Liberdade de expressão ou discursos de ódio? O que Musk pode significar para o Twitter

CNN , Clare Duffy
26 abr, 16:08
Twitter. Foto: AP

O Twitter comunicou, na segunda-feira, que aceitou vender a plataforma a Elon Musk num negócio de cerca de 44 mil milhões de dólares (41 mil milhões de euros) que tem potencial para expandir o império empresarial do bilionário e colocar o homem mais rico do mundo a cargo de uma das redes sociais mais influentes do mundo.

O negócio, que tornará a empresa privada, encerra um período de turbulência em que o CEO da Tesla e da SpaceX se tornou um dos maiores acionistas do Twitter, foi-lhe oferecido e recusou um lugar no conselho de administração e fez uma licitação para comprar a empresa — tudo em menos de um mês.

Nos termos do acordo, os acionistas receberão 54,20 dólares em dinheiro por cada ação do Twitter que detêm, igualando a oferta original de Musk e marcando um prémio de 38% sobre o preço das ações no dia anterior a Musk ter revelado a sua participação na empresa.

"A liberdade de expressão é a base de uma democracia funcional e o Twitter é a praça da cidade digital onde são debatidos assuntos vitais para o futuro da humanidade", afirmou Musk em comunicado, na segunda-feira. "O Twitter tem um enorme potencial — estou ansioso por trabalhar com a empresa e com a comunidade de utilizadores para desbloqueá-lo."

O acordo, que foi aprovado por unanimidade pela administração do Twitter, deverá ser fechado este ano. Isto depois de Musk ter revelado na semana passada que tinha alinhado 46,5 mil milhões de dólares em financiamento para adquirir a empresa, um aparente ponto de viragem que forçou a administração do Twitter a considerar seriamente o negócio. O conselho reuniu-se no domingo para avaliar a oferta de Musk.

"A administração do Twitter conduziu um processo ponderado e abrangente para avaliar a proposta do Elon com um foco deliberado no valor, na certeza e no financiamento", disse o presidente do conselho independente do Twitter, Bret Taylor, em comunicado, apelidando o acordo de "o melhor caminho para os acionistas do Twitter".

As ações do Twitter subiram quase 6% após o anúncio do negócio, rondando os 51,84 dólares, pouco menos do preço da oferta. O negócio está pendente de aprovação de acionistas e reguladores.

Numa mensagem interna aos funcionários obtida pela CNN, o CEO do Twitter, Parag Agrawal, disse que iria realizar uma reunião a sós com Taylor na segunda-feira à tarde para responder a perguntas sobre o negócio. "Sei que é uma mudança significativa e que provavelmente está a processar o que isto significa para si e para o futuro do Twitter", disse.

O que Musk significa para o Twitter

Musk é simultaneamente um utilizador proeminente e controverso do Twitter. Tem mais de 83 milhões de seguidores na plataforma, que tem usado ao longo dos anos para tudo, desde partilhar memes e discutir as suas empresas até insultar políticos, espalhar afirmações enganosas sobre a covid-19 e fazer comentários ofensivos sobre a comunidade transgénero.

Musk tem sublinhado repetidamente nos últimos dias que o seu objetivo é reforçar a liberdade de expressão na plataforma e trabalhar para "desbloquear" o "potencial extraordinário" do Twitter.

Na sua declaração de segunda-feira, Musk disse que quer "tornar o Twitter melhor do que nunca, melhorando o produto com novas funcionalidades, tornando os algoritmos open source para aumentar a confiança, derrotar os bots de spam e autenticar todos os humanos". Em separado, disse num tweet de segunda-feira que espera que "até os meus piores críticos permaneçam no Twitter, porque é isso que a liberdade de expressão significa".

Ainda assim, alguns especialistas do setor temem que o desejo de liberdade de expressão de Musk no Twitter possa significar reverter parte do trabalho da plataforma para conter o discurso de ódio, a desinformação, o assédio e outros conteúdos nocivos. Outros questionaram se Musk poderá restaurar a conta do ex-Presidente Donald Trump, que foi removida no início do ano passado por violar as políticas do Twitter ao incitar à violência após o ataque ao Capitólio. Tal medida poderá ter consequências significativas para as próximas eleições presidenciais norte-americanas de 2024.

Embora o Twitter seja menor do que alguns rivais das redes sociais, tem uma influência desmesurada nos mundos online e offline, porque é usado por muitos políticos, figuras públicas e jornalistas, e por vezes tem agido como um modelo para outras plataformas na forma de lidar com conteúdos nocivos.

"Não permita que o Twitter se torne uma placa de Petri para discursos de ódio, ou falsidades que subvertem a nossa democracia", disse Derrick Johnson, presidente da NAACP, numa declaração dirigida a Musk segunda-feira após o acordo.

Uma era nova e incerta para o Twitter

Nos dias que se seguiram à oferta inicial de Musk, muitos que seguiam a empresa questionaram-se se o Twitter tentaria encontrar outro comprador, especialmente depois de a empresa ter colocado entraves para dificultar a aquisição da empresa por Musk.

Mas o analista sénior da CFRA, Angelo Zino, afirmou, na segunda-feira, que a administração do Twitter ter considerado mais seriamente a oferta de Musk pode ter acontecido devido à "conclusão do Conselho de Administração de que uma oferta alternativa de um 'cavaleiro branco' pode ser difícil de encontrar, especialmente depois da queda dos preços dos ativos das empresas de redes sociais nas últimas semanas/meses".

Não é claro se Agrawal – que assumiu o cargo de CEO do fundador Jack Dorsey em novembro - permanecerá no cargo de topo após a tomada de posse. Musk já twittou um meme comparando Agrawal ao ex-líder soviético Joseph Estaline. Musk disse ainda, na sua carta de oferta para comprar o Twitter, que não tem "confiança na gestão".

O acordo poderia, no entanto, pôr fim a quase uma década de caos no Twitter como empresa pública, durante a qual passou por vários CEO, enfrentou um investidor ativista e lutou para suscitar crescimento e rentabilizar com sucesso a sua influente base de utilizadores.

Agrawal disse na declaração de segunda-feira que "o Twitter tem um propósito e relevância que afeta o mundo inteiro", acrescentou: "Profundamente orgulhoso das nossas equipas e inspirado pelo trabalho que nunca foi tão importante."

Brian Stelter e Donie O'Sullivan, da CNN, contribuíram para este artigo.

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