A SpaceX está em alta após a estreia em bolsa. Mas também enfrenta a maior crise de identidade até à data

CNN , Análise de Jackie Wattles
12 jul, 22:00
Space X chega à bolsa norte-americana
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Após a maior estreia em bolsa da história, a SpaceX tenta provar que a aposta na IA não desviou a empresa do sonho fundador de Elon Musk: levar a humanidade a Marte e torná-la multiplanetária de vez

Durante mais de uma década antes de a SpaceX entrar em bolsa, o CEO Elon Musk disse que a empresa não o devia fazer — por razões que agora parecem profundamente premonitórias.

Uma decisão dessas, avisou, tornaria demasiado difícil manter um foco absoluto no objetivo final audacioso da empresa: colonizar Marte.

“Criar a tecnologia necessária para estabelecer vida em Marte é e sempre foi o objetivo fundamental da SpaceX”, escreveu Musk num email enviado em 2013 aos funcionários da empresa, no qual também alertava para a “exuberância irracional ou depressão” do mercado acionista.

“Se ser uma empresa cotada em bolsa diminuir essa probabilidade”, escreveu, “então não o devemos fazer até Marte estar seguro.”

Nos anos que se seguiram ao envio desse email, a SpaceX transformou-se de uma outsider dos foguetões na força dominante da indústria global de lançamentos espaciais, devolvendo os voos de astronautas aos Estados Unidos após anos de dependência da Rússia e criando um negócio multimilionário de internet a partir do espaço.

Agora, o portefólio da empresa está a expandir-se ainda mais, e a SpaceX enfrenta talvez a sua maior crise de identidade até à data.

Antes da sua estreia em bolsa de grande impacto este mês, a SpaceX mexeu-se rapidamente para se posicionar melhor perante a febre da inteligência artificial, adquirindo a xAI, criadora do chatbot Grok, preparando um acordo para comprar a ferramenta de programação Cursor e apresentando novos planos para colocar centros de dados de processamento de IA no espaço. Esse reposicionamento ajudou a SpaceX a realizar a maior estreia em bolsa da história e a angariar mais de 74,5 mil milhões de euros.

Mas a rápida transformação está a levantar perguntas entre fãs e investidores de longa data: a SpaceX vai mesmo continuar a tentar colonizar Marte?

Uma pista pode estar escondida nos documentos financeiros da empresa.

De acordo com o prospeto S-1 da SpaceX, apresentado a 20 de maio, Musk só receberá a totalidade do seu pacote salarial de cerca de 6,57 biliões de euros se a SpaceX conseguir estabelecer “uma colónia humana permanente em Marte com pelo menos um milhão de habitantes”.

Não é claro até que ponto esta frase deve ser levada a sério, segundo Jay Ritter, professor de Finanças na Universidade da Florida e diretor do seu programa de investigação de mercado, a IPO Initiative.

“Isto são só piadas”, disse Ritter à CNN.

Incluir uma piada num prospeto financeiro seria bastante fora do comum, reconheceu Ritter, dizendo: “Não me lembro de nenhum outro exemplo.” Mas não estaria fora dos limites legais, acrescentou.

Nem todos acreditam, porém, que a frase seja insincera.

Quem acompanha a SpaceX sabe — tendo em conta as muitas horas que Musk dedicou, ao longo de uma década, a desenvolver a ideia — até que ponto o objetivo de uma povoação marciana está profundamente enraizado na cultura e no espírito da empresa.

Saber se a SpaceX continua dedicada a esse objetivo pode ter implicações profundas nas suas perspetivas financeiras, na forma como desenvolve novas tecnologias e na perceção pública da empresa.

Sementes de dúvida

Um mural no exterior do complexo industrial e base de lançamento Starbase da SpaceX, em Boca Chica, no Texas, visto em abril de 2025, mostra foguetões em Marte. Mark Felix/Bloomberg/Getty Images

A SpaceX já enfrenta um interrogatório no tribunal da opinião pública.

“As pessoas demoraram algum tempo a perceber o que Musk estava a fazer, tipo: ‘Espera lá — a SpaceX agora é uma empresa de IA? A SpaceX está a perseguir a próxima grande moda? O que aconteceu à ida a Marte?’”, disse Chad Anderson, fundador e managing partner da Space Capital, uma das primeiras empresas de investimento dedicadas ao setor espacial.

As ambições marcianas da SpaceX são uma força galvanizadora para os seus fãs, por isso incluir linguagem sobre uma colónia no planeta vermelho nos documentos financeiros foi, segundo Anderson, “uma mensagem importante para mostrar que continua a haver uma Estrela Polar, e que essa Estrela Polar continua a ser tornar a humanidade uma espécie multiplanetária”.

E a perceção pública é importante para a SpaceX. A empresa posicionou-se intencionalmente para capitalizar o entusiasmo dos pequenos investidores, reservando um número recorde de ações — até 30% — para compra por membros do público durante a oferta pública inicial.

A resposta foi entusiástica: “Estamos a ficar sem superlativos para descrever o entusiasmo dos investidores de retalho pela SpaceX”, escreveu a empresa de investigação Vanda num relatório recente.

O que não é claro é até que ponto os pequenos investidores que correram para comprar ações da SpaceX se preocupam com os objetivos de longo prazo da empresa ou com o envio de humanos para Marte.

Enquanto o famoso subreddit r/WallStreetBets se encheu de utilizadores a promover a IPO e a queixarem-se de que não conseguiam comprar mais ações, outros cantos da internet mostram uma base de fãs da SpaceX em fratura.

Tópicos no Reddit habitualmente dedicados a analisar e celebrar praticamente todos os passos da empresa degeneraram ocasionalmente em confrontos e discussões — colocando entusiastas da exploração espacial contra os “stock bros” amantes de memes.

“Porque é que os stock bros têm de arruinar o melhor sub de espaço?”, lamentou recentemente um comentador.

“Aquilo que distinguia a SpaceX de todos os outros era o facto de estar hiperfocada nos seus objetivos... mas agora está a distrair-se”, lê-se noutro comentário.

Uma publicação num subreddit importante da SpaceX, com mais de mil votos positivos, mostra uma progressão em quatro fases de uma pessoa a maquilhar-se como palhaço, com o título: “A minha jornada como fã da SpaceX nos últimos 15 anos.”

“A Lua é mais rápida”

Esta representação artística mostra o Starship Human Landing System, ou HLS, da SpaceX na Lua. SpaceX/NASA

Musk promoveu abertamente a sua dedicação ao planeta vermelho ainda no verão passado.

Mas também deu aos defensores mais fervorosos de Marte motivos para preocupação. Em fevereiro, Musk recorreu à sua plataforma de redes sociais, X, para declarar que a SpaceX mudaria o seu foco de curto prazo para a Lua.

“Para quem não sabe, a SpaceX já mudou o foco para construir uma cidade autocrescente na Lua, pois podemos potencialmente alcançar isso em menos de 10 anos, enquanto Marte levaria mais de 20 anos”, escreveu Musk.

Embora a publicação não mencionasse a NASA, a proclamação de Musk surgiu numa altura em que a agência espacial apelava publicamente à SpaceX para acelerar o cumprimento da promessa de entregar um módulo lunar — parte de um contrato de cerca de 2,54 mil milhões de euros assinado em 2021. A necessidade de concluir esse projeto ganhou urgência à medida que a NASA enfrenta maior competição com a sua rival na corrida espacial, a China, dando à mudança repentina de prioridades da SpaceX implicações financeiras e políticas.

A SpaceX poderá voltar a concentrar-se em Marte mais tarde, disse Musk, mas “a prioridade absoluta é assegurar o futuro da civilização, e a Lua é mais rápida”.

A promessa da Starship

A Starship e o Super Heavy V3 deslocam-se em direção à plataforma em Starbase, a 19 de maio, para testes finais e preparativos antes do lançamento. SpaceX

Talvez, porém, o objetivo final declarado da SpaceX seja menos importante do que a tecnologia que a empresa desenvolve pelo caminho.

Acontece que o veículo que a empresa promete usar para transportar astronautas da NASA até à superfície da Lua — chamado Starship — é o mesmo que Musk diz que levará os primeiros humanos a Marte.

Além disso, a Starship está também prevista para transportar para órbita a próxima geração de satélites de internet Starlink e para instalar os centros de dados orbitais de processamento de IA idealizados pela SpaceX. Nenhum outro foguetão no mundo seria capaz de transportar satélites com o tamanho e a escala necessários para tornar realidade centros de dados baseados no espaço.

Como Musk anunciou inúmeras vezes na última década, a Starship foi também concebida para reduzir o custo de levar carga para órbita em várias ordens de grandeza — de cerca de 1.750 euros por quilograma para tão pouco quanto 8,76 euros por quilograma. Só esse tipo de poupança, disse Musk, pode tornar sustentável viajar para Marte.

“A Starship é essencial para o futuro deste negócio — isso é realmente claro”, disse Anderson.

Por outras palavras, investir na SpaceX a longo prazo significa apostar na ideia de que a Starship cumprirá as suas promessas. E, em dezenas de entrevistas com engenheiros, consultores e analistas nos últimos anos, surgiu um refrão comum: se alguma empresa consegue fazê-lo, é a SpaceX.

Mas o foguetão ainda não está operacional. A Starship continua no meio de uma longa campanha de testes de voo. E, embora a SpaceX tenha feito progressos substanciais, muitas características cruciais do veículo ainda não foram testadas — incluindo a reutilização da nave superior Starship e o reabastecimento do veículo em órbita com propelentes criogénicos super-refrigerados. Nenhum desses feitos foi alguma vez tentado na história dos foguetões.

Musk procurou, durante mais de uma década, habituar o público à abordagem da SpaceX ao desenvolvimento de foguetões, que privilegia testar protótipos baratos em voo e aceitar o acidente ocasional em vez de tentar garantir a perfeição. O programa Starship não tem sido exceção, com voos de teste não tripulados a terminarem ocasionalmente em explosões abruptas sobre o oceano Atlântico.

“A SpaceX fez um trabalho incrível, sem precedentes, ao levar o público consigo nesta viagem”, disse Anderson. “E acho que isso é, na verdade, uma das coisas que constrói muita confiança junto do público e dos investidores de retalho.”

Mas ainda está por ver como o mercado acionista reagirá se a SpaceX sofrer um revés explosivo durante o horário de negociação.

Pressões do mercado

Elon Musk fala durante a inauguração oficial da fábrica de automóveis elétricos da Tesla perto de Gruenheide, na Alemanha, em março de 2022. Christian Marquardt/Pool/Getty Images

Quando Musk jurou que nunca levaria a SpaceX para bolsa, estava também a atravessar vários anos extenuantes na Tesla, a sua empresa de automóveis elétricos.

Durante boa parte da década de 2010, a Tesla foi castigada por analistas e vendedores a descoberto, que criaram um ambiente de panela de pressão em que a empresa precisava de aumentar a produção dos seus carros de mercado de massas.

A certa altura, em 2018, Musk disse que dormia no chão da fábrica e ficou visivelmente emocionado ao descrever o impacto “excruciante” de tentar garantir que a empresa conseguia cumprir as suas promessas. Também expressou abertamente o desejo de retirar a Tesla da bolsa, acabando por se envolver em problemas legais no processo.

A Tesla, segundo a maioria das análises, saiu vitoriosa desses dias difíceis. Mas isso levanta perguntas sobre o que levou Musk a mudar de ideias quanto à entrada da SpaceX em bolsa, e como se sairá esta empresa, com objetivos ainda mais ambiciosos, agora que enfrenta o vaivém diário dos preços das ações.

É possível que as vantagens de entrar em bolsa em plena febre da IA — e a promessa de uma IPO capaz de angariar dezenas de milhares de milhões de euros para a SpaceX — tenham sido demasiado grandes para desperdiçar.

“Vejo realmente a IPO da SpaceX como análoga ao momento em que a Google entrou em bolsa para o setor tecnológico”, disse Andrew Rush, executivo de longa data da indústria e cofundador da startup Star Catcher. “A entrada da SpaceX em bolsa é, penso eu, o reconhecimento de que esta é uma empresa que ganhou escala e está a cumprir o potencial do espaço — e, tal como a Google e os hiperescaladores que vieram depois, esse conjunto inicial de serviços vai simplesmente crescer, crescer e crescer.”

E Rush espera benefícios de arrastamento para toda a indústria espacial: “Certamente a IPO, o valor gerado, vai atrair capital para o nosso mercado.”

Um ciclo de reinvestimento

Um foguetão Falcon 9 da SpaceX sobrevoa o oceano Pacífico levando uma carga de satélites Starlink, depois de ser lançado a partir da Base da Força Espacial de Vandenberg, em abril de 2024. Mario Tama/Getty Images

Tendo em conta a avaliação da SpaceX, Wall Street está a contar com algumas coisas: que a SpaceX comece a lançar regularmente a Starship em missões operacionais. Que este novo foguetão coloque em órbita satélites Starlink que expandam a capacidade do seu serviço global de internet. E que a empresa desenvolva centros de dados orbitais enquanto trabalha na base lunar da NASA.

Mesmo com Marte fora da equação, essa visão implica muitos anos a despejar milhares de milhões de euros em empreendimentos de alto risco e devoradores de lucros.

Os centros de dados orbitais, por exemplo, apresentam uma série de desafios de engenharia — como manter os satélites arrefecidos. Ao contrário da crença popular, o espaço não é propriamente frio.

Os sucessos têm de sustentar as dificuldades. Pelo menos, tem sido assim até agora: mesmo quando a SpaceX termina um programa de desenvolvimento e os fundos começam a entrar em força, reinveste rapidamente o dinheiro na ambição ousada seguinte.

Por um breve período, no início da década de 2020, por exemplo, a SpaceX ponderou separar a Starlink e levar apenas o serviço de internet para bolsa, numa altura em que o negócio mostrava claramente a capacidade de gerar milhares de milhões por ano a partir de uma base de clientes em rápido crescimento.

Mas a Starlink nunca foi separada. E uma análise às contas da SpaceX mostra porquê: a empresa tem reinvestido furiosamente os lucros da Starlink noutros projetos, nomeadamente na Starship.

Se o objetivo final da SpaceX é colonizar Marte, essa tendência para desviar dinheiro extra para programas de desenvolvimento de longo alcance pode nunca acabar. Uma povoação extraterrestre num ambiente como Marte — com a sua ausência de campo magnético e atmosfera fina e tóxica — exigiria provavelmente a invenção de inúmeras novas tecnologias.

A questão do retorno do investimento

Executivos da SpaceX celebram ao tocar o sino de abertura no Nasdaq MarketSite, para assinalar a oferta pública inicial da empresa em Nova Iorque, a 12 de junho. Timothy A. Clary/AFP/Getty Images

E não é claro que tipo de retorno do investimento poderá oferecer a criação de uma colónia marciana.

Não há recursos conhecidos em Marte que sejam suficientemente valiosos para serem extraídos e vendidos a empresas na Terra.

E embora grande parte de Wall Street tenha promovido intensamente a IPO — chegando mesmo a transformar a icónica bola de passagem de ano de Times Square numa réplica de Marte — alguns analistas já manifestam hesitação.

A empresa de investigação financeira Morningstar avisou que a SpaceX estava sobrevalorizada.

“Só o cenário Moonshot mais otimista, que exige uma Starship rapidamente reutilizável e centros de dados orbitais comercialmente competitivos, se aproxima do preço da IPO”, lê-se no relatório. “O preço da IPO implica que o cenário Moonshot é altamente provável, mas consideramos que as perspetivas são muito incertas.”

E embora a busca persistente por estabelecer uma civilização marciana possa galvanizar os fãs da SpaceX focados na exploração, pode ter o efeito oposto em Wall Street.

Ritter, o professor de Finanças, disse que incluir linguagem sobre a colonização de Marte no prospeto da IPO pode ser uma forma de Musk “gozar consigo próprio” e com o seu pacote de compensação “excessivo” de cerca de 6,57 biliões de euros.

Mesmo que a SpaceX não despeje incontáveis milhares de milhões na tentativa de criar uma vasta povoação marciana, acrescentou Ritter, ele não aconselha os investidores de retalho — o público em geral — a comprar as suas ações neste momento.

De facto, pode ser um investimento volátil: depois de disparar na estreia, a ação da SpaceX caiu brevemente, na terça-feira, abaixo do preço da IPO de cerca de 131 euros por ação.

“A SpaceX é uma grande empresa, mas isso não significa que seja um grande investimento”, disse. “A avaliação assume que muitas coisas excelentes vão acontecer — e as coisas nem sempre correm de acordo com o plano.”

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