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Doutorado em Filosofia da Ciência, Mestre em Relações Internacionais e autor em ciência política

Keep talking, pal!

4 mai, 08:31

Quando a Europa se recusou a alinhar em manobras militares no Estreito de Ormuz, o Presidente Trump respondeu com ataques que extravasaram o plano político para o insulto pessoal. Contudo, essa ausência de filtros e o exibicionismo da sua arrogância acabam por ser benéficos. Ao expor sem reservas o seu desrespeito e beligerância, Trump oferece aos líderes europeus a clareza necessária para, finalmente, endurecerem posições contra a irresponsabilidade da Casa Branca

Uma das séries mais fascinantes dos anos setenta tinha como protagonista o Tenente Columbo, magistralmente interpretado por Peter Falk. Para além da icónica frase “Just one more thing”, dita quando tudo parecia resolvido e o detetive aparentemente num beco sem saída, havia um traço essencial: Columbo não interrompia os suspeitos. Deixava-os falar. E eles falavam demasiado. Confiantes na própria astúcia, convencidos da sua superioridade, acabavam por se expor sem perceber. Columbo limitava-se a ouvir, com um sorriso quase distraído, como quem pensa: “keep talking, pal” - continua a falar, “amigo”.

Quando vários líderes europeus se recusaram a alinhar com a ideia de abrir à força o trânsito marítimo no Estreito de Ormuz com recurso a navios de guerra, o Presidente Trump respondeu não apenas no plano político, mas também no plano pessoal.

Em relação a Emmanuel Macron, ridicularizou a sua imagem pública e a relação com a mulher, Brigitte Macron, num registo de troça pessoal.

A Keir Starmer, chamou-lhe “fraco” e “ingénuo”, acusando-o de comprometer a segurança de uma base militar estratégica em Diego Garcia.

Giorgia Meloni foi descrita como “fraca” e vulnerável a influências externas ligadas ao Vaticano e a agendas políticas internacionais.

E, mais recentemente, Friedrich Merz foi retratado como “ineficaz”, críticas acompanhadas por reparos à sua capacidade de leitura da política externa.

O vosso cronista tem defendido neste espaço, e em momentos de comentário na rubrica Arena da CNN Portugal, que os europeus não têm de andar a salvar os Estados Unidos (USA) dos seus próprios erros de julgamento, ou do menosprezo pelas consequências das suas ações. Mais do que isso, e como se torna cada vez mais evidente em várias vozes no debate público, é tempo de a União Europeia (UE), bem como os Estados europeus na NATO, adotarem uma postura mais assertiva e menos subordinada perante a Administração Trump.

Daí ser exasperante ver líderes como o chanceler alemão sentado ao lado do Presidente dos USA enquanto este ameaçava a Espanha e a Europa com uma guerra económica, ou quando disse que o Primeiro-Ministro do Reino Unido “não é um Winston Churchill”. Tudo isto porque Sánchez e Starmer não aceitaram entrar, de forma incondicional e submissa, em manobras militares ditadas pela Casa Branca.

Estas demonstrações, genuínas na minha opinião, de desrespeito, arrogância e beligerância por parte do Presidente dos USA talvez possam, finalmente, endurecer mentes e posições por parte dos líderes europeus, em sentido contrário à fantasia de que Trump é um ator racional e construtivo. Seria também bom vermos o mesmo da presidente da Comissão Europeia, que me parece que será a última a aceitar essa inevitabilidade.

A isto continua a juntar-se a completa irresponsabilidade da Casa Branca na gestão de assuntos transatlânticos, desde a imposição de tarifas caprichosas e o abandono de acordos comerciais, até à deserção do apoio militar à Europa ou mesmo às ameaças imperialistas de domínio de um território do Reino da Dinamarca.

Maya Angelou (1928–2014) foi uma poetisa, ativista de direitos civis e artista. É-lhe atribuída a frase “When someone shows you who they are, believe them the first time” (quando alguém lhe mostra como é, acredite logo à primeira). Alguns de nós, quando Trump desceu as escadas rolantes da Trump Tower em junho de 2015, vimos logo o que aquilo significaria para a política interna americana. Quando a segunda Administração tomou posse, muitos viram o que aconteceria a seguir na relação entre os USA e a UE.

Para o vosso cronista, espero que se comece a espalhar pelas capitais europeias a ideia de que temos o poder de impor a esta Casa Branca um preço muito elevado quando esta quiser usar o velho continente para as suas aventuras militares. Uma coisa sabemos: enquanto Trump for o Presidente, contamos com uma “ajuda preciosa” para que isso se transforme numa realidade: “Keep talking, pal”.

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