Embaixador chinês em Portugal prevê isenção de vistos para Portugal em nova fase e admite novos investimentos industriais chineses

Agência Lusa , DCT
23 mar, 08:27
Embaixador da China em Portugal, Zhao Bentang (LUSA/António Pedro Santos)

Da parte chinesa, há ainda a garantia de querer continuar o trabalho para facilitar vistos, depois de se agilizar também as formas de pagamento no país.

O embaixador chinês em Lisboa, Zhao Bentang, prevê que Pequim inclua Portugal na próxima fase de isenção de vistos, um processo gradual baseado no volume de trocas comerciais, intercâmbios pessoais e projetos de cooperação entre os dois países.

“Na próxima fase, com a ampliação, acho que Portugal vai integrar a lista de isenção de vistos [de entrada na China]. Para promover uma medida, uma política, é sempre necessário um processo gradual”, justificou o diplomata à agência Lusa, notando que os primeiros países na lista de Pequim “têm maior quantidade de intercâmbios pessoais e de negócios ou têm mais projetos de cooperação”, e logo maior necessidade de deslocações à China.

Esta é uma política implementada “de acordo com as necessidades reais”, frisou o dipomata.

Atualmente, desconhece-se a próxima data para rever os países isentos de vistos, mas Zhao Bentang garantiu que o relacionamento entre Portugal e a China “não tem problemas, nem obstáculos” e que foram implementadas várias medidas para facilitar a obtenção de vistos.

Depois de conhecido o recente alargamento de isenção de vistos para estadias de até 15 dias, o embaixador português em Pequim, Paulo Nascimento, disse “não entender” o critério de deixar Portugal de fora.

O diplomata lembrou que a China está no direito de decidir a sua política de vistos de forma autónoma, mas admitiu que vai pedir uma consulta específica sobre esta decisão às autoridades do país.

Não acredito que haja aqui discriminação negativa, no sentido de dizer que a China está a fazer isso para sinalizar alguma coisa a Portugal, não acho que seja esse o caso”, afirmou à Lusa.

Questionado pela Lusa, o Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês defendeu que a China “sempre se mostrou aberta à expansão dos intercâmbios interpessoais com os países estrangeiros” e que está disposta a reforçar a comunicação com Lisboa para “aumentar a facilidade dos intercâmbios interpessoais bilaterais”.

Sobre a ausência de Portugal nos primeiros dois grupos de países europeus, o diplomata frisa que as escolhas tiveram por base a “frequência de intercâmbio interpessoal e comercial entre a China e esses países” e que “gradualmente (a lista) será cada vez mais aberta”.

Em entrevista à agência Lusa, Zhao Bentang fez questão de destacar os valores partilhados por Portugal e pela China, como o multilateralismo, economia mundial aberta, além dos “consensos e cooperação” em setores como desenvolvimento sustentável e combate às alterações climáticas.

“A parte chinesa gostaria de trabalhar com Portugal para, por um lado, aumentar o nível de relações bilaterais, e ao mesmo tempo enfrentar conjuntamente os grandes desafios e questões” para “dar mais certeza e energia positiva neste mundo de incertezas”, referiu.

Da parte chinesa, há ainda a garantia de querer continuar o trabalho para facilitar vistos, depois de se agilizar também as formas de pagamento no país.

“E também esperamos que os países estrangeiros possam oferecer medidas de facilitação ao povo chinês”, afirmou o diplomata, acrescentando que “depois da pandemia, a necessidade de intercâmbio pessoal e comercial tem aumentado”, pelo que são necessárias “políticas para oferecer conveniências e facilitações”.

“E agora, quando os amigos portugueses querem viajar ou fazer negócios na China, eu posso dizer que não existe nenhum obstáculo” quanto à obtenção de vistos para cidadãos de “um país amigo e parceiro estratégico”, afirma o diplomata.

Embaixador admite novos investimentos industriais chineses

Pelo menos cinco empresas chinesas estudam implantar fábricas em Portugal, incluindo fabricantes automóveis, disse à Lusa o embaixador da China em Lisboa, que espera a “criação de um ambiente justo e indiscriminado” para investidores pelo Governo português.

“Atualmente algumas empresas chinesas como a Tederic, Ningbo David Medical Device, Shyahsin estão a preparar-se para construir fábricas em Portugal e outras empresas na área de veículos eletrónicos como a Chery e a XEV também demonstraram o seu interesse em construir fábricas em Portugal, estando a fazer investigações no mercado”, afirmou Zhao Bentang.

A CALB já está a planear construir uma fábrica de baterias de lítio e recebeu luz verde da APA (Agência Portuguesa do Ambiente), informou ainda Zhao Bentang, notando que a construção desta fábrica se deverá refletir na “localização da cadeia industrial de veículos com novas energias e também para a transição de baixo carbono de Portugal”.

Em entrevista à agência Lusa, o embaixador previu que o empreendimento Parque de Oeiras, projeto conjunto da China State Construction Engineering Corporation e da Teixeira Duarte, possa começar a ser construído ainda este ano, criando, assim “condições para atrair mais investimentos estrangeiros e criar condições mais favoráveis para a economia de Oeiras”.

Dado o envolvimento de uma empresa chinesa no projeto de Oeiras, poderão, no futuro, ser atraídos “investimentos das empresas chinesas na área das novas energias”, considerou o diplomata, que também tem expectativas sobre Portugal manter o ambiente para a realização de negócios e investimentos.

“Esperamos que o Governo português possa continuar a criar um ambiente aberto, justo, igual e indiscriminado para empresas estrangeiras. Para proteger os direitos legítimos dos investidores estrangeiros e oferecer um ambiente de desenvolvimento seguro e estável a longo prazo”, assim como de forma a “atrair mais empresas chinesas a investir e fazer negócios em Portugal”, o que também ajuda o “desenvolvimento socioeconómico” do país, defendeu.

À Lusa, o embaixador recordou que Portugal é um dos “países mais amigáveis da China na União Europeia e um parceiro estratégico global, compartilhando boas relações nas áreas da política, do comércio e também de amizade entre os dois povos”. Portugal, refere, é também um dos principais destinos de investimento de empresas chinesas, e no ano passado o investimento direto da China ultrapassou os 386 milhões de euros, um aumento homólogo de 34,52%.

Já o stock de investimento direto ultrapassou os 3,6 mil milhões de euros, um aumento homólogo de 12,2%. Quando se inclui o investimento de empresas chinesas através de Portugal para países terceiros, o stock de investimento ascende a 12,3 mil milhões de euros, um aumento homólogo de 10,16%, disse o diplomata.

São investimentos pautados pelo princípio de “benefícios mútuos e ganhos partilhados”, frisou, dando vários exemplos de sucesso e de parcerias, como a construção do NESTER - o Centro de Investigação Energética de Portugal, numa altura em que a economia portuguesa está virada para a transição energética, digital e inovação, tal como a chinesa, empenhada em “promover o desenvolvimento de alta qualidade com as forças produtivas”.

“Podemos dizer que os dois países compartilham os conceitos de desenvolvimento e têm óbvias vantagens complementares e um futuro de cooperação mais amplo”, concluiu à Lusa.

Depois de a Fosun ter reduzido recentemente parte da sua participação no Millennium bcp, e face a incerteza quanto à preparação de novas reduções, o diplomata indicou que, em reunião recente, o diretor-geral do grupo chinês lhe transmitiu muita satisfação com a “colaboração em Portugal, na Fidelidade, no Banco Comercial e no hospital (Luz Saúde)”.

“Estão muito satisfeitos nesses projetos de cooperação e decidiram continuar o desenvolvimento da sua empresa em Portugal e não planeiam abandonar o investimento”, afirmou à Lusa.

“Mas às vezes a empresa vai ajustando as suas medidas de acordo com a situação de mercado. E quando os títulos crescem, a empresa vai comprar mais para ganhar mais. E quando os títulos descem, também mudam a sua medida de negócios. E normalmente vai ter mudanças dentro de um limite, de uma quota”, disse.

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