Lembra-se de quando os fatos brancos de Elvis Presley mudaram a forma como os homens se vestiam para sempre?

CNN , Megan C. Hills
25 jun, 21:00
Elvis Presley no palco do Centro Internacional de Convenções em Honolulu Hawaii, a 14 de janeiro de 1973

“Lembra-se quando?” é uma nova série que mergulha nos arquivos da história da cultura pop e que nos proporciona um olhar nostálgico à moda das celebridades que definiram as suas épocas

Quando Elvis Presley fez história em 1973, estava vestido com um macacão branco à boca de sino, embelezado com uma águia careca feita de tachas vermelhas, douradas e azuis.  Enquanto o cantor de Memphis cantarolava num palco em Honolulu, o seu concerto “Aloha from Hawaii” estava a ser transmitido simultaneamente em 40 países diferentes.

Este foi o primeiro concerto de sempre de um artista a solo, um evento histórico visto por mais de 1,5 mil milhões de pessoas. Elvis vestia um traje patriótico completamente americano, um ato de rebeldia contra as normas da moda da época que não aceitava a quebra da linha que separava a moda masculina da feminina.

Em conversa com a CNN Style, a vice-presidente de arquivos e exposições de Graceland, Angie Marchese, disse que Presley estaria a par da “gravidade de uma audiência mundial” e teria trabalhado com o seu estilista de longa data, Bill Belew, para aperfeiçoar o seu vestuário. “Ele disse a Bill: ‘Eu só quero que o fato diga América’. Esta foi uma das poucas ocasiões em que Elvis fez um pedido especial ao seu estilista”, disse Marchese.

O icónico macacão encontra-se na antiga casa de Elvis Presley, agora um museu, como destaque de uma exposição intitulada "Elvis": Vestido ao Rock", que apresenta mais de 100 peças das últimas fases da sua carreira. Tal como a música do Rei do Rock tem permanecido viva ao longo dos anos, acompanhada de um rockabilly (o seu célebre penteado).

O ator Austin Butler irá comparecer como Presley no filme "Elvis", que estreia nos Estados Unidos no dia 24 de junho. No trailer, Butler é visto caminhando com os braços esticados por entre uma série de macacões de todas as cores do arco-íris. Baz Luhrmann, o realizador do filme, disse ao IndieWire que apesar das novas gerações não conhecerem a música de Presley, sabem que "ele é o tipo do macacão branco”.

Elvis Presley num macacão com franjas brancas em 1973. Créditos: Mark e Colleen Hayward/Hulton Archive/Getty Images

O nascimento do macacão

Embora a sua carreira tenha começado em meados da década de 1950, o macacão de Presley não foi o seu primeiro confronto com as normas da moda dominante da época. Zoey Goto, a autora de “Elvis: From Zoot Suits to Jumpsuits”, explica à CNN que Presley surgiu em cena numa altura em que "herança e respeitabilidade" dominava o vestuário masculino e os fatos ao estilo da Ivy League.

“O modelo de estilo na altura era de fatos largos da Brooks Brothers com camisas Oxford abotoadas, gravatas, calças que mostravam os calcanhares e mocassins”, acrescentou.

De seguida, Presley entrou em cena, vestindo blazers cor-de-rosa, tops curtos e fatos Zoot: uma roupa constituída por um casaco com ombros dramaticamente definidos e golas de tamanho exagerado, combinados com calças de perna larga. Os fatos Zoot eram tipicamente associados a pessoas de origens minoritárias, pelo que Goto sugere que Presley teria provavelmente sido inspirado por músicos Negros do Sul que vestiam o traje. “[O seu guarda-roupa] era visto como sendo extremamente efeminado e suspeito pela sociedade conservadora, apesar de os seus fãs o copiarem”, explicou Goto, acrescentando que ele misturava habilmente elementos masculinos e femininos.

O movimento pélvico, a maquilhagem pesada e os espectáculos provocadores de Presley perturbariam os críticos de televisão e a Igreja Católica. Até Frank Sinatra criticava o rock'n'roll à medida que os êxitos de Presley, tais como “Heartbreak Hotel”, subiam nas tabelas, dizendo à revista Western World que o género era “a forma de expressão mais brutal, feia, degenerada e viciosa" , acrescentando que se tratava de um "afrodisíaco fedorento”.

No entanto, a rebeldia de Presley influenciou a nova geração do pós-guerra e sobretudo a jovens rapazes, que começariam a experimentar estilos mais extravagantes à medida que a Revolução do Pavão se instalava na década de 1960. Segundo Goto, foi Presley que tinha "aberto o caminho" para o movimento. Numa conferência de imprensa, Presley respondeu publicamente ao Sinatra, dizendo: "Se bem me lembro, [Sinatra] também fazia parte de uma tendência. Não percebo como é que ele pode chamar aos jovens de hoje imorais e delinquentes”.

O macacão do Pavão de Elvis Presley usado durante as suas apresentações em concertos em 1974, mostrado na pré-visualização de “A Rock & Roll History: Presley To Punk” na Sotheby's a 20 de junho de 2014 na cidade de Nova Iorque. Créditos: Slaven Vlasic/Getty Images América do Norte/Getty Images

Hoje em dia, o Rei do Rock é um indiscutível ícone cultural que ajudou a redefinir o que significa vestir-se como um homem. “Ele fez com que os jovens se vestissem de forma diferente dos seus pais”, como diz Goto.

“Ele criou a cultura jovem dando aos adolescentes a oportunidade de terem a sua própria voz enquanto grupo de consumidores, com gostos e aspirações que muitas vezes contrastavam muito com os valores dos seus pais”, continuou ela.

Com o passar do tempo, Presley afastou-se da música e foi para o cinema à medida que a invasão britânica se instalava, tendo os The Beatles assumido a liderança. Porém, Presley começou a ficar em segundo plano, à medida que as críticas aos seus filmes se foram tornando cada vez piores, e a sua música, na sua maioria ligada a bandas sonoras de cinema, passou a ser irrelevante.

Elvis Presley em palco durante o seu concerto no Madison Square Garden Concert, Nova Iorque, em 1972. Créditos: Thomas Monaster/NY Daily News Archive/Getty Images

Em 1968, Elvis precisava de redefinir a sua imagem e fê-lo num concerto em Las Vegas para celebrar o seu regresso à musica. Vestido com uma roupa de motoqueiro em couro, invocando os espíritos rebeldes de James Dean e Marlon Brando, o cantor recuperou o seu título de Rei do Rock.

Mas o seu capítulo mais brilhante ainda estava para vir.  Foi por volta desta altura que Presley começou a vestir os seus macacões justos e extravagantes, acompanhados de uma capa e cinto, que foram criados pelo designer Belew e bordados por Gene Doucette. Num artigo para o Guardian em 2010, Doucette disse que Belew era o homem responsável pelos macacões o que “permitia [Presley] mover-se no palco sem se preocupar em ficar com as suas roupas presas em algo”. Inspirando-se nas golas napoleónicas altas e nas necessidades do cantor em espectáculos de alta intensidade, no karaté e danças de Presley, o macacão tornou-se rapidamente o seu elemento indispensável.

A capa de Elvis Presley exposta numa antevisão de imprensa para o leilão online Gotta Have Rock and Roll na loja Gotta Have It! a 25 de julho de 2012, em Nova Iorque. Créditos: Laura Cavanaugh/Getty Images

Com 30 e poucos anos de idade, o cantor continuaria a promover um tipo diferente de sensualidade masculina, provando que ainda era capaz de ultrapassar os limites da moda. “Os macacões de Elvis, que acentuavam o seu corpo, enquadravam-se muito no sedutor zeitgeist da moda (uma tendência caracterizada por representações de traços históricos), à medida que os homens começavam a ocupar o olhar erótico”, disse Goto.

“Quando Elvis chegou ao palco de Vegas, já tinha passado uma década a espreitar por detrás das cortinas de Hollywood e era um veterano no mundo do espectáculo.  Consequentemente, ele pegou nos seus macacões e entregou ao publico a mais épica experiência durante os anos 70”, disse Goto.

Manter o legado vivo

Elvis Presley morreu em 1977, mas o seu legado eterno continuaria a influenciar futuros ícones, de segundo Goto. “Sistematicamente, Presley deu aos homens a opção de usarem roupas antes consideradas exclusivamente para as mulheres... o que abriu as portas a uma onda de roqueiros andróginos glamorosos, tal como David Bowie”.

O músico David Bowie posa para uma fotografia na sua capa "Ziggy Stardust" em junho de 1972 em Londres, Inglaterra. Créditos: Michael Ochs Archives/Getty Images

Entre aqueles que seguiram os seus passos estão Mick Jagger, cujos macacões abertos até ao umbigo levaram os modelos de Presley ao extremo, e Elton John, com os seus fatos extravagantes e cheios de cor. Inclusive, o cantor Harry Styles fez uma audição para interpretar Presley no próximo filme de Luhrmann e citou-o como uma influência no seu guarda-roupa.

“Penso que (para) as pessoas que sempre admirei e acompanhei musicalmente, o vestuário sempre foi uma grande parte da coisa. Tal como Bowie, Elvis Presley. Sempre foi uma parte importante da situação”, disse Styles à Revista Dazed.

O vestuário de Harry Styles para o palco inclui frequentemente um macacão ajustado, tal como aqui retratado ao actuar no festival Big Weekend da BBC Radio One em 2022. Créditos: Dave J Hogan/Getty Images

Dos imitadores nas capelas de Vegas ao Lilo & Stitch da Disney, Presley e o seu macacão continuam a ser um símbolo da cultura pop. Os leilões e exposições do seu elaborado guarda-roupa são extremamente populares, havendo um macacão branco e uma capa do cantor usados em 1972, vendido por mais de 1 milhão de dólares no ano passado. Em 2017, uma exposição de três meses com mais de 200 artefactos em comemoração do guarda-roupa de Presley foi realizada no O2 no Reino Unido, com o apoio de Graceland.

Tal como com o legado musical de Presley, os modelos de macacões de Belew e Doucette para o cantor continuam a ocupar um lugar importante no coração dos seus fãs. Entre o seu macacão Peacock de 1974, a sua roupa de palco mais cara, bordada com penas turquesas, e o seu amado fato cheio de fitas e lantejoulas de várias cores, o Rei do Rock ocupará para sempre um lugar na história da moda.

“Ver o guarda-roupa de Elvis conecta as pessoas a ele de uma forma que uma guitarra ou um disco não o faz. Pode-se observar estes trajes e, de certa forma, sentir que se está a conhecer Elvis a um nível completamente diferente”, comentou Marchese.

“Ele criou uma imagem que foi moldando e definindo gerações. Uma imagem que ainda hoje perdura.”

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