Chardonnay e sete pratos no Kremlin. Como a saída de Merkel abriu caminho à afirmação do "querido" Macron

8 fev, 22:00
Putin e Macron reunidos no Kremlin Foto: EPA

Emmanuel Macron assumiu papel preponderante na negociação da crise russa com a Ucrânia, ocupando o lugar que Merkel deixou vago para o novo chanceler alemão, ainda incapaz de se afirmar. Putin recebeu-o em Moscovo com um "querido Emmanuel"

O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, já o disse: perante a possibilidade de um conflito entre Rússia e Ucrânia, a Europa vive hoje o "momento mais perigoso" desde o fim da Guerra Fria. Os líderes europeus desdobram-se em contactos diplomáticos para evitar o escalar de tensões e, naturalmente, já que França assumiu no início do ano a presidência do Conselho da União Europeia, Emmanuel Macron tem sido o rosto de muitos desses encontros. Sagaz e carismático, Macron não deixou de aproveitar o momento para se impor na agenda mediática, assumindo um lugar de relevo que antes tinha proprietária inquestionável: a ex-chanceler alemã Angela Merkel, que se retirou da política ativa depois de 16 anos à frente da economia mais poderosa da Europa.

Segunda-feira, o atual presidente francês e putativo candidato às eleições presidenciais do próximo mês de abril - Emmanuel Macron ainda não se apresentou oficialmente à corrida ao Eliseu - encontrou-se com o presidente da Rússia no Kremlin, com quem esteve durante cinco horas, deslocando-se esta terça-feira a Kiev para um encontro com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy. 

Durante as negociações em Moscovo, escreve a imprensa internacional, Putin e Macron degustaram um menu de sete pratos regado com vinho Chardonnay e outras castas de uma adega russa. No final, os dois permaneceram longe de um entendimento, tendo Macron alertado que é necessário trabalhar com rapidez para evitar o risco de uma escalada das tensões. Mas não passou despercebido o facto de Macron ter sido recebido por Putin com um "querido Emmanuel", tendo o russo elogiado o esforço da liderança francesa para apaziguar os ânimos e resolver a crise. 

Já esta terça-feira, na Ucrânia, Macron revelou que Putin lhe garantiu que a Rússia iria respeitar os Acordos de Minsk: a Alemanha e a França negociaram, em 2015, com a Ucrânia e a Rússia, os Acordos de Minsk ao abrigo dos quais terminaram os confrontos no leste da Ucrânia entre as forças do país e separatistas pró-russos, sem chegarem a um cessar-fogo. E esclareceu que a NATO está "no coração" do confronto entre as duas nações.

Scholz na sombra de Macron

Entregando-se a dias de diplomacia veloz, a figura omnipresente de Macron sobrepõe-se à de Olaf Scholz, o outro lado do poderoso eixo franco-alemão que frequentemente toma a dianteira nas decisões sobre o futuro da Europa.

"Macron está a aproveitar o vazio deixado pela saída de Angela Merkel e está a posicionar-se e a posicionar a França enquanto parceiro internacional", considera Helena Ferro de Gouveia, analista de assuntos internacionais. "Com Merkel, França ficava na sombra da Alemanha, e ele está a aproveitar este momento para se afirmar, conjugando isso com o facto de estar na presidência da UE, o que lhe dá uma grande vantagem: é ele que negoceia em nome da Europa", acrescenta a especialista.

Sinal de que Macron tem consciência dessa vantagem é, justamente, o facto de se abster agora de fazer afirmações críticas em relação à NATO, como aconteceu no passado. "Macron sempre considerou que a NATO tinha cumprido a sua função e que, nesta altura, a Europa deveria preocupar-se com a sua própria defesa", recorda Helena Ferro de Gouveia. E Putin, por sua vez, após o encontro com Macron no Kremlin, não deixou de repetir que a entrada da Ucrânia na NATO é para ele uma linha vermelha: se a Ucrânia entrar na NATO, que mantém uma posição de portas abertas a todos os países, "a NATO teria de intervir ao abrigo do artigo 5" do Tratado do Atlântico Norte, esclarece a analista de assuntos internacionais, pelo que é notada uma "diferenciação" das posições de Macron, agora com o peso das instituições internacionais sobre os ombros. "É uma análise interessante", reflete Helena Ferro de Gouveia. 

Ou seja, num momento de grande instabilidade internacional, Macron vai gerindo sensibilidades e falando para fora e para dentro do seu país, numa tentativa de granjear apoios e simpatias também para a sua causa. Mas a reeleição de Macron é incerta num país com a esquerda dividida e a direita cada vez mais próxima do extremo.

As dificuldades em França

Emmanuel Macron está "num momento de baixa popularidade", diz Helena Ferro de Gouveia. Em França, Marine Le Pen já não é a única força da extrema-direita e as próximas eleições presidenciais serão um desafio não só para Macron "mas para a esquerda francesa, vão ser decisivas para a Europa", assinala a analista. "Macron também não foi ajudado pela pandemia, nenhum político foi, teve de impor medidas restritivas que desagradaram", acrescenta.

Recorde-se ainda que, ao ficar conhecido como o "presidente dos ricos", por ter acabado com um imposto sobre os rendimentos mais altos, Macron terá mais dificuldades a recolher votos da esquerda, mesmo que, segundo as últimas sondagens, não pareça ter grandes dificuldades em passar à segunda volta das presidenciais de abril, provavelmente acompanhado por Valérie Pécresse, a ex-ministra de Sarkozy que corre pelo partido Os Republicanos e por Marine Le Pen, líder da Frente Nacional da extrema-direita.

Num cenário de não reeleição, Helena Ferro de Gouveia admite que a experiência política e diplomática de Macron, "um político jovem que chegou muito cedo à presidência francesa", deixarão em aberto várias possibilidades para o presidente francês de 44 anos, seja a nível interno, seja em posições de relevo internacional.

Movimentações frenéticas 

Além da visita de Macron a Moscovo, a semana continua pontuada por "movimentações frenéticas" para evitar a escalada de tensões entre Rússia e Ucrânia, que podem culminar com um conflito de dimensões inimagináveis. O chanceler alemão Olaf Scholz esteve segunda-feira com o presidente Joe Biden, em Washington, para garantir que os Estados Unidos estão alinhados com a Alemanha na resposta à crise da Ucrânia, mas foi ambíguo nas respostas sobre o gasoduto Nord Stream 2, que ainda não começou a operar mas deveria duplicar as exportações de gás de Moscovo para território germânico. Já Biden, garantiu o encerramento do Nord Stream 2, sem entrar em detalhes sobre o processo. "Garanto que conseguirmos fazê-lo", disse aos jornalistas. 

Enquanto Scholz estava na Casa Branca, Annalena Baerbock, a ministra alemã dos Negócios Estrangeiros, deslocou-se a Kiev para garantir apoio ao governo ucraniano. E ainda hoje, Macron deverá telefonar a Putin para lhe dar conta das conclusões do encontro com o presidente ucraniano. 

"Há um conjunto de movimentações que procuram encontrar uma saída diplomática e política para esta situação". refere Helena Ferro de Gouveia. "Em simultâneo, a Rússia está a aumentar a pressão e o seu posicionamento de forças permite no espaço de duas horas chegar a Kiev, temos um crescendo de pressão militar que, segundo os analistas, é visível".

Para a analista, será interessante também "observar a retórica" dos líderes nos próximos dias. Veja-se a avaliação do encontro entre Putin e Macron, em que "há quase um mundo de distância" entre as declarações prestadas pelos dois líderes após a reunião de cinco horas. "Houve de facto um trabalho no sentido de fazer avançar esforços diplomáticos, mas enquanto Macron falava em convergência, Putin foi mais cauteloso", observa Helena Ferro de Gouveia. 

Uma fonte do Eliseu avançou mesmo que a Rússia ter-se-ia comprometido a não avançar com novas movimentações militares, mas já esta terça-feira o Kremlin veio dizer que tais declarações não estavam "corretas". Ainda assim, após o encontro com o presidente da Ucrânia em Kiev, Macron voltou a dizer que teve garantias de Putin de que não iria agravar a tensão com a Ucrânia. Falando em Kiev, o presidente francês garantiu ainda que as conversações que manteve nas últimas 24 horas, com os presidentes da Rússia e da Ucrânia, ajudaram a que fossem feitos progressos na tentativa de "estabilizar a região".

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