"Sim", Musk "fez" a saudação nazi; "não", "não fez", "qualquer braço estendido agora é tratado como uma saudação romana"

22 jan 2025, 08:00
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Bater no peito e depois esticar o braço: dois historiadores ouvidos pela CNN Portugal têm visões diferentes - Musk fez aquilo deliberadamente, diz um; foi coincidência, diz outro

Saudação nazi ou não saudação nazi, eis a questão. O polémico gesto de Elon Musk durante uma das ações adjacentes à tomada de posse de Donald Trump levantou a dúvida sobre se o homem mais rico do mundo estaria ou não a fazer a saudação romana que Adolf Hitler popularizou na sua Alemanha.

Ambos historiadores, Manuel Loff e Riccardo Marchi estão em polos opostos nesta questão. O primeiro, que já foi deputado do PCP, não tem dúvidas de que em causa está mesmo a saudação popularizada na Alemanha nazi, enquanto o segundo, professor do ISCTE que se dedica ao estudo da direita radical, não vê qualquer razão para Musk utilizar este gesto neste contexto.

“Aquilo que vi é uma provocação pura, para que toda a gente ache e discuta se foi ou não uma saudação nazi”, afirma Manuel Loff, sublinhando que há uma questão mais importante para responder: “Temos fascismo ou não?”.

Manuel Loff diz que o “consenso crescente” aponta para um reaparecimento da ideologia fundada por Benito Mussolini, mesmo que os seus seguidores se afastem do termo fascismo, já que este ficou praticamente condenado depois do que aconteceu na Europa em países como Itália, Alemanha, Espanha e, claro, Portugal.

“Não estou a ver a vantagem de fazer a saudação romana. Para piscar os olhos aos supremacistas brancos?”, refere por sua vez Riccardo Marchi, defendendo que “qualquer braço estendido parece uma saudação romana”.

“Qual seria a vantagem, o sentido, de ele, que fez imensas declarações pró-Israel, que sempre se pôs ao lado de Israel, fazer isto?”, questiona Riccardo Marchi, admitindo que o único cenário em que isto seria possível era num discurso em defesa da total liberdade de expressão.

Aí, diz Riccardo Marchi, lembrando que Elon Musk é o dono da rede social X, podia haver razão para a utilização deste tipo de gesto, numa lógica de desafio último para mostrar que ali a liberdade de expressão é mesmo total. “O X tornou-se uma rede social onde os grupos de extrema-direita têm certa facilidade em exprimir-se. A batalha da liberdade total é muito norte-americana, a lógica é que cada um, mesmo o mais maluco, pode exprimir as suas ideias”, sublinha.

“Agora, pensar que num dia tão importante como a tomada de posse de Donald Trump, que teve uma vitória estrondosa, vai fazer a saudação romana… não estou a ver a lógica”, reitera Riccardo Marchi.

Manuel Loff não concorda, vendo uma agenda no gesto repetido duas vezes por Elon Musk. O historiador dá um exemplo conhecido dos portugueses: “André Ventura fez [o gesto] e recusou-se a admiti-lo em 2020. O que Elon Musk fez é um clássico”.

O antigo deputado do PCP fala, no caso português, de uma manifestação organizada contra as restrições impostas por causa da covid-19, e que teve o presidente do Chega como figura central. Personalidades políticas como Carlos Moedas, que na altura ainda não era presidente da Câmara de Lisboa, vieram falar naquele como um “dia triste para a democracia”, não tendo problemas em afirmar que o gesto de André Ventura era mesmo a saudação nazi.

“O que fazem [pessoas como] Elon Musk, André Ventura e outros é o seguinte: ou usam abertamente a simbologia fascista, nomeadamente a saudação nazi, ou então usam situações ambíguas nas quais colocam muita gente a discutir”, continua Manuel Loff, lembrando que essa ambiguidade dá espaço para que depois venham negar este tipo de acusações.

Elon Musk, como André Ventura há cinco anos, veio repudiar agora qualquer tipo de conotação fascista. “Francamente. Eles precisam de melhores golpes sujos. O ataque 'toda a gente é Hitler' está tão esgotado”, escreveu o magnata no X.

Riccardo Marchi acredita antes numa coincidência, sugerindo que Elon Musk estava apenas a “lançar o seu coração” aos apoiantes, num sinal de “agradecimento ao povo republicano”. Essa mão no coração relembra, de resto, um gesto também repetido por Adolf Hitler antes de esticar a mão, embora nem sempre o líder do Partido Nacional Socialista da Alemanha fizesse esse gesto.

“O discurso é totalmente diferente. Mesmo que possam existir fações mais radicais, não faz sentido nenhum [pensar que aquela é a saudação nazi]”, acrescenta Riccardo Marchi, defendendo que o próprio Donald Trump deixou cair a alt-right, a direita mais conservadora dos Estados Unidos.

Mas, mais do que propriamente uma ideologia, Manuel Loff vê por trás deste polémico gesto um sinal do "narcisismo desmesurado" de Elon Musk. "[O que pessoas como ele] pretendem é que falem deles, deles pessoalmente. Gostam de ficar na ambiguidade", vinca, lamentando que "as lições de 1945", agora que estamos a cumprir 80 anos da libertação do campo de concentração de Auschwitz, estejam a ser "esquecidas ou sonegadas".

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