A Zaragata - La Zizanie (Goscinny e Uderzo, 1970) - é um álbum da série Astérix. Na história, Júlio César envia Tulius Detritus, mestre da intriga e da guerra psicológica, à aldeia gaulesa para semear a discórdia. A estratégia inicialmente funciona, ao ponto de Astérix e Obélix se desentenderem. Todavia, os gauleses recuperam a união e, fiéis aos seus princípios morais, derrotam Detritus, devolvendo-o a César, humilhado e sem sucesso. A história vem a propósito da discórdia que se vive no país sobre a questão da imigração.
Ao território que é hoje o português chegaram os neandertais (80.000 a.C. c.), o africano Homo sapiens (40.000 a.C. c.), fenícios, gregos e celtas (entre os séculos XII e VI a.C.) e, após derrotarem os cartagineses, os romanos (no século III a.C.). Com a queda do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), povos bárbaros, como os vândalos - que aparentemente deixaram a sua marca - e os alanos passaram pelo mesmo, tendo este sido ocupado por suevos e visigodos, e assistido a um reforço da presença dos judeus (no século V d.C.).
Em 711, os árabes entraram na Península Ibérica por Gibraltar e conquistaram-na em cinco anos, com exceção das Astúrias. Trouxeram consigo outros povos, como os berberes, e concederam liberdade religiosa às populações locais. A reconquista cristã durou mais de 500 anos. Portugal surgiu como país independente no século XII, sob o reinado de D. Afonso Henriques, filho de um nobre francês e de uma princesa galega. O Algarve foi conquistado no século XIII. Já Granada, em Espanha, foi tomada nos finais do século XV, em 1492, o ano em que Colombo chegou à América e também a época em que os ciganos chegaram ao território português. A profunda influência árabe é ainda hoje visível no sul de Portugal e de Espanha.
Com os descobrimentos, a colonização e a emigração, os portugueses espalharam-se pelo mundo. São raras as famílias portuguesas que não possuem ascendência estrangeira nos quatro cantos do planeta. Hoje, a emigração continua, agora também protagonizada por jovens portugueses qualificados.
O acima exposto revela dois traços fundamentais da cultura portuguesa: i) os portugueses sempre conviveram com uma grande diversidade de povos e culturas, dentro e fora de portas; e ii) sendo um povo com uma longa experiência de emigração, compreendem profundamente o que é ser imigrante noutros países. O primeiro traço sugere que a imigração pode contribuir para preservar e enriquecer a identidade nacional. O segundo indica que o país sabe o que significa integrar e a acolher bem os imigrantes. Estes dois fatores fazem de Portugal um país seguro, hospitaleiro e afável - qualidades que queremos continuar a cultivar.
Do ponto de vista produtivo, Portugal necessita de imigrantes - qualificados e não qualificados - em vários setores de atividade, e também para não ter de aumentar a idade da reforma. Nesta e noutras questões, como a aldeia gaulesa de Astérix, o país deve manter-se fiel aos seus princípios morais humanistas. A imigração de famílias é a forma mais eficaz de rejuvenescer uma população portuguesa envelhecida e de integrar os imigrantes na sociedade, através dos seus filhos. Seria preferível adotar uma política de natalidade ativa em vez de apostar na imigração? Uma não exclui a outra. A melhor política de natalidade seria o país pôr de pé uma política industrial capaz de transformar o seu tecido empresarial, empregando e remunerando condignamente os jovens que nascem e/ou são criados e se qualificam em Portugal - em vez de os empurrar para a emigração.