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Autor. Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

Procurar emprego (1/4) | Como passar o filtro dos robôs de recrutamento

25 ago, 15:00
Robôs de leitura de livros chamados Luka na CES International, 9 de janeiro de 2018, em Las Vegas. (Foto AP/Jae C. Hong)
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Guia Prático de Sobrevivência no Mercado de Trabalho 2026: artigo 1 || Este é o primeiro artigo de um guia de Bernardo Mota Veiga para ajudá-lo a procurar emprego. Hoje, com dicas para o robô "gostar" mais de si

Não veio propriamente de mim a ideia para escrever este artigo. Alguém me pediu conselhos sobre como procurar emprego e foi quando juntei as peças do puzzle que percebi que, efetivamente, procurar emprego hoje requer uma estratégia muito bem afinada e até mesmo uma preparação com enorme antecedência. O mercado já não é um campo aberto, mas sim um labirinto onde quem entra sem mapa acaba por se perder.

O desemprego jovem mantém-se alto. Segundo o Banco de Portugal, estava em 19,8% no último trimestre de 2025, apesar de a taxa de empregabilidade geral ter vindo a aumentar. Os jovens têm mais dificuldades em encontrar emprego do que pessoas de qualquer outra faixa etária e, entre as várias razões, pode estar a desarticulação na forma como procuram os seus empregos, ou como os empregos os encontram a eles.

O tema "procura de emprego" é tão abrangente que não consigo colocar num só artigo todas as possíveis explicações e sugestões que possam ajudar os jovens a encontrar mais e melhores empregos. Sob a forma de artigos, acabei por construir uma espécie de guia prático. Ressalvo que não é um guia apenas para jovens, mas dar-lhes-ei destaque na construção desta estratégia, que não garante emprego, mas pode garantir que não ficam colados ao rés-do-chão.

O que mudou desde os anos 90

Há poucas décadas, o recrutamento era um jogo de estatística e envelopes coloridos. Mandavam-se dezenas de currículos em papel na esperança de captar o olhar de um recrutador humano. Hoje, o que antes era criatividade virou ruído e a primeira triagem é quase inteiramente algorítmica.

Está tudo tão diferente que acho que, se alguém enviar uma carta de candidatura por correio para uma empresa, os serviços dessa empresa irão ficar baralhados sem saber como tratar essa candidatura em papel. O sistema mudou e as fórmulas do passado já não se enquadram.

O que antes era esforço, hoje é desajuste.

Assuma que será um robô a ler a sua candidatura

Não é que não haja humanos envolvidos nos processos de recrutamento, mas são cada vez menos os que recebem as primeiras rondas de candidaturas. Em primeiro lugar, é cada vez mais normal as empresas recorrerem a recrutamento externo e, em segundo lugar, já ninguém quer perder tempo a ler milhares de cartas de apresentação e milhares de CVs, que muitas vezes nem sequer apresentam o mínimo de competências solicitadas nos anúncios.

Hoje, antes de preparar qualquer candidatura, o melhor mesmo é assumirmos que a mesma vai ser analisada por um robô e não por um humano. Quando digo robô, falo de um algoritmo de Inteligência Artificial que irá filtrar todas as candidaturas recebidas, verificar o cumprimento dos requisitos, a preparação para a função bem como a experiência e demais informação antes de normalizar essas mesmas candidaturas apresentando ao recrutador uma lista resumida e limpa dos candidatos que interessam.

Já não precisamos de enviar uma carta de apresentação em amarelo garrido para chamar a atenção do recrutador. Precisamos, sim, de perceber como dar a volta ao robô para nos colocar no topo da pilha de candidatos e nos dar destaque na lista resumo que vai preparar para o recrutador.

Lembre-se que, hoje, grande parte das rejeições nem sequer chega a ser humana. É algorítmica. É silenciosa. É automática.

O Produto

Imagine uma empresa que quer vender um produto. Um dos passos fundamentais é a estratégia de Marketing Digital. Se o produto não aparecer digitalmente à frente dos possíveis clientes, dificilmente terá sucesso.

Seja pela via dos motores de busca, seja pela promoção nas redes sociais, seja pela via dos influencers, o produto tem de aparecer visível aos potenciais compradores e tem de conseguir um determinado ranking para garantir essa visibilidade e, posteriormente, vendas.

Os robôs de recrutamento não pensam de forma muito diferente desses motores de busca que criam rankings de relevância de conteúdo. Um conteúdo relevante sobe no ranking. Um conteúdo irrelevante cai. Tudo hoje são rankings decididos por inteligência artificial com base no impacto, relevância e alinhamento entre quem vende e quem compra.

Este artigo não foge à regra. Se os algoritmos o acharem irrelevante, vão atirá-lo para o meio do Oceano Índico, para um lugar onde não passa ninguém e portanto poucos leitores terão acesso a ele. Mas se os algoritmos o considerarem relevante, os leitores receberão este artigo muitas vezes sem sequer terem de o procurar. Vivemos num mundo onde até a visibilidade é negociada com máquinas.

Hoje, quem procura emprego deveria primeiramente fazer um curso rápido de marketing digital. Afinal de contas, se nós somos o nosso próprio produto, é importante sabermos como nos promover, sobretudo quando pretendemos procurar emprego.

Voltemos então aos robôs. 

Esqueça os floreados, porque o robô focar-se-á no conteúdo do CV que lhe enviar e fá-lo-á de forma absolutamente pragmática e só irá ler, o que conseguir processar. A empresa definiu o perfil do candidato que pretende de forma exaustiva, enquadrando não só a vaga técnica, mas também as características da empresa, da equipa que irá integrar e até do chefe que irá ter.

O robô, algoritmo ou IA, conforme lhe queira chamar, recebe uma lista exaustiva de inputs para fazer bem o seu trabalho de pré-seleção. Recebidas as candidaturas, o robô vai cruzar o pedido com o oferecido pelo candidato e, com isso, criar o seu ranking. 

É como um jogo de espelhos em que o robô só reflete aquilo que lhe damos e que lhe interessa. 

Dicas para o robô "gostar" mais de nós

  • Leia muito bem o anúncio. Lembre-se de que, se é um robô a pré-selecionar, pode ter sido o robô a escrever o anúncio. Não ignore nenhuma palavra do anúncio nem deixe nenhuma palavra por dizer. Os robôs leem praticamente à mesma velocidade uma página ou dez. Seja completo e exaustivo nas suas competências mantendo-se sempre alinhado com o anúncio.
  • Se é um robô que lê, pense como um robô quando escreve. Se não conseguir pensar como um robô, use um robô para nivelar o campo de batalha. Eu vou dizer que não disse isto, mas recomendo que use robôs para interpretar os anúncios e perceber o que é mais relevante para o algoritmo.
  • Seja honesto consigo e não tente enganar o robô. Uma coisa é querermos que ele nos “veja”, outra é querer enganá-lo. Os processos de seleção são cada vez mais afinados por várias ferramentas que se complementam (e que apresentarei nos próximos artigos da rubrica). É relativamente fácil excluir um candidato por inconsistência portanto seja você mesmo. Puxe pelo que tem de bom e pelo que sabe bem. A autenticidade humana continua a ser a única coisa que nenhum algoritmo consegue simular.
  • Aplique técnicas de marketing digital. Uma delas é o SEO-Search Engine Optimization. São técnicas para melhorar o posicionamento de um site no Google, mas funcionam para qualquer algoritmo de posicionamento. Aprenda sobre o robô e saiba como agir com ele. Inclua links diretos no currículo ou na carta de apresentação. Os links são a melhor forma do robô construir credibilidade sobre si.
  • Inverta as regras do jogo. Coloque o seu currículo numa ferramenta de IA sua, descreva-se de forma honesta e coloque as suas competências de forma irrepreensível. Depois, sempre que pensar concorrer a um emprego, consulte a IA para perceber se o emprego é bom para si. Os recrutadores usam robôs para saber se é o candidato ideal, use você os robôs para saber, em antecipação, se aquele é o emprego CERTO. Se eles usam máquinas para o avaliar, use máquinas para se proteger.
  • Lembra-se da importância que tem a apresentação numa entrevista. Não se apresente sujo nem esfarrapado ao robô. Prepare a sua apresentação e presença digital. Falaremos mais à frente num outro artigo.
  • O robô lê tudo mas não apreende como nós. Muitos modelos têm dificuldades em ler colunas, tabelas, caixas de texto, etc. Aposte num documento word ou PDF limpo, ou seja, que não seja gerado a partir de design gráfico. Evite os CV em formatos de design que são muito apelativos para um humano mas que o robô não consegue interpretar.
  • Faça corresponder as palavras-chave. Para um robô coordenar equipas pode não ser o mesmo que gestão de projetos. Use as palavras-chave do anúncio quando se refere a experiência e não invente palavras ou cargos novos. O robô sabe o que procura.
  • O Linkedin ainda é a rede social profissional mais credibilizada. Tenha o seu perfil atualizado para evitar incongruências quando o robô for procurar validação online. Não negligencie os links das empresas ou instituições por onde passou e mantenha as suas páginas pessoais, se for o caso, atualizadas.
  • Aposte no timing de candidatura. Acredite ou não, em alguns casos a ordem de chegada pode influenciar a visibilidade. Vale a pena candidatar-se nos primeiros dias após publicação de anúncios
  • Não concorra “em barda”. Lembre-se que pode ser o mesmo robô a prestar serviços a diferentes ofertas de emprego. Concorrer a diferentes funções com diferente informação pode gerar alertas no robô e uma exclusão de todas as candidaturas. Parta sempre do princípio de que os robôs se conhecem.

No próximo artigo falaremos de soft skills e hard skills, ou seja, competências comportamentais e técnicas. Num mundo em que cada vez mais pessoas têm competências técnicas normalizadas, mensuráveis e credíveis, os recrutadores focam-se nas competências comportamentais, porque cada candidato se vai integrar num ecossistema próprio. Um excelente técnico no ambiente errado pode ser pior do que um técnico menos bom no ambiente ideal.

Nem tudo são números e fórmulas e tudo é cada vez mais comportamento e atitude. Muitos candidatos ignoram as soft skills no momento em que procuram emprego, mas hoje são talvez os critérios mais importantes quando alguém pretende reforçar a sua equipa.

Até breve.

 

Os artigos desta rubrica estão ou estarão disponíveis aqui:

  1. Como passar o filtro dos robôs de recrutamento
  2. Hard Skills, Soft Skills e o que realmente pesa na balança de quem recruta
  3. A nossa pegada digital e o currículo que nunca dorme
  4. O mercado oculto de emprego

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