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Analista político e especialista em políticas públicas

O futuro que ainda não emigrou

3 jul, 08:31
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Poucos assuntos ocupam tanto a política portuguesa como a saída dos jovens do país. Lamenta-se em todos os tons, promete-se travá-la em todos os programas. Falta, no entanto, colocar o dedo na ferida: a emigração dos nossos jovens qualificados não é uma anomalia que se corrija com vontade política - é uma consequência aritmética da economia que temos.

Um país paga o que a sua produtividade permite, e a de Portugal, por hora trabalhada, ronda dois terços da média da UE. É esse teto que fixa os salários. Formámos, entretanto, a geração mais qualificada da nossa história. Em 2024, 43% dos jovens dos 25 aos 34 anos concluíram o ensino superior, colocando Portugal em linha com a média europeia. Mas pagamos muito abaixo disso. Os salários dos jovens portugueses estão cerca de 29% abaixo da média europeia em paridade de poder de compra, o que deixa Portugal em 25.º lugar entre os 27.

A consequência mede-se nos próprios diplomados. Um recém-licenciado da Universidade de Lisboa que fica no país ganha, em média, 1.400 euros por mês; quem parte para a Europa, cerca de 2.300. Num mercado único, um desnível destes resolve-se por si. Desde Sjaastad e Borjas que a economia trata a emigração como um investimento - parte-se quando o que se ganha lá fora compensa o custo de partir - e, para um licenciado português, esse custo é quase nulo. Não precisa de visto, não precisa de autorização, e leva um diploma que a Europa reconhece e valoriza. Não é falta de patriotismo de quem sai. É a resposta racional a uma diferença de salário que nós próprios criámos. Podemos lamentá-la; não a legislamos para trás. Só a produtividade, e os salários que ela permite, a travam.

A verdadeira pergunta não é, por isso, por que partem tantos. É por que havíamos de esperar que ficassem. Ainda assim, há um movimento em sentido contrário, e é nele que mora a oportunidade. Enquanto os nossos jovens saem já formados, chegam todos os anos crianças que farão cá a escolaridade inteira. Os alunos estrangeiros passaram de 53 mil para 157 mil num punhado de anos – são hoje quase um em cada seis -, e foram eles que travaram o encerramento de escolas que já vinha de longe. Foram mais de 6.500 primárias fechadas desde 2002, ao ritmo da natalidade em queda. E há entre os dois fluxos uma diferença importante: quem parte já leva aquilo que Portugal lhe deu; quem chega ainda o vai receber. Recebe-o, aliás, num sistema de ensino que, apesar dos desafios que enfrenta, continua a ser o principal elevador social para sucessivas gerações.

Não se trata de achismo. Portugal tem três universidades entre as 500 melhores do mundo, com a Universidade de Lisboa no seleto grupo dos 2% mundial, e nove instituições no ranking QS de 2026. Tornou-se também um destino para estudar e investigar. O número de estudantes internacionais mais do que triplicou em vários ciclos na última década. E quem se forma cá emprega-se - na Universidade de Lisboa, 84% dos diplomados tinham trabalho um ano após concluir o curso. Um país que forma assim não devia ter dificuldade em segurar quem forma. Mas tem, e a razão regressa à casa de partida: o salário.

É aqui que os dois movimentos se encontram. As crianças que hoje entram na escola serão educadas por cá e por cá construirão uma vida. E, ao contrário do jovem que já tem o mundo à distância de um voo, têm razões para ficar. Podem ser a geração qualificada que a demografia nos negou e que a emigração nos leva - aquela que o Observatório da Emigração estima ser precisa, na ordem dos 50 mil por ano, só para compensar quem sai. Mas de «podem ser» a «serão» vai um caminho importante. Os alunos com origem estrangeira têm taxas de retenção e abandono muito superiores às dos colegas portugueses, e o próprio Ministro da Educação avisou que falhar a sua integração é falhar toda a política de imigração.

Trata-se, no fundo, a imigração como ameaça e a emigração como ferida, quando uma é, em boa parte, a resposta à outra. O país que forma bem e paga mal exporta os seus jovens e acolhe os filhos de quem chega. A questão decisiva não é, então, como impedir quem sai - isso a economia decide por nós. É como merecer que fiquem.

E é neste ponto que a resposta se inverte. Reter e formar quem chega não é um custo a gerir; é o investimento que, a prazo, pode mudar o próprio perfil da economia que hoje nos paga mal. Isto porque é o capital humano que puxa pela produtividade, e a produtividade que puxa pelos salários.

Os exemplos existem para quem os quiser ler. Nos Estados Unidos, cada 1% de emprego acrescentado pela imigração elevou o rendimento por trabalhador em cerca de 0,5%, por via de maior especialização produtiva. E a Irlanda, que durante gerações só exportou população, deve boa parte da sua transformação a ter recebido o capital humano que o seu próprio sistema de ensino não conseguia gerar depressa o suficiente - e foi sobre essa base que os salários subiram.

Nada disto é automático, e a mesma Irlanda mostra o reverso. Quando o trabalhador qualificado acaba a servir às mesas, o talento desperdiça-se, deprecia-se e volta a emigrar. E o risco está espalhado pelas ruas do país. Em Portugal, os trabalhadores estrangeiros concentram-se em setores de baixa produtividade, e mais de 40% estão sobrequalificados para o que fazem - quase o triplo dos nativos.

Este é o momento em que a ação política é mais decisiva. Estimular a qualificação de quem chega e simplificar o reconhecimento de graus e diplomas obtidos no estrangeiro, que hoje empurra médicos e engenheiros para trabalhos muito abaixo do que sabem fazer. A fronteira entre o círculo virtuoso e o desperdício chama-se integração, reconhecimento e escola. É por isso que aquilo que hoje se decide numa sala do 1.º ciclo - e numa avaliação de equivalências - é tão importante para o futuro. É ali que se escolhe se estas pessoas serão os quadros qualificados de amanhã ou se são mais uma oportunidade que deixámos passar.

Durante décadas, formámos os nossos jovens para que outros os aproveitassem. Formar bem os que agora chegam talvez seja a única forma de construirmos, enfim, a economia que nos deixe reter toda a gente.

Quem chegou ontem e quem cá está desde sempre.

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