Geoffrey e Sarah apaixonaram-se por uma pequena cidade junto à fronteira com França. Dois anos e meio depois, sentem-se em casa - mas chegar até aqui não foi tão simples como imaginavam
Ao longo dos anos, viveram em vários lugares, incluindo São Francisco e a Irlanda, mas Geoffrey e Sarah dizem que nunca se sentiram tão em casa como na Alemanha.
O casal, que se mudou em 2023 para Breisach, situada no ameno vale do Reno, adora explorar as margens do rio, os parques e as florestas desta encantadora cidade, conhecida como a porta de entrada para a Floresta Negra, com o filho de seis anos.
Depois de dois anos e meio em Breisach, que foi construída no topo de uma colina, Geoffrey e Sarah - que optaram por não divulgar os apelidos por razões pessoais - dizem que foram recebidos de braços abertos e que agora sentem que fazem parte da comunidade local.
"Não teve nada a ver connosco", aponta Geoffrey. "Teve a ver com as pessoas daqui, que nos receberam de coração aberto."
Embora hoje estejam felizes e perfeitamente adaptados à vida na Alemanha, o casal diz que mudar-se para o país nunca fez parte dos seus planos.
Geoffrey e Sarah, casados desde 2005, estavam satisfeitos com a vida que tinham no Colorado e não tinham qualquer intenção de deixar os Estados Unidos até há cerca de uma década.
Uma grande decisão
Geoffrey diz que ficou deprimido depois das eleições presidenciais norte-americanas de 2016 e que começou a ver de outra forma a vida que levava nos Estados Unidos. Cerca de um ano depois, perdeu o emprego como engenheiro de testes de software.
"Isso acabou por me levar ao limite", conta Geoffrey à CNN Travel. "Queria afastar-me emocionalmente do que estava a acontecer à minha volta e, para isso, precisava também de me afastar fisicamente."
Como Sarah tinha conseguido obter a cidadania irlandesa através da avó, a Irlanda era uma das principais hipóteses para a família se mudar. Começaram então a procurar oportunidades tanto naquele país como nos Estados Unidos.
Quando Geoffrey recebeu uma proposta de emprego em Dublin, sentiram que era o momento certo para mudar.
"Se tivesse encontrado emprego nos Estados Unidos, provavelmente teríamos ficado", admite Geoffrey.
Deixar os Estados Unidos não foi uma decisão fácil para Geoffrey e Sarah, que dizem ter uma boa rede de apoio no Colorado. Tinham acabado de fazer grandes obras na casa onde acreditavam que iriam viver para sempre.
Em vez de a venderem, decidiram arrendar a casa de três quartos e mantê-la como uma espécie de salvaguarda. Arrendá-la foi fácil. Mais difícil foi encontrar onde viver em Dublin, já que não tinham dinheiro para comprar casa na capital irlandesa.
Foi então que decidiram ser "criativos". Inspirados por amigos que viviam num barco há vários anos, compraram uma casa-barco nos Países Baixos e mandaram transportá-la para Malahide, uma localidade costeira com marina, a norte de Dublin.
A embarcação chegou em junho de 2018, dois dias antes do casal.
"Podia ter corrido terrivelmente mal, mas acabou por correr tudo bem", diz Geoffrey.
Levaram no avião tudo aquilo de que precisavam, juntamente com os dois cães. A maior despesa da mudança foi a compra da casa-barco, que custou cerca de 64.000 euros. O lugar na marina custava cerca de 435 euros por mês.
"Tendo em conta que era a nossa casa a tempo inteiro, não era assim tão caro", aponta Sarah.
A aventura na Irlanda
Geoffrey e Sarah viveram cerca de cinco anos na Irlanda. Passaram um ano e meio na casa-barco, antes de se mudarem para uma pequena casa no centro de Dublin.
"Quando estávamos à espera do nosso filho, achámos que viver num barco no mar da Irlanda talvez não fosse o melhor sítio para ter um bebé a andar de um lado para o outro", explica Geoffrey.
Ao fim de alguns anos, começaram novamente a sentir vontade de mudar, conta Sarah, acrescentando que, com o passar do tempo, a Irlanda começou a parecer-lhe um pouco "isolada" e que estava pronta para partir.
"Gosto de ter mais oportunidades e opções, por isso estávamos entusiasmados", acrescenta.
Então, porquê a Alemanha? Ambos já tinham estudado alemão e vivido durante algum tempo no país, por isso, desta vez, os países onde se fala alemão - e inglês - estavam no topo da lista de preferências.
"Já não somos novos e é mais difícil aprender uma língua com a idade", diz Sarah, acrescentando que faziam questão de que o filho crescesse bilingue e que, por isso, já falavam alemão com ele em casa.
Também ponderaram regressar aos Estados Unidos, mas acabaram por desistir dessa ideia.
Em 2022, os três foram à Alemanha conhecer Freiburg im Breisgau, região onde Sarah tinha estudado, e ficaram imediatamente encantados com Breisach, uma cidade próxima, junto à fronteira com França.
"Acabámos por nos apaixonar por esta região", conta Geoffrey. "E dissemos: 'Está decidido. Agora vamos começar a procurar casa.'"
Depois de encontrarem uma casa adequada - um apartamento com dois quartos - e concluírem o processo de compra, o casal e o filho mudaram-se para Breisach, cerca de um ano depois da primeira visita.
A família foi recebida de braços abertos pela população local - quase de imediato, as vizinhas começaram a convidar Sarah para tomar café e comer uma fatia de bolo.
Mas, embora o casal tivesse partido do princípio de que o filho, na altura com três anos, era suficientemente novo para se adaptar facilmente à nova vida, a realidade foi muito diferente.
"Enquanto nós estávamos a desfrutar da forma calorosa como fomos recebidos e de tudo o resto, o nosso filho estava a ter dificuldades", conta Sarah. "Simplesmente não estava feliz."
Uma adaptação difícil
Sarah conta que o filho demorou cerca de cinco meses a adaptar-se à vida em Breisach e que, por vezes, começou a ter comportamentos difíceis.
"Não esperávamos que uma criança de três anos tivesse tantas dificuldades com a mudança", admite Sarah, sublinhando que foi um período extremamente difícil para toda a família.
Felizmente, as coisas foram melhorando e o filho acabou por entrar num Forest Kindergarten, um modelo de educação pré-escolar centrado na natureza, em que as crianças passam a maior parte do tempo ao ar livre, e onde agora está perfeitamente adaptado.
"Fazem passeios pela floresta, trepam às árvores e apanham frutos silvestres", aponta Sarah, acrescentando que o espaço parece saído diretamente de "O Senhor dos Anéis", de J. R. R. Tolkien.
Dois anos e meio depois de se mudarem para Breisach, toda a família se sente finalmente em casa e está convicta de que fez a escolha certa. Geoffrey trabalha agora à distância para uma empresa sediada nos Estados Unidos.
Uma das coisas que mais valorizam na vida em Breisach é o forte sentido de comunidade.
"Sinto que, nos Estados Unidos, há muitas vezes um certo consumismo subjacente a muitas das coisas que fazemos...", explica Sarah, acrescentando que muitas atividades podem dar a sensação de que se está simplesmente a pagar por um serviço. "Aqui, parece que há mais tendência para fazermos as coisas em conjunto."
"Estamos constantemente a viver experiências em que a comunidade faz parte daquilo que estamos a fazer", diz.
Por exemplo, o cinema local é gerido por um grupo de voluntários, entre os quais Geoffrey, enquanto Sarah passou a integrar o coro da cidade.
Quanto às diferenças culturais, Geoffrey admite que ainda tem, por vezes, dificuldade em lidar com a forma direta de os alemães comunicarem e que precisa de se lembrar de não levar certas coisas a mal.
"Aqui não há rodeios", aponta. "Nada de 'Oh, será que se importava muito?'"
Ambos admitem sentir alguma ansiedade em relação ao sistema de ensino alemão, que consideram muito diferente daquele a que estavam habituados nos Estados Unidos.
"Para mim, todo o sistema de ensino daqui é um mistério", diz Geoffrey. Sarah acrescenta que, por vezes, fica preocupada por não conseguir comunicar tão claramente quanto gostaria com os professores do filho, já que não fala alemão tão bem como o marido.
"Sentimo-nos realizados"
Em contrapartida, sentem que, na Alemanha, os adultos são mais tolerantes com as crianças nos espaços públicos e estão mais dispostos a interagir diretamente com elas quando o seu comportamento pode estar a afetar as pessoas à volta.
"Nos Estados Unidos, talvez alguém nos lançasse um olhar de reprovação", refere Sarah. "Aqui, as pessoas tomam a iniciativa de se aproximar da criança e tentar estabelecer uma ligação com ela, o que me parece uma boa forma de agir."
Quanto ao custo de vida, o casal considera que os preços na Alemanha são razoáveis e, quando regressa aos Estados Unidos de visita, fica muitas vezes chocado com o preço da comida e dos restaurantes.
"Parece tudo tão pouco acessível", aponta Sarah, ressalvando que Breisach poderá ser mais barata do que as grandes cidades alemãs. "Sobretudo quando se trata de comer fora, é preciso gastar muito menos."
Geoffrey, por sua vez, brinca que, depois de viverem em Dublin, considerada uma das cidades mais caras da Europa, por vezes tinham a sensação de que, em Breisach, quase lhes davam as coisas de graça.
Embora sintam a falta da família e dos amigos que ficaram nos Estados Unidos, têm recebido muitas visitas desde que se mudaram.
Geoffrey diz que a família já falou na possibilidade de, quando o filho terminar a escola, passar parte do tempo no Reino Unido, na Irlanda ou nos Estados Unidos.
"É claro que tudo pode mudar, mas não tenho saudades nenhumas dos Estados Unidos", diz Geoffrey. Sarah admite estar mais aberta do que o marido à possibilidade de regressar.
Quando o filho começar a escola, em setembro, e tiver pela primeira vez aulas numa sala de aula, o caminho até lá vai levá-lo por uma antiga escadaria de pedra que remonta à época romana, conta Geoffrey.
"Achamos isso muito giro", acrescenta. "Gostamos da história que existe aqui. Nos Estados Unidos não temos nada assim."
Olhando para trás, o casal diz que aconselharia outras famílias que estejam a pensar mudar-se para outro país a não encararem a mudança como definitiva até terem a certeza de que fizeram a escolha certa.
"Não vendemos a nossa casa e deixámos muitas das nossas coisas nos Estados Unidos", conta Geoffrey, explicando que só no ano passado acabaram por vender a casa no Colorado. "Experimentem durante algum tempo. Certifiquem-se de que gostam. Tenham um plano B."
Ambos dizem ter ficado agradavelmente surpreendidos por se sentirem tão em casa em Breisach, já que receavam que a cidade, com cerca de 16.000 habitantes, fosse demasiado "pequena" para eles.
"Somos pessoas que já mudaram muitas vezes de sítio e sentimo-nos satisfeitos", diz Sarah. "Sentimo-nos muito bem aqui e achamos que gostaríamos de ficar por algum tempo."
