Concurso organizado pela embaixada russa deu bilhetes a quatro alunos em Portugal para visitar o Centro Artek, na região ocupada por Moscovo. Este centro foi recentemente sancionado pelos EUA, Bruxelas e Reino Unido por promover “reeducação de crianças ucranianas”. Denúncia chegou ao Ministério dos Negócios Estrangeiros em abril, mas não obteve resposta
Poucos dias depois de tomar posse, o ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, recebeu uma denúncia da Associação dos Ucranianos em Portugal sobre “uma situação grave”: a Embaixada da Rússia em Portugal tinha oferecido a quatro alunos uma viagem a um centro infantil na Crimeia sancionado pela União Europeia (EU), Estados Unidos da América (EUA) e Reino Unido por ser um “campo de reeducação patriótica”.
A oferta foi feita a 24 de março deste ano, no mesmo dia em que pelo menos 10 mísseis sobrevoavam a região ocupada pelo Kremlin e os seus residentes eram aconselhados a resguardarem-se em abrigos. “Ao organizar a viagem de crianças portuguesas à Crimeia, o governo da Rússia quis usá-las como escudos humanos contra exército ucraniano”, lê-se no e-mail enviado ao MNE e que ficou sem resposta.
Na denúncia enviada ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, a Associação dos Ucranianos em Portugal diz tratarem-se de "crianças portuguesas", já a Embaixada da Rússia em Portugal garante que os convites foram feitos a cidadãos russos residentes em Portugal. A CNN Portugal questionou o Ministério dos Negócios Estrangeiros sobre se atuou perante esta denúncia, mas até ao momento não recebeu uma resposta.
Os convites para a viagem à Crimeia foram feitos após um concurso de recitação em Albufeira dedicado a estudantes do primeiro e segundo ciclo. No evento, que foi organizado pelo Conselheiro de Cultura da Embaixada russa e pelo Centro Cristão de Cultura Espiritual “Pokrov”, participaram oito alunos e foram premiados quatro. “Os melhores participantes do concurso viajarão ao Centro Infantil Artek, na Crimeia”, anunciou o conselheiro Vladimir Iaroshevskii na ocasião.
Este centro, localizado na costa do Mar Negro, tem vindo a ser sucessivamente sancionado tanto pelos EUA, como pela UE e Reino Unido. Uma das razões foi o facto de ter sido lá que muitas crianças dos seis aos 16 anos ficaram detidas após terem sido levadas contra a vontade dos pais pelo exército de Moscovo durante ataques às regiões de Kherson e Zaporizhzhia. Segundo números do Kremlin, no final de 2022, existiam perto de 4.500 crianças ucranianas em campos deste tipo, espalhados pela Crimeia.
No último pacote de sanções que a União Europeia lançou, em junho deste ano, o centro para onde a Embaixada Russa em Portugal quis levar os alunos aparece descrito como um “campo onde as crianças preparam materiais de suporte para entregar aos soldados russos que participam na guerra”. “Em alguns casos, crianças ucranianas continuam lá detidas, ainda não puderam regressar a casa, e são forçadas a mostrar o seu apoio à Rússia”.
Um ano antes, também o Governo do Reino Unido tinha imposto sanções ao Centro Artek, alegando que o mesmo estava envolvido em “destabilizar a integridade e independência do território ucraniano” por “apoiar o programa do Kremlin para a deportação forçada e reeducação de crianças ucranianas”. Igualmente em agosto de 2023, o Departamento de Estado dos EUA aplicou sanções ao diretor do Artek, Konstantin Fedorenko, por liderar uma organização que “recebeu crianças ucranianas, posteriormente colocadas em extensos programas de reeducação ‘patriótica’ e impedidas de regressar às suas famílias”.
À CNN Portugal, a embaixada russa confirmou o convite feito aos quatro estudantes. “Os participantes do concurso internacional de recitadores jovens ‘Clássica Viva’ são cidadãos russos residentes em Portugal”, disse, garantindo que, “em 2024, os vencedores da competição não viajaram ao Centro Infantil Artek por motivos pessoais”, deixando em aberto a possibilidade de essa viagem voltar a acontecer. “Só durante este ano aquela instituição, onde são tomadas todas as medidas necessárias para garantir a segurança das crianças, recebeu 41.382 pessoas”. “Ao mesmo tempo, o que a Embaixada considera perigoso é o envio ao regime ucraniano pelos países ocidentais, incluindo Portugal, de armas letais que são usadas também contra alvos civis”, afirmou fonte oficial.
Objetivo de “recrutar” futuros oficiais de informações
No e-mail que o Ministério recebeu em abril de 2024, é sublinhado pela Associação de Ucranianos em Portugal que o assunto era preocupante porque, “como todos sabem”, “a Ucrânia está a conduzir operações militares para libertar dos invasores russos os territórios ucranianos, incluindo a península da Crimeia”. Além disso, alertava que a viagem oferecida significava “violar a legislação ucraniana e entrar ilegalmente no território da Ucrânia”.
O centro Artek é um dos mais emblemáticos da Rússia e era frequentemente o local de encontro das figuras mais proeminentes do movimento dos pioneiros soviéticos, que agrupava organizações juvenis comunistas, e no qual participaram Vladimir Putin, mas também o ex-Presidente de Cuba, Fidel Castro, ou o revolucionário vietnamita Ho Chi Minh. “O objetivo principal destas iniciativas é sempre recrutamento de futuros simpatizantes com o Kremlin, ou mesmo possíveis agentes, ou oficiais de informação”, afirma um investigador em influência russa que, por razões de segurança, pediu para falar em anonimato.
Este investigador declara que uma das componentes das iniciativas internacionais no centro Artek é o de “identificarem alguém que possivelmente no futuro possa ser útil ao Kremline”. “Há sempre essa necessidade, a de identificar crianças e famílias e redes familiares que simpatizem com as autoridades russas”. Há ainda outro objetivo: “Como há regimes de sanções em lugar, as autoridades russas querem mostrar que conseguem levar quem quiserem para a Crimeia, quebrando a lei internacional”. “Com isto, querem mostrar que têm solidariedade a nível internacional de outros países para a causa da ocupação da Crimeia”.
Felipe Pathé Duarte, professor na Universidade Nova e investigador no departamento War & Law, sublinha que o convite endereçado pela embaixada russa em Portugal poderá “ser um exemplo de operações de influência”. O “objetivo é condicionar perspetivas de forma favorável ao proponente deste tipo de operações, dando-lhe vantagem competitiva”. Neste caso, diz ainda, “está a aceitação tácita de que a Crimeia, região autónoma da Ucrânia, é um território da Federação Russa, sendo que foi ilegalmente invadida e anexada por Moscovo em 2014”. “É uma tentativa de normalização aos olhos de um país da UE e da NATO”.
Mais do que isso, diz ainda, “pode ser uma forma de ameaça híbrida”, registando-se uma “incongruência já que para Portugal a Crimeia, Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson fazem parte da Ucrânia. Ou seja, a anexação (ou tentativa de) é ilegal”.