Este é o pior mercado de trabalho para recém-formados dos últimos anos

CNN , Matt Egan
10 jun 2025, 10:00
Embora o mercado de trabalho, em geral, pareça relativamente saudável, os economistas consideram que este é o pior momento para quem se licenciou (Aaron Hawkins/iStockphoto/Getty Images)
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Embora o mercado de trabalho, em geral, pareça relativamente saudável, os economistas consideram que este é o pior momento para quem se formou

A turma de 2025 tem uma tarefa assustadora pela frente: conseguir um emprego no atual mercado de trabalho, que nem contrata nem demite.

De uma forma geral, o mercado de trabalho dos Estados Unidos da América continua a ser resiliente. A taxa de desemprego neste país está apenas nos 4,2% e a economia cria empregos há 52 meses consecutivos — trata-se do segundo mais longo período de crescimento contínuo do emprego na história norte-americana.

Ainda assim, há vários sinais de alerta quando se mergulha mais a fundo na análise.

A tomada de decisões nas empresas está parada à custa da caótica guerra comercial iniciada por Donald Trump. A contratação para funções desempenhadas por quem está em início de carreira diminuiu. E há líderes da indústria da inteligência artificial a avisar que esta tecnologia, que está a avançar muito rapidamente, poderá acabar com empregos na área administrativa – cenário que até já estará a ter lugar.

Mesmo com o mercado de trabalho a ter uma aparência saudável na sua generalidade, os economistas afirmam que este é o pior cenário para os recém-formados desde o auge da pandemia de Covid-19. Quem sai das universidades está a descobrir que é preciso muito tempo até conseguir ser contratado. Por isso, estes jovens ficam desempregados e sobrecarregados com as dívidas que contraíram para pagar os estudos, que se arrastam por um período longo e gerador de frustrações.

Pela primeira vez, desde que se iniciou a compilação de dados em 1980, a taxa de desemprego entre os jovens recém-formados - com idades entre 22 e 27 anos e um diploma de licenciatura ou de grau superior – é, de uma forma consistente, maior do que a taxa nacional de desemprego, segundo a Oxford Economics.

“É um mercado de trabalho muito difícil para quem sai das universidades. Vai ser preciso tempo para superarmos isso”, diz Matthew Martin, economista sénior da Oxford Economics.

Desemprego nos 10% entre os homens jovens

Desde meados de 2023, a taxa de desemprego entre os recém-formados aumentou 1,6 pontos percentuais — ou seja, o triplo do valor total a nível nacional nos Estados Unidos, segundo a Oxford Economics.

A taxa de desemprego nas pessoas entre os 20 e os 24 anos é praticamente o dobro da média nacional, atingindo os 8,2%, segundo o Bureau of Labor Statistics. A situação é ainda mais preocupante para os homens jovens: enfrentam uma taxa de 9,6%, o que compara com os 6,7% do ano passado.

Depois de uma corrida em 2021 e 2022 para contratar, as empresas estão agora a adotar uma abordagem muito mais cautelosa, uma vez que se confrontam com uma guerra comercial confusa e têm de lidar com taxas de juros altas.

O número de pessoas a receber subsídio de desemprego nos EUA subiu em meados de maio, para o nível mais alto dos últimos quatro anos, segundo o Labor Department. É um sinal de que os candidatos estão a levar mais tempo para conseguirem encontrar trabalho.

A contratação para funções dirigidas a quem se encontra no início da carreira caiu 23% nos EUA quando comparado com março de 2020, o que supera a queda de 18% na contratação em geral durante o mesmo período, como revelou a plataforma LinkedIn.

“É um cenário conhecido como “nem contrata, nem demite”, difícil para quem procura trabalho, mas que favorece uma inflação baixa, maior produtividade, e um crescimento económico sustentável no longo prazo”, diz Thomas Simons, economista-chefe na Jefferies.

Feira de emprego do Diversity Career Group em Los Angeles, a 17 de abril de 2025. A confiança dos trabalhadores da Geração Z nos EUA caiu recentemente para níveis recorde, segundo o LinkedIn (Eric Thayer/Bloomberg/Getty Images)

À procura de trabalho, mas sem “esperança”

Jenna Macksoud procurou afincadamente o seu primeiro emprego depois de se formar na American University no final de 2023. A jovem de 23 anso candidatou-se a muitas vagas durante mais de um ano. Em média, cinco a dez anúncios por dia. Contudo, praticamente não recebia qualquer resposta dos empregadores.

“Olhando para trás, foi mesmo algo traumático. Começou a ser um peso muito grande para mim”, diz Jenna Macksoud à CNN numa entrevista por telefone. “Perdi a esperança”.

A longa procura de emprego costuma afetar os recém-formados a nível emocional. A confiança dos trabalhadores da chamada Geração Z, nos Estados Unidos, caiu recentemente para os níveis mais baixos de sempre. Mais baixos ainda do que no início da pandemia, nota o LinkedIn.

Para Macksound, a pressão foi ainda maior porque, tal como muitos outros universitários, acumulava dívidas de 70 mil dólares à custa do empréstimo que contraiu para pagar os estudos.

A busca por oportunidades no setor público e em organizações não governamentais revelou-se um beco sem saída. A jovem acabou por alargar o âmbito da sua pesquisa, conseguindo um emprego na área do desenvolvimento de negócio de uma empresa de tecnologias da informação e cibersegurança.

Macksound incentiva os licenciados de hoje a não desanimarem perante a rejeição.

“É tudo uma questão de números. Precisas de mudar a forma como pensas, para não te sentires desanimados por não conseguir nada. É preciso encarar essa busca de emprego com persistência e determinação”, diz.

Inteligência artificial já está a destruir empregos para quem começa a trabalhar?

Encontrar um trabalho pode ficar ainda mais difícil no atual contexto, com o avanço rápido dos modelos de inteligência artificial de nova geração.

Dario Amodei, presidente executivo da IA Anthropic, já veio alertar que esta tecnologia pode eliminar praticamente metade dos empregos na área administrativa destinados a quem está a iniciar a sua carreira. E, assim, fazer subir a taxa de desemprego para os 10% a 20% nos próximos um a cinco anos.

Amodei contou a Anderson Cooper, jornalista da CNN, que é “assustadora” a forma como as pessoas e os legisladores que as representam não estão a prestar a devida atenção ao que está a acontecer com os avanços da inteligência artificial no mercado de trabalho.

“Temos de agir agora. Não podemos apenas entrar nessa realidade como se fossemos sonâmbulos”, disse o líder da Anthropic.

A destruição de empregos para quem está a começar a carreira já está a acontecer, pelo menos em algumas áreas do mercado de trabalho.

A Oxford Economics, por exemplo, nota que o emprego nas áreas da ciência da computação e da matemática – dois setores particularmente vulneráveis à inteligência artificial – caiu 8% desde 2022 para as pessoas entre os 22 e os 27 anos. Para contrastar, a taxa de emprego nessas indústrias para quem tem mais de 27 anos pouco mudou.

“A inteligência artificial está, definitivamente, a substituir alguns desses empregos, destinados a quem está numa fase inicial das suas carreiras”, refere Matthew Martin, economista da Oxford Economics. Este especialista espera que a inteligência artificial não só elimine, mas também crie empregos, especialmente no setor da tecnologia, junta.

Há quem argumente que os receios sobre o impacto da inteligência artificial no mundo do trabalho são exagerados.

“Não temos qualquer evidência de que isso [demora na contratação de recém-formados] seja causado pela inteligência artificial”, diz Kory Kantenga, responsável do LinkedIn pela área de economia, numa conversa telefónica com a CNN.

Kantenga nota que sempre houve previsões catastróficas acerca da capacidade da tecnologia em eliminar empregos.

“Quando introduziram as caixas multibanco, havia o medo de que os bancários fossem todos despedidos. Na realidade, adaptaram-se e evoluíram”, afirma.

O custo da universidade

Estas dificuldades sentidas pelos recém-formados em relação ao mercado de trabalho surgem no meio de um debate mais amplo sobre o verdadeiro valor de um diploma universitário, que pode custar centenas de milhares de dólares, deixando os estudantes esmagados com dívidas.

A taxa de desemprego entre os jovens, dos 22 aos 27 anos, com diploma de licenciatura ou superior é menor do que a taxa entre aqueles que não têm este tipo de formação. Ainda assim, essa diferença tem vindo a diminuir nos últimos dados, segundo os dados federais.

Kantenga refere que, embora o custo de um curso de quatro anos tenha aumentado, há muitos americanos que consideram que o investimento vale a pena, porque as hipóteses de ganhar mais são maiores e acreditam que a taxa de desemprego será menor.

“No fim de contas, os benefícios de ter um diploma ainda superam os custos”, resume.

Os economistas alertam que este mercado difícil, aliado aos riscos associados à inteligência artificial, coloca sobre os estudantes universitários o peso da responsabilidade de escolher bem onde se querem especializar – por exemplo, em áreas com crescimento mais rápido, como a saúde ou a educação.

“A dica é: perceba onde está o crescimento e não pense apenas no primeiro emprego, pense antes no passo seguinte”, diz Kantenga. “Se conseguir um primeiro emprego que pague bem, ótimo. Mas isso não vai adiantar de nada se não tiver para poder evoluir depois”.

Candidatos numa feira de emprego no sul da Flórida em junho de 2024. Os economistas avisam que este mercado de trabalho desafiante, aliado aos riscos associados à inteligência artificial, colocam o peso nos estudantes para que escolham com sabedoria onde se querem especializar (Joe Raedle/Getty Images)

“O que é que é suposto eu fazer?”

Este mercado de trabalho difícil não preocupa só os jovens: também preocupa os pais deles.

“É muito frustrante”, conta Rob Bastress, que tem um filho que se formou na University of California Irvine em dezembro de 2023 e que, desde então, tem tido dificuldades para encontrar trabalho. “Pressionamos os nossos filhos a tirar boas notas, a entrar numa boa faculdade que lhes garanta oportunidades. E parece que essas oportunidades desapareceram”.

Bastress, que mora na região da Baía de São Francisco, e que trabalha com tecnologia, acredita que a inteligência artificial é parte do problema.

“Acredito que houve empregos eliminados à custa da automação incentivada pela inteligência artificial. E vai ficar ainda mais difícil”, diz, notando que alguns modelos mais recentes de inteligência artificial nem sequer vão exigir comandos humanos para conseguirem executar tarefas e tomar decisões.

Gabriel Nash, com 24 anos, a viver em Orlando, Flórida, conta que se candidatou a cerca de 450 vagas em comunicação e edição de vídeo desde que se formou na University of Central Florida em maio de 2024.

Nenhuma dessas candidaturas resultou num emprego.

Nash trabalha a tempo parcial como criador de conteúdos, produzindo vídeos sobre jogos para o Youtube. É um trabalho que lhe rende o suficiente para pagar o seguro do carro e algumas outras despesas. Contudo, não é o suficiente para sair de casa dos pais.

“É stressante”, confessa Nash. “Existe uma pressão social para arranjarmos trabalho e sairmos da casa dos pais. Mas se ninguém está a contratar, o que é que é suposto eu fazer?”.

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