Por que razão uma nação árabe optou por ensinar o Holocausto nas suas escolas

CNN , Mohammed Abdelbary*
21 jan, 16:00
Estudantes rabinos carregam uma Torá para uma demonstração durante as aulas na Escola Hebraica Judaica, a 8 de outubro de 2021, no Dubai, Emirados Árabes Unidos. Créditos: Andrea DiCenzo/Getty Images

Em breve, os Emirados Árabes Unidos (EAU) tornar-se-ão na primeira nação árabe a ensinar os horrores do Holocausto nazi nas suas escolas, num movimento histórico que tem sido elogiado nalguns quadrantes - e também criticado noutros.

O ensino sobre o Holocausto constará dos currículos das escolas primárias e secundárias, informou a embaixada do país nos Estados Unidos através de um tweet.

Os EAU revelaram ainda que irão trabalhar na área da educação com o Instituto de Monitorização da Paz e Tolerância Cultural, com sede em Telavive e Londres, e também com o Yad Vashem, a Autoridade para a Memória dos Mártires e Heróis do Holocausto, em Jerusalém, para desenvolver um novo currículo, de acordo com o Times of Israel.

"Temos a oportunidade de alcançar novos públicos e o Yad Vashem está a trabalhar na construção de um caminho para a consciencialização, do mundo de língua árabe, dos horrores do Holocausto ", disse à CNN o porta-voz da organização, Simmy Allen. "Em praticamente todos os países de língua árabe, até há pouco tempo, havia pouco ou nenhum diálogo com o Yad Vashem sobre os acontecimentos e atrocidades do Holocausto", acrescentou.

O ensino do Holocausto tem estado ausente dos currículos escolares dos governos nos países árabes, mas os EAU têm tentado despertar a consciência do Holocausto desde que normalizaram as relações com Israel em 2020, num pacto conhecido como os Acordos de Abraão.

O ministro dos Negócios Estrangeiros dos EAU, Abdullah Bin Zayed, visitou o principal memorial do Holocausto, em Berlim, no final de 2020, juntamente com o seu homólogo israelita. Em 2021, inaugurou no Dubai a primeira exposição memorial do Holocausto na região árabe e o ano passado, numa visita altamente difundida, esteve no Yad Vashem, onde depositou uma coroa de flores.

Em 2021, num artigo publicado no jornal Israelita Jerusalem Post, Ali Al Nuaimi, presidente do Comité de Defesa, Interior e Relações Exteriores do Conselho Nacional Federal dos EAU para Abu Dhabi, escreveu que os currículos escolares do mundo árabe "omitiram, durante demasiado tempo, partes importantes da história do Ocidente", incluindo o Holocausto. Os muçulmanos, argumentou, "devem libertar-se do fardo da história para que possam avançar em direção ao futuro".

A mudança é "uma consequência natural dos Acordos de Abraão", disse à CNN Kristin Smith Diwan, académica residente no Instituto dos Estados Árabes do Golfo, em Washington.

“Os líderes dos Emirados Árabes Unidos têm vindo a planear mudanças culturais que possam apoiar os seus objetivos estratégicos”, referiu. “A aceitação da diversidade étnica tem acompanhado a expansão de uma força de trabalho global e o diálogo inter-religioso e ajudado a combater o pan-islamismo e o extremismo religioso.”

Não é claro se a medida dos Emirados Árabes Unidos se aplicará apenas às escolas administradas pelo governo ou também às centenas de escolas privadas do país.

De acordo com dados do Banco Mundial, aproximadamente 90% da população dos Emirados Árabes Unidos, cerca de 10 milhões, é composta por expatriados e muitos colocam os seus filhos em escolas privadas que lecionam currículos internacionais e, muitas vezes, já incluem o ensino sobre o Holocausto.

Nas redes sociais, os Emirados mantiveram-se em silêncio sobre a decisão de lecionar o Holocausto, mas Abdul Khaleq Abdulla, um proeminente comentador local e professor de ciências políticas, comentou o anúncio num tweet, onde referiu que tal não seria necessário.

“Tem havido muita discussão sobre a integração do Holocausto nos nossos currículos, apesar da ausência de qualquer valor nacional, educacional (benefício) ou necessidade de conhecimento” twittou.

A maioria das reações de árabes residentes fora dos Emirados Árabes Unidos foi negativa, com alguns a acusar o país de entregar o controlo dos seus currículos a Israel, enquanto outros questionaram se isso aconteceria às custas do ensino da história dos palestinianos, particularmente da Nakba. Nakba, que significa catástrofe em árabe, refere-se ao estabelecimento de Israel, em 1948, que levou à saída forçada de cerca de 700.000 palestinianos. 

“Não negamos o Holocausto e respeitamos as suas vítimas”, twittou Dareen, um comentador do Twitter que se identifica como palestiniano. “Mas incluí-lo no currículo para jovens estudantes torna mais fácil a ocupação (de Israel) e a sua infiltração no povo árabe.”

Os Emirados Árabes Unidos, que têm uma vasta comunidade palestiniana, referiram nos media locais que a sua boa relação com Israel não afetará o seu compromisso para uma solução de dois Estados no conflito israelo-palestiniano.

Yasser Abu Hilala, antigo diretor da Al Jazeera, twittou que ensinar o Holocausto nos Emirados Árabes Unidos seria “útil para conhecer a história e a brutalidade do Ocidente”, acrescentando que “é o mesmo Ocidente que originou o Sionismo”, referindo-se ao movimento político de criação de um Estado Nacional que acolhesse os judeus no Médio Oriente."

O envolvimento de uma organização israelita na elaboração dos programas educativos do país carrega um nível de complexidade adicional. Sondagens mostraram que a população de nações árabes, que normalizaram as suas relações, não partilha da visão dos seus governos em relação a Israel. Em julho de 2022, uma pesquisa do Washington Institute para uma política próxima do Oriente mostrou que mais de 70% da população dos Emirados Árabes Unidos e do Bahrein têm uma visão negativa da normalização.

Os Acordos de Abraão também não são populares noutras nações árabes. Uma sondagem do Centro Árabe de Investigação e Estudos Políticos do Catar, divulgada recentemente, mostrou que apenas 7,5% dos árabes apoiam a normalização, com 84% a considerar Israel como a maior ameaça para a região árabe, seguidos pelos Estados Unidos e o Irão, respetivamente.

A sondagem, que abrangeu mais de 33.000 pessoas em 14 nações árabes, não incluiu os Emirados Árabes Unidos.

Os analistas dizem que, apesar das diferenças entre as opiniões oficiais e populares sobre Israel, é provável que os EAU avancem com o reforço dos laços com Israel.

"A população dos Emirados pode não estar totalmente de acordo, mas os líderes decidiram que este é o caminho a seguir e assim continuarão a fazê-lo", disse à CNN Dina Esfandiary, conselheira para o Médio Oriente e Norte de África no International Crisis Group. "Eles acreditam que têm maior influência sobre Israel e a ação israelita, mantendo bons laços."

Alguns emiradenses sentir-se-ão desconfortáveis com a ligação a uma instituição israelita "numa área sensível como a educação", uma vez que existe simpatia popular pela situação dos palestinianos, disse Diwan do Instituto dos Estados do Golfo Árabe.

"Mas isto não deve negar o valor e a importância de compreender os factos históricos e o contexto do Holocausto", acrescentou. "A desinformação é um problema e não serve ninguém."

*Com reportagem adicional de Michael Schwartz em Jerusalém

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