irá ser escrutinada. Se pensarmos bem, hoje todos acabamos por ser figuras públicas, e todos temos uma pegada digital que pode jogar a nosso favor, ou contra. 

Não se pense que a pegada digital abrange apenas os jovens. Ela atinge todas as idades e vai muito além do impacto no recrutamento. A única diferença pode mesmo ser uma maior tolerância dada ao que os jovens fazem nas redes, precisamente enquanto são jovens. A nossa atividade digital é como uma sombra que nos segue para todo o lado, mesmo quando achamos que ninguém está a olhar.

Há o politicamente correto e depois há o real

Se eu tentasse ser politicamente correto, diria que o nosso empregador não tem nada a ver com a nossa atividade digital desde que a mesma seja fora do contexto laboral. Lamento dizer, mas não acredito que assim seja, e quanto menos estruturada for a empresa recrutadora, menos isso será verdade, porque maior será a tendência para encostar nas linhas vermelhas ou cinzentas. O que vejo é que, quando temos determinadas funções numa determinada empresa, o que publicamos nas redes sociais impacta também essa empresa, quer queiramos quer não.

A nossa opinião numa determinada área confunde‑se muitas vezes com a opinião da empresa e, como tal, não estamos completamente isentos de impactos laborais resultantes das nossas atividades individuais online.

Claro que, quanto mais responsabilidade tivermos, mais se vai misturar a nossa vida digital profissional com a pessoal. Um grande erro que muitos colaboradores cometem é o de acharem que trabalho e lazer são azeite e água, e que ambos nunca se misturam. No mundo atual misturam-se, e às vezes tal como azeite e água, basta um pequeno abalo para tudo ficar turvo. Não digo que esteja certo ou errado, digo apenas que assim é.

O seu empregador até pode não lho dizer diretamente, porque pode ser politicamente incorreto ou eticamente arriscado, mas levará em consideração o que você anda a dizer sobre si e sobre a empresa, aqui e ali.

A internet não tem botão de esquecimento. 

Tirando casos graves, é pouco provável que percamos o emprego por causa do que andamos a publicar, mas é muito provável que, apesar do atual empregador ignorar, o novo empregador não o fará e terá tudo em conta logo no processo de seleção. O novo recrutador quererá perceber se somos uns “selvagens” digitais ou se somos moderados digitais. O novo recrutador verá a nossa atividade digital como ponto de risco ou de oportunidade a considerar.

Não nos podemos esquecer que qualquer empresa que faça uma simples matriz de risco irá ter lá um campo que mencionará risco reputacional, e o risco reputacional, entre outros, também pode resultar da atividade dos colaboradores. Repito, não discuto se deveria ou não ser assim, mas estou convicto de que é. Tenha sempre presente que o que “publica” lhe pode custar, pelo menos, um emprego melhor.

Lembre-se que a internet não tem botão de esquecimento. 

Usar as redes a nosso favor

Se a nossa atividade digital nos pode custar um emprego melhor, então é porque também nos pode proporcionar um emprego melhor quando bem gerida. Os tais robôs de recrutamento vão tentar ver toda a nossa presença online e tentar, com ela, fazer uma compilação tão real quanto possível das nossas competências comportamentais.

Vão ver as nossas publicações, as nossas reações às publicações de outros, vão ver, eventualmente a nossa dependência das redes sociais, se estamos o dia todo a publicar ou se temos vida para além disso. Vão ver se somos uns críticos ressabiados sempre a criticar tudo e todos negativamente, vão ver se respeitamos os outros nas redes, vão ver quem anda à nossa volta e quem comenta o que fazemos. Vão também ver a forma como somos ou não respeitados nas redes e vão ver detalhes que não "lembram ao diabo" e o diabo, neste caso, é um algoritmo com memória infinita.

E isso não é algo que necessite de meses de “investigação”. Basta um clique num robot de Inteligência Artificial e isso acontece tudo em menos de um minuto.

É certo que existe cada vez mais regulamentação sobre o uso da IA neste tipo de análises pessoais, mas também é certo que a IA já surpreendeu muitas vezes os seus próprios criadores, saindo da caixa onde tinha sido colocada e buscando soluções sem olhar a meios. O melhor, portanto, é estarmos atentos, ou pelo menos lúcidos, quanto à nossa atividade digital.

Vamos ser pragmáticos: se estiver a concorrer à direção comercial de uma empresa de carnes e, nas redes sociais andar permanentemente a criticar o que de mal tem a carne e a sua exploração, é difícil que consiga o emprego, certo? Não está bem nem está mal, mas a empresa irá mais provavelmente escolher quem se mostre realizado a comer um bom costoletão.

Mas há também o lado luminoso da pegada digital. Já vi candidatos serem chamados para entrevistas porque deixaram um comentário inteligente num fórum técnico, porque escreveram uma análise bem fundamentada no LinkedIn ou porque partilharam um projeto pessoal que demonstrava curiosidade, rigor e capacidade de resolver problemas. Às vezes, um único parágrafo bem escrito vale mais do que dez páginas de currículo. A internet tanto pode ser uma armadilha como pode ser um palco. Depende de como a usamos.

A nossa presença digital faz efetivamente parte do nosso currículo e, desde cedo, deveremos construir a nossa presença digital de uma forma consistente com o que somos e queremos ser, e não de uma forma irrefletida como se estivéssemos numa mesa de café a dizer baboseiras que amanhã já ninguém se lembra. A internet não é uma mesa de café, é um arquivo eterno. Não digo que sejamos falsos nas redes digitais. Ao contrário. O que eu digo é para resistirmos ao impulso de mostrarmos ser o que não somos.

Redes digitais profissionais

Melhor do que ter de procurar emprego é o emprego vir ter connosco e, para vir ter connosco, não podemos estar enfiados dentro de uma gruta escura. Ter presença nas redes sociais profissionais é cada vez mais relevante. 

Se eu pretender contratar alguém, posso simplesmente dizer a um robot que procure nas redes profissionais um candidato com determinado perfil. Por um lado, estou a pesquisar um perfil que é público e que, portanto, estará menos vulnerável aos inevitáveis embelezamentos que os candidatos colocam nas candidaturas e, por outro lado, consigo perceber, do ponto de vista social, o posicionamento do candidato no ecosistema profissional a que pertence.

Construirmos a nossa presença digital de forma estratégica é a melhor segurança que temos não só para não sermos prejudicados na nossa procura de emprego, mas para ficarmos mais bem posicionados nas nossas procuras. É como ter um outdoor permanente no centro da cidade, e convém que esteja bem feito. 

Agora mais para os jovens

Os jovens que nunca trabalharam não têm noção do impacto que a sua presença digital lhes pode criar na vida profissional. É certo que ninguém vai excluir um candidato por causa das barbaridades que publicou aos 15 anos só para dar nas vistas junto dos colegas e amigos, mas a partir de uma certa idade, eu diria a partir dos 18 anos, a forma como alguém se apresenta nas redes digitais pode refletir muito do que realmente é.

Facto é que as redes sociais impulsionam as reações, e muitas pessoas não diriam, não fariam e não exporiam metade se estivessem pessoalmente diante de outras pessoas. O teclado é um catalisador emocional sobretudo para os jovens. Amplifica o que sentem e distorce o que são. Mas o robô só analisa o que vê.

O que eu recomendo aos jovens é que se lembrem de que terão, inevitavelmente, uma carreira e que um dia alguém os vai escolher com base no que acham que eles são e com base em factos que conseguem objetivamente constatar. Se nas redes sociais alavancam tudo ou inclusive mentem acerca do que são, o recrutador vai assumir que o que vê é o que é e, portanto, pode assumir uma ideia desviada, que o fará desviar‑se do seu currículo e desviar a candidatura para a reciclagem.

Teste-se

Se o seu currículo é o que diz ser, a sua pegada digital é a prova de quem realmente é.

Vivemos numa era de transparência radical. Ignorar a nossa presença online não nos torna invisíveis, apenas nos torna ausentes da narrativa que outros, sejam humanos ou algoritmos, estão a construir sobre nós. O segredo não é esconder‑se mas sim habitar o espaço digital com o mesmo bom senso e estratégia que usa numa reunião presencial.

Antes de fechar este artigo, faça isto: abra o Google e pesquise o seu nome. Veja o que aparece. Veja o que falta. Veja o que não devia lá estar. Faça o mesmo com uma ferramenta de IA.

Esse é o seu “currículo invisível”. E, quer queira quer não, ele já está a ser avaliado.

 

Os artigos desta rubrica estão ou estarão disponíveis aqui:

  1. Como passar o filtro dos robôs de recrutamento
  2. Hard Skills, Soft Skills e o que realmente pesa na balança de quem recruta
  3. A nossa pegada digital e o currículo que nunca dorme

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