O "sonho americano" tinha um preço. Deixaram Miami e começaram de novo em Itália

CNN , Tamara Hardingham-Gill
29 ago, 09:00
Norma e Gaston Galella mudaram-se de Miami para Itália com os dois filhos em 2024. Cortesia de Norma e Gaston Galella.
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Tinham uma vida "excelente" e uma empresa de sucesso, mas queriam outro ritmo para a família. Encontraram-no numa cidade que nem sequer conheciam antes da mudança

Quando viviam em Miami, iam de carro para quase todo o lado, mas, desde que se mudaram para a cidade italiana de Rimini com os dois filhos e o cão, Gaston e Norma Galella ganharam o gosto por andar de bicicleta.

O casal, que está casado desde 2005, desfez-se do carro pouco depois da mudança e adora percorrer de bicicleta a nova cidade, pedalando até às praias locais e pelas zonas rurais da região de Emilia-Romagna. Apesar das suas pequenas dimensões, dizem que Rimini tem tudo aquilo de que precisam.

Entre as suas atrações preferidas está o Museu Fellini, instalado num antigo castelo e dedicado a Federico Fellini, realizador natural de Rimini que assinou o clássico de 1960 "La Dolce Vita". Também adoram explorar os trilhos do Parco XXV Aprile, um parque local ligado a uma ponte romana com 2.000 anos.

A doce vida

A família vive agora em Rimini e diz ter um estilo de vida melhor na cidade italiana. Norma e Gaston Galella
A família vive agora em Rimini e diz ter um estilo de vida melhor na cidade italiana. (Norma e Gaston Galella)

Embora ainda estejam há relativamente pouco tempo em Itália, os Galella, que se mudaram da Argentina para os Estados Unidos quando eram jovens, dizem que a vida no país europeu combina com eles e que nunca se sentiram deslocados.

"Para nós, foi mais como regressar a casa", diz Norma, lembrando que os dois avôs de Gaston emigraram de Itália para a Argentina há muitos anos. "O que é um pouco estranho, porque vivemos durante tanto tempo nos Estados Unidos. Mas nunca nos sentimos verdadeiramente americanos."

Embora hoje a família esteja perfeitamente adaptada à vida em Rimini, antes da mudança a cidade, conhecida pelas praias e por monumentos como o Arco de Augusto - o mais antigo arco triunfal romano ainda existente -, nem sequer estava no horizonte do casal.

"Nunca sequer tínhamos ouvido falar desta cidade...", diz Norma. "E, para nós, acabou por ser uma bênção disfarçada, porque adoramos viver aqui. Neste momento, não nos imaginamos em mais lado nenhum."

Então, porque decidiram deixar Miami há dois anos? Apesar de terem uma vida "excelente" e de gerirem juntos uma empresa de remodelações bem-sucedida, o casal sentia que faltava alguma coisa e concluiu que a cidade não era o ambiente certo para criar os dois filhos.

Uma visita à família de Gaston, em Itália, mudou tudo. "Basicamente, apaixonámo-nos por este lugar", contam. E começaram a planear uma futura mudança.

"A cultura é muito semelhante à da Argentina e sempre nos fez sentir em casa", aponta Gaston.

Os dois admitem que tinham olhado para a promessa de uma vida nos Estados Unidos "de olhos vendados", uma visão moldada pelas experiências dos pais, que "viveram realmente o sonho americano".

Mas também perceberam que esse sonho tinha um preço.

"Naquela altura, enquanto empresários, percebemos que tínhamos, de facto, o 'sonho americano'", diz Norma. "Mas havia um preço a pagar... o estilo de vida. O stress. Tudo isso tinha um custo."

Queriam que os filhos tivessem "uma infância a sério", longe das pressões e ansiedades do sistema escolar norte-americano. Sair enquanto os filhos ainda eram pequenos significava que não estariam "demasiado ligados aos amigos", o que facilitaria a adaptação.

"Eles ficaram muito entusiasmados com a ideia", revela Norma. "E a adaptação foi muito fácil para eles."

O sonho italiano

"Neste momento, não nos imaginamos em mais lado nenhum", diz Norma. Norma e Gaston Galella
"Neste momento, não nos imaginamos em mais lado nenhum", diz Norma.(Norma e Gaston Galella)

"Decidimos simplesmente arriscar", explica Gaston. O facto de poder obter a cidadania italiana por descendência ajudou-os a tomar a decisão. "Todas as peças se encaixaram. E foi como se pensássemos: 'É mesmo para acontecer.'"

Inicialmente, o casal ponderou mudar-se para a histórica cidade de Florença, mas não conseguiu encontrar uma casa adequada. Um familiar sugeriu Rimini e, no espaço de uma semana, conseguiram arrendar uma casa no centro histórico da cidade.

Deixar para trás a vida em Miami implicou encontrar inquilinos, fazer as malas e pagar mais de 10.000 dólares em bilhetes de avião, além de outros 3.000 dólares para enviar alguns dos seus bens.

A maior despesa foi o alojamento: tiveram de pagar antecipadamente um ano de renda, além de uma caução.

Em junho de 2024, os Galella voaram para Roma com os dois filhos, então com sete e nove anos, e o cão da família, Teddy, um pastor-australiano. Alugaram uma carrinha e passaram algumas semanas em Florença antes de seguirem para Rimini, onde tinham arrendado uma casa sem nunca a terem visto. Quando chegaram, os únicos móveis que tinham eram colchões.

Passaram os primeiros meses a conhecer a região, a "comer gelado todos os dias" e a mobilar a casa.

Foram imediatamente acolhidos pelos habitantes locais, que descrevem como "muito hospitaleiros".

Na verdade, o casal brinca dizendo que provavelmente conheceu "mais pessoas aqui num ano e meio do que durante toda a vida em Miami".

"É como uma pequena comunidade dentro deste pequeno bairro", afirma Norma. "Começamos a conhecer pessoas e depois convidam-nos para almoçar."

Encontrar trabalho em Itália revelou-se mais difícil.

"Ou éramos demasiado qualificados ou não tínhamos conhecimentos básicos da língua que nos permitissem trabalhar em alguma coisa que não exigisse muita experiência", conta Norma. "Por isso, andávamos um pouco para trás e para a frente."

Cerca de um ano e meio depois de chegarem a Itália, venderam a casa que tinham em Miami, já convencidos de que a mudança era definitiva. Por cerca de 470.000 euros - aproximadamente 545.000 dólares - compraram uma casa para recuperar perto daquela que arrendavam. O imóvel é composto por duas unidades independentes que pretendem transformar numa casa de dois pisos e três quartos.

Também reabriram a empresa de remodelações, Duoma Atelier, começando pela nova casa, um projeto que estimam vir a custar mais 450.000 euros.

Os Galella dizem apreciar o ritmo de vida mais calmo em Itália e o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal de que os italianos desfrutam.

Uma comunidade acolhedora

Os Galella dizem que não têm qualquer intenção de regressar a Miami e que se sentem em casa em Rimini. Norma e Gaston Galella
Os Galella dizem que não têm qualquer intenção de regressar a Miami e que se sentem em casa em Rimini. (Norma e Gaston Galella)

"Eles têm a vida deles", diz Norma. "E trabalham para conseguir pagar as contas, mas o tempo livre é muito importante para eles."

O casal adora poder comprar produtos frescos e da época e considera Rimini mais acessível do que Miami. Elogiam também o sistema de saúde italiano e dizem sentir-se mais seguros por saberem que "não vão à falência por causa de uma conta médica".

A localização de Rimini permite-lhes viajar facilmente por Itália e pelo resto da Europa, além de apanharem voos no Aeroporto Internacional Federico Fellini.

Embora se tenham adaptado com relativa facilidade à vida em Itália, continuam a ter dificuldades com a língua. A expectativa de que o facto de falarem espanhol fluentemente lhes daria alguma vantagem acabou por não se confirmar.

"Quanto mais aprendemos, mais percebemos o pouco que sabemos", admite Norma.

Também brincam com a burocracia do país, que descrevem como "de outro mundo".

Norma tem atualmente uma autorização de residência (permesso di soggiorno), que lhe permite viver e trabalhar no país, e poderá obter a cidadania italiana depois de passar um teste de conhecimentos da língua. Os filhos do casal tornaram-se automaticamente cidadãos italianos quando Gaston obteve a cidadania.

Desde que partiram, os Galella ainda não regressaram a Miami. Sentem falta da família e dos amigos, mas dizem que têm recebido tantas visitas que isso tornou a distância mais fácil de suportar.

"Eles vêm cá e percebem: 'Agora entendemos porque é que vocês se mudaram para aqui'", conta Norma.

O casal não se imagina a regressar aos Estados Unidos e sublinha que tem agora um "verdadeiro sentimento de pertença", algo que raramente sentiu enquanto vivia em Miami.

"Somos mais felizes e mais unidos", diz Norma. "Porque conseguimos passar mais tempo juntos... Já éramos uma família muito unida, mas termos passado por esta experiência juntos, enquanto família, aproximou-nos ainda mais."

A mudança foi transformadora para os filhos, que estão a ter uma infância semelhante à que Gaston e Norma tiveram na Argentina.

"Foi uma experiência muito importante para os miúdos", aponta Gaston. "Aprenderam muito. E estamos muito melhor agora do que estávamos antes."

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