Com o que observamos na Europa, desde a Irlanda do Norte à União Europeia, X, sob a liderança de Elon Musk, tornou-se um ator com impacto direto em dinâmicas políticas globais. Através da amplificação algorítmica de conteúdos, da tolerância ativa à desinformação e da promoção de narrativas extremistas, o seu papel na esfera pública tornou-se um perigo iminente. A resposta democrática não pode limitar-se à observação passiva, sob pena de continuar a ceder espaço a atores privados com poder desproporcionado
A publicação fixada no topo do perfil do vosso cronista na plataforma de microblogging X (anteriormente Twitter) diz, em inglês: “Quando o vice-presidente eleito, J.D. Vance, ameaçou a União Europeia dizendo que se não nos [Europeus] curvarmos perante Elon Musk no que se trata do Twitter, a Administração Trump deixará de proteger a Europa, pensei: "Que se lixe! Vamos esvaziar este sítio!!" Estou no Bluesky. Sigam-me lá.”
Não só o Twitter perdeu o encanto e a utilidade que tinha quando Jack Dorsey detinha a plataforma, como se tornou, de forma notável, um mau produto e um espaço para a disseminação de discurso de ódio, extremismo e, muitas vezes, racismo, sob a gestão de Elon Musk. Existem evidências de que Musk terá influenciado o algoritmo do X no sentido de promover os seus próprios posts, conteúdos de grupos extremistas e, segundo várias investigações tentativas de interferência em eleições europeias.
Elon Musk tem-se afirmado como um inimigo da democracia ou, se quisermos ser generosos, como um aliado de autoritários, xenófobos e racistas. Nos Estados Unidos (USA), gastou 200 milhões de dólares para ajudar a eleger Donald Trump, seguido de uma passagem desastrosa pela administração associada ao chamado DOGE e de todos os efeitos nefastos que daí têm resultado, tanto nos USA como em África. Porém, a sua ação perniciosa não se tem limitado à América. A Europa e a União Europeia (UE) também têm estado na sua mira.
Nesta semana, em Belfast, após um crime perpetrado por um imigrante sudanês em processo de pedido de asilo, a extrema-direita local usou o X para inflamar o sentimento anti-imigração, culminando em motins violentos que vários observadores descreveram como “pogroms raciais”, com milícias encapuzadas a incendiarem casas de minorias e refugiados. Musk não só permitiu que figuras como Tommy Robinson utilizassem a plataforma para mobilizar apoio aos protestos, como reagiu ativamente, partilhando publicações que argumentavam que a culpa da violência residia em “fronteiras abertas e imigração descontrolada”. A percentagem de não nativos na Irlanda do Norte é de 6,5%.
Em 2024, após o ataque em Southport, Inglaterra, o X amplificou publicações de influenciadores de extrema-direita que alegavam falsamente que o atacante seria um imigrante ilegal chegado de barco. Foi nessa altura que Musk proferiu a frase controversa e incendiária: “A guerra civil é inevitável” (“Civil war is inevitable”).
Na campanha para as eleições federais alemãs de fevereiro de 2025, Musk utilizou o X para amplificar conteúdos associados ao partido de extrema-direita Alternative für Deutschland (AfD), dando maior visibilidade a contas de direita e reduzindo a circulação de outras forças políticas. Musk chegou a discursar num evento ligado à AfD, onde instou os alemães a “superarem a culpa do passado”, numa referência amplamente interpretada como alusiva à memória histórica do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial, tema que a extrema-direita alemã procura há anos relativizar. Além disso, partilhou citações falsas sobre uma alegada interferência da União Europeia nas eleições, que terão atingido mais de 21 milhões de visualizações antes de serem desmentidas.
Um último exemplo na vizinha Espanha: quando o governo espanhol propôs medidas robustas para regular as redes sociais e proteger menores e a integridade democrática através da verificação de idades (age-gating), Musk apelidou o primeiro-ministro Pedro Sánchez de “tirano e traidor” (“dirty tyrant and traitor”).
Os comportamentos de Elon Musk têm sido amplamente discutidos. Desde a sua radicalização online, às polémicas em torno da sua vida pessoal, incluindo ataques públicos à sua filha e alegações sobre consumo de cetamina, até à sua crescente intervenção na moderação e promoção de conteúdos no X. A sua hostilidade relativamente ao projeto europeu (“a EU deve ser abolida”) pode ser parcialmente explicada pelas regras do Digital Services Act (DSA), que impõem obrigações às plataformas digitais, desde a proteção de menores contra conteúdos sexualizados até ao cumprimento de normas básicas de transparência e moderação. Na Europa e na UE, não podemos ser permissivos perante as ações disruptivas e potencialmente nefastas de atores privados com poder oligárquico, mesmo que sejam trilionários.
Ao abrigo do DSA, a UE pode aplicar coimas até 6% do volume de negócios global de uma empresa e, em casos de incumprimento reiterado e grave, avançar para a restrição ou suspensão temporária do acesso da plataforma ao mercado europeu. O vosso cronista não é favor de banir discurso, mas tem apelado (sem grande sucesso) para que instituições portuguesas como o gov.pt, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a conta oficial do Primeiro-Ministro e a representação do Parlamento Europeu em Portugal deixem de utilizar a plataforma.
Interoperabilidade. Determinar que o X tenha de abrir as suas ligações e redes para que os utilizadores possam migrar para outras plataformas concorrentes (como o Bluesky ou o Threads), mantendo ainda assim a ligação aos seus seguidores no X. Isto quebraria o chamado “efeito de aprisionamento” que Musk utiliza para reter utilizadores, bem como a dependência do funcionamento do algoritmo associado a cada conta, retirando à plataforma o poder exclusivo de decidir o que cerca de 550 milhões de pessoas veem no seu feed.
O momento não é de meias medidas ou hesitações. Só porque é o homem mais rico do mundo (e agora ainda mais rico) isso não lhe confere o poder de interferir em processos democráticos na Europa, fomentar violência através de discurso de ódio, ou utilizar a sua plataforma para expor crianças a conteúdos sexualizados.
Indiana Jones, o pragmático arqueólogo fictício, avisava que “X nunca, nunca marca o lugar”. Agora, temos de ir mais longe: o X tem de ser o lugar desolado onde ninguém quer ir.
