opinião
Psicóloga e vogal da direção nacional da Ordem dos Psicólogos Portugueses

O Psicólogo Responde: O que significa ter inteligência emocional e como podemos desenvolvê-la?

17 ago, 10:00
O Psicólogo Responde (DR)

O Psicólogo Responde é uma rubrica sobre saúde mental para ler todas as semanas. Tem comentários ou sugestões? Escreva para opsicologoresponde@cnnportugal.pt

No dia de aniversário uma criança decidiu doar todo o dinheiro que recebeu, 23 dólares, a uma mulher sem abrigo que vendia doces na rua, para que pudesse comprar leite para o seu bebé. O momento foi gravado, viralizou numa rede social, alcançando milhões de visualizações e inspirou outras pessoas, tendo originado uma campanha de recolha de donativos. O dinheiro é um conceito criado pela sociedade, enquanto a virtude e a generosidade são valores que de facto existem. Empatia gera empatia, gentileza gera gentileza, generosidade gera generosidade. O gesto não foi apenas marcante, foi contagioso e impulsionador de esperança num mundo melhor.

As emoções têm uma função importante na nossa vida. Saber gerir como e quando mostrar emoções e discernir com quem poderão ser partilhadas é essencial para evitar a subnutrição emocional. É na interação com os outros que o sentimento de valorização e competência pessoal e a capacidade de gerir emoções são incrementados. As pessoas com competências emocionais bem desenvolvidas apresentam também competências sociais mais adequadas e melhores níveis de bem-estar psicológico. Por seu turno, as competências sociais são importantes porque facilitam o estabelecimento e desenvolvimento de relações mutuamente apoiantes e potenciam um crescimento emocional positivo. Indivíduos que apresentam competências emocionais menos desenvolvidas estão mais sujeitos a experienciar sintomatologia depressiva e ansiosa, a adotarem mais comportamentos antissociais, a recorrerem ao abuso de álcool e drogas e a envolverem-se em relacionamentos mais destrutivos.

Assim, é inegável a importância das competências socioemocionais para o sucesso na vida. Mas, no que consistem? Como são promovidas? Qual o impacto que têm na vida das pessoas?

A competência emocional é considerada uma capacidade estrategicamente multifacetada. Segundo os autores Mayer e Salovey (1990) a inteligência emocional envolve a capacidade de perceber, avaliar e expressar emoções adequadamente; de perceber e/ou gerar sentimentos quando eles facilitam o pensamento; de compreender as emoções e o conhecimento emocional; e de controlar emoções reflexivamente, de modo a promover o crescimento emocional e intelectual.

É pouco adequado referir que uma inteligência pode ser ensinada uma vez que a inteligência se refere à capacidade para aprender. Contudo, se ensinar inteligência emocional faz pouco sentido, uma pequena alteração na linguagem para aprendizagem socioemocional é bastante aceitável. Através de instrução e treino explícito, as competências socioemocionais podem ser ensinadas, modeladas, praticadas e aplicadas a diversas situações para que as crianças, os jovens e os adultos as utilizem como parte do seu reportório de comportamentos.

A maioria destas intervenções decorre em contexto escolar e inclui programas de promoção universal, ou seja, intervenções dirigidas à população em geral sem prévia análise do grau de risco individual, desde o nível pré-escolar até ao ensino superior, embora também existam outros programas destinados a crianças e adolescentes em risco ou que já evidenciaram problemas de ajustamento, dificuldades emocionais, sociais ou comportamentais.

Estes programas têm evidenciado eficácia com benefícios nos domínios comportamental, atitudinal, emocional e académico e melhorias não só nas competências socioemocionais das crianças e jovens, mas também no seu desempenho académico e numa redução dos problemas de comportamento externalizante e internalizante, os quais são evidentes imediatamente após a intervenção e em vários momentos de follow-up.

As intervenções com adultos em contexto clínico também podem focar competências socioemocionais que promovam a autoconsciência emocional (reconhecimento de mecanismos de ativação de stress e distress, identificação de pensamentos automáticos, identificação de afirmações pessoais positivas e calendarização de acontecimentos agradáveis) e o autocontrolo (gestão, redução e inoculação do stress, reestruturação ou modificação cognitiva, isto é, desafiar distorções, gerar contra argumentos para afirmações pessoais negativas e aumentar o discurso interno positivo). Também empregam frequentemente técnicas para promover a consciência social (uso do apoio social para reduzir o stress e melhorar o bem-estar), as competências de relacionamento interpessoal (comunicação, assertividade, resolução de problemas interpessoais, gestão e resolução de conflitos e realce dos aspetos positivos dos relacionamentos) e de tomada de decisão responsável (dar passos para reduzir o stress, modificar o comportamento desadaptativo, estabelecer objetivos e gerir o tempo).

Atenção que o treino de competências socioemocionais não é uma panaceia e dificilmente poderá alterar focos de desigualdade política, social e económica, correndo-se o risco de culpar as pessoas por problemas que não lhes são imputáveis. A ideologia de sucesso através do poder da mente, isto é, da mudança através do pensamento requer reflexão, no sentido de desencorajar intervenções que oferecem apenas a ilusão de uma maior influência de cada pessoa relativamente ao seu ambiente e que pouco contribuem para a existência de relacionamentos mais harmoniosos, coesão social, inclusão nas comunidades, atitudes mais positivas em relação à diversidade cultural e individual e para a equidade e justiça social.

A propósito da discussão sobre inteligência artificial e o seu impacto na sociedade, Stephen Hawking referiu em 2017 que, em 20 anos, os computadores serão capazes de imitar o cérebro humano e depois decidirem se querem ou não destruir a Humanidade. Há coisas que as máquinas fazem melhor que os seres humanos e memorizar é uma delas. No entanto tudo o que implica interação e interpretação através da interação é algo que não poderá ser replicado pela inteligência artificial. Um robot pode acumular maiores quantidades de informação do que um/a psicólogo/a, mas falha na interpretação através da interação, em relação ao modo como o/a cliente se está a sentir.

Temos de pensar melhor sobre o que nos vai distinguir das máquinas. “Somos máquinas de sentimentos que pensam e não máquinas racionais que se emocionam”. A maldade, a inveja e o preconceito têm potencial? Sim, mas a empatia, a resiliência e a solidariedade também. E está ao alcance de todas as Pessoas, serem dias de luz e estarem à altura do acontecimento que é viver. O desafio é criar humanos de primeira e não robôs de segunda!

A importância do trabalho desenvolvido na prevenção e promoção de competências socioemocionais é cada vez mais saliente. A psicologia e a ciência psicológica podem auxiliar as pessoas numa melhor gestão das suas emoções e pensamentos, no estabelecimento e manutenção de relações sociais mais positivas e recompensadoras e na obtenção de melhores níveis generalizados de bem-estar e saúde psicológica.

Sugestões práticas que ajudam a promover competências socioemocionais:

Autoconhecimento emocional 

- Analisar, diariamente, sentimentos e pensamentos, desafios e vitórias pessoais, praticando a autorreflexão (por exemplo, “o que aprendi hoje”?) 

- Reconhecer e celebrar conquistas, por menores que sejam 

- Procurar obter momentos de feedback construtivo sobre comportamentos  

- Estabelecer metas realistas e alcançáveis 

- Reconhecer o esforço e não só os resultados 

Consciência social 

- Analisar histórias e testemunhos que estimulem “colocar-se no lugar do outro” 

- Participar em ações de voluntariado comunitário 

- Discutir dilemas morais e éticos de filmes ou séries 

- Realizar dinâmicas de grupo com troca de papéis que incentivem a discussão sobre diferentes perspetivas 

Autocontrolo 

- Aprender técnicas de respiração, alongamentos e relaxamento para momentos de maior tensão 

- Criar rotinas de pausa consciente (meditação ou mindfulness) 

- Utilizar estratégias para lidar com a frustração (por exemplo, “contar até 10 devagar”, “mudar de ambiente”) 

- Dizer “não”, sem sentir culpa para evitar sobrecarga 

Relacionamento interpessoal 

- Investir tempo na escuta ativa (por exemplo, “olhando nos olhos”, “evitando interromper”) 

- Praticar o uso de mensagens na primeira pessoa (por exemplo: eu sinto-me e não tu fizeste) 

- Aprender a lidar com críticas construtivas, sem personalizar 

- Modelar comportamentos de calma e respeito em situações tensas 

- Dar feedback construtivo e evitar um estilo de comunicação violenta 

- Procurar mediar conflitos ou negociações em que todas as partes possam ganhar algo 

- Promover missões cooperativas e participação em ações solidárias 

Tomada de decisão responsável 

- Analisar prós e contras para avaliar alternativas 

- Considerar impactos individuais, sociais e ambientais nas decisões pessoais do dia a dia 

- Discutir casos reais ou fictícios sobre vários temas (por exemplo, pressão de pares e redes sociais)

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