Será Musk o futuro verdadeiro presidente dos EUA? Para a líder da extrema-direita alemã parece que sim

9 jan 2025, 22:00
Alice Weidel, da AfD, entrevista Elon Musk no X, antigo Twitter (EPA)
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Ao longo de quase uma hora e meia de conversa, Alice Weidel e o multimilionário, dono das Tesla, SpaceX e X, debateram amigavelmente os temas que mais preocupam a direita populista. A conversa acabou por ir parar a... Adolf Hitler

"A minha esperança para a sua administração é que acabe com a guerra (…) Basicamente só você é que a consegue parar".

A frase é de Alice Weidel, líder da Alternativa para a Alemanha (AfD), partido de extrema-direita alemão. Seria de esperar que tivesse sido dirigida a Donald Trump, mas não. Disse-a a Elon Musk.

Pode ter sido um mero lapsus linguae, mas vai ao encontro do que muitos pelo mundo fora, e pelos vistos a própria Weidel, pensam: é Musk quem vai mandar na próxima administração americana.

Entre muitos risinhos, e ao longo de pouco mais de uma hora de 20 minutos na plataforma X, Musk e Weidel, presidente do partido que o magnata considera o único que pode salvar a Alemanha, trocaram impressões sobre os principais temas da atualidade global. E concordaram em tudo, desde a educação à energia, da imigração à guerra da Ucrânia.

Foi durante a discussão deste último tema que Weidel se dirigiu a Musk como se viesse a ser o presidente americano. A líder da AfD deixou duras críticas às lideranças europeias, incluindo a alemã, acusando-as de “não terem estratégias” para combater a Rússia e de terem deixado a Europa militarmente dependente dos EUA.

“Penso que este conflito se vai resolver no mandato de Trump”, disse Musk. “Quanto mais o conflito se prolonga, mais a Ucrânia enfraquece em relação à Rússia e milhares de pessoas morrem por nada”.

Para Weidel, a guerra veio expor o falhanço das políticas energéticas dos governos alemães “dos últimos 20 a 25 anos”, designadamente de Angela Merkel, que esteve 16 anos no poder, e da “coligação-semáforo”, liderada por Olaf Scholz, que implodiu no final do ano passado.

“Merkel arruinou o nosso país. Mudou a nossa espinha dorsal em termos energéticos. A Alemanha é o único país industrial que desligou as suas centrais nucleares. Só temos energia solar e eólica. Um país industrial não pode funcionar apenas com energia solar e eólica”, disse a líder de extrema-direita, que diz que a AfD apoia a diversificação das fontes de energia.

Musk concordou. Apesar de se considerar um adepto das energias renováveis, o magnata defende que o mix energético de um país deve incluir “alguns combustíveis fósseis e muito nuclear”.

Cerca de 200 mil pessoas ouviram a conversa entre Elon Musk e Alice Weidel (Christopher Neundorf/EPA)

“Foi uma tragédia terem fechado as centrais nucleares na Alemanha”, disse Musk. 

“Na altura em que o fornecimento do gás russo foi cortado, fecharam a última central nuclear da Alemanha. É preciso ser muito estúpido ou odiar o teu país”, respondeu Weidel.

Outro ponto que Weidel apontou à administração de Angela Merkel foi a abertura das fronteiras aos imigrantes. Mas, talvez de forma surpreendente, não se alongou muito na questão, referindo apenas que os imigrantes destroem os seus documentos antes de passar a fronteira para a Alemanha pois, alega a líder da AfD, imigrantes sem documentos “não podem ser deportados”. Musk disse que a mesma prática ocorria do outro lado do Atlântico e que o crime tinha aumentado “drasticamente” nos últimos anos, mas também não falou muito no tema. Em contraste, o alegado “wokismo” presente no sistema de ensino alemão foi bem debatido.

No discurso típico de uma líder da direita populista, Alice Weidel afirma que “hoje em dia” as escolas estão a doutrinar as crianças com uma “agenda woke de esquerda” e que os jovens não aprendem nada a não ser “estudos de género”. Weidel também lamentou, sem citar qualquer prova, que atualmente já não é preciso escrever alemão correto para progredir no sistema de ensino.

“Os jovens votam em nós porque querem ter uma boa educação. Temos de voltar a um sistema baseado no mérito e abandonar todas estas práticas socialistas”, desejou Weidel. “Uau. O vírus da mente woke afetou mesmo a Alemanha”, respondeu o dono do X.

A liberdade de expressão foi outro dos assuntos e a amigável conversa acabou, inevitavelmente, por ir parar a Adolf Hitler.

“A primeira coisa que Hitler fez (quando chegou ao poder) foi limitar a liberdade de expressão. Foi por isso que teve sucesso”, disse Weidel, que entrou depois numa espiral que acabou com a própria a classificar Adolf Hilter como comunista, numa tentativa de descolar a AfD do rótulo de partido sucessor do NSDAP.

“Os nazis eram socialistas, Hitler era comunista. Os nazis financiaram empresas privadas, nacionalizaram toda a indústria. O maior sucesso da esquerda foi rotular Adolf Hitler como um homem de direita e conservador. Ele era comunista e socialista. (…) Somos (AfD) um partido conservador libertário, queremos libertar as pessoas do Estado. Queremos um Estado mínimo, liberdade de expressão, liberdade para gerar riqueza”, completou Weidel.

Alice Weidel durante uma sessão no Bundestag, 15 de dezembro de 2021 (AP Photo/Michael Sohn)

E porque quem fala de Hitler fala de antissemitismo, a líder do partido de extrema-direita queixou-se de que a sua força política é erradamente caracterizada como antissemita. Embora não declare o seu apoio total a Israel no conflito contra o Hamas, alegando que o conflito no Médio Oriente “torna-se cada vez mais complexo à medida que lê mais sobre ele”, Alice Weidel diz apoiar inequivocamente a existência do Estado judaico, que deve ser protegida, assim como os judeus na Alemanha.

“A Alemanha tem de proteger os judeus no nosso país, pois já não estão seguros aqui devido à criminalidade muçulmana. Com todas as manifestações de palestinianos em Berlim, um judeu já não pode andar em segurança. A AfD é o único protetor do povo judeu na Alemanha, todos os outros partidos deixam milhões de pessoas entrar e deixam-nas cometer crimes”.

Weidel diz, no entanto, sentir empatia pelos civis da Faixa de Gaza. “Abri o Google Maps para ver a Faixa de Gaza. Está fechada ali, sem recursos, pode ser-lhe cortado o abastecimento de água a qualquer momento. Isto não vai dar certo”.

Musk concordou e deu inclusive uma solução de três passos para o conflito. “Não há outra opção senão eliminar aqueles que querem eliminar o Estado de Israel. Temos também de corrigir a educação dos palestinianos, para impedir que aprendam a odiar Israel, e de tornar as zonas palestinianas prósperas. É preciso ajudar a reconstruir”, explicou.

O multimilionário, que já antes tinha dado o seu apoio à AfD, reiterou o apelo durante a chamada. "Se na Alemanha estão infelizes, recomendo vivamente que votem na AfD. Weidel é uma pessoa muito sensata, nada de escandaloso está a ser proposto, é apenas bom senso. Só a AfD pode salvar a Alemanha, ponto final. É preciso que a AfD chegue ao poder, caso contrário as coisas vão piorar muito na Alemanha".

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