Glória tinha 51 anos quando desatou a viajar: "Comer, Orar, Amar" – vamos! Como Elizabeth Gilbert e os seus leitores conquistaram o mundo

CNN , Lilit Marcus
21 fev, 11:00
Julia Roberts interpretou Gilbert na versão cinematográfica de «Eat Pray Love». Columbia/Kobal/Shutterstock

As viagens libertadoras de Glória, Elizabeth, Sasha e Merridith. Ou como este mantra de três palavras se tornou um grito de guerra

Foi quando chegou a San Diego, de todos os lugares, que Elizabeth Gilbert percebeu que tudo tinha mudado. A romancista tinha saído de casa como autora de um livro de memórias razoavelmente bem-sucedido, publicado um ano antes, intitulado "Comer, Orar, Amar", uma fusão na primeira pessoa de diário de viagem, confissão e manual de autoajuda, que narrava as suas viagens após o divórcio a Itália, Índia e Indonésia. Em digressão para promover o lançamento da edição de bolso do livro, Gilbert lembra-se de ter falado para audiências de "10, 15, 20 pessoas".

Então, a caminho de mais uma apresentação, de repente viu "pessoas em três filas à volta do quarteirão". Gilbert ficou confusa: "Disse ao motorista: 'O que está a acontecer hoje à noite em San Diego? Há algum tipo de concerto ou espectáculo?” Ele respondeu: 'Não, eles estão aqui para vê-la a si'".

De repente, "Comer, Orar, Amar" (no original, "Eat, Pray, Love"), que foi lançado fez esta semana 20 anos, não era mais um projeto pessoal idiossincrático de Gilbert — "Lembro-me de pensar: ninguém vai querer ler isto, mas mesmo assim tenho que o fazer" —, mas um fenómeno que se espalharia pelo mundo. O livro ganhou vida além das suas páginas, nos hotéis, cafés, spas e praias onde legiões de leitores partiram em busca das suas próprias jornadas transformadoras.

"Uma carta de autorização humana"

Em 2019, Glória Caseiro, nascida em Portugal e residente em Nova Jérsia, era mãe de dois filhos adultos e tinha-se divorciado depois de os filhos saírem de casa. Sozinha e recém-reformada, Glória encontrou a resposta sobre o que fazer a seguir na forma de um livro de bolso de "Comer, Orar, Amar": "Decidi: ‘Sabes uma coisa? Agora vou a todos os lugares aonde nunca fui’". Aos 51 anos, partiu para as suas primeiras férias sozinha, para a Itália.

Glória Caseiro na Islândia. Foto: cortesia de Glória Caseiro

Esse tipo de experiência — e não os milhões de cópias vendidas ou os 200 milhões de dólares de bilheteira da adaptação cinematográfica de 2010, protagonizada por Julia Roberts como Gilbert e Javier Bardem como o novo amor que ela conquistou nas suas viagens — foi o que tornou "Comer, Orar, Amar" uma sensação duradoura. Gilbert diz que os amigos a descrevem como uma "carta de autorização humana" — alguém que basicamente disse a toda uma geração de mulheres que era normal viajar apenas pelo prazer de viajar.

"Há uma velha canção de blues que diz: quando um homem fica triste, ele apanha um comboio e viaja; quando uma mulher fica triste, ela baixa a cabeça e chora", comta Gilbert. "E grande parte disso deve-se ao facto de as mulheres não poderem apanhar um comboio."

Quando o livro foi publicado em 2006, o mundo já tinha começado a congratular-se sobre como se tinha tornado “fácil” para uma mulher viajar sozinha a lazer — uma afirmação que diz mais sobre as restrições que existiam antes do que sobre qualquer grande avanço. Só recentemente muitos países deixaram de tratar as mulheres que viajam sozinhas como um problema a ser resolvido, deixando de recusar-lhes quartos de hotel quando viajam sem um homem ou de lhes negar cartões de crédito para pagar.

A globalização e a crescente democratização das viagens tornaram mais fácil chegar a lugares distantes, e dispositivos móveis cada vez mais inteligentes, com cartões SIM e Google Tradutor, facilitaram a vida aos viajantes quando chegam ao destino.

Uma palavra surgiu repetidamente entre as mulheres que falaram sobre as suas viagens naqueles anos. Não era apenas mais socialmente aceitável para uma mulher viajar sozinha, dizem. Era mais seguro. Uma viajante podia passear sozinha por um novo bairro apenas com o seu telemóvel, sem ter de tirar um mapa de papel que revelasse a sua falta de familiaridade com o local a qualquer pessoa ao seu redor. Era possível enviar uma mensagem de texto para alguém em casa assim que o avião aterrasse, em vez de esperar para chegar a algum lugar com um telefone de satélite.

"Freud passou muito tempo a perguntar: “O que querem as mulheres?”", diz Gilbert. "E parece que elas querem um ano para viajar sozinhas pelo mundo, comer muita pizza, apaixonar-se por um brasileiro bonito, viver aventuras."

O mapa de Glória
Depois de passar os seus 20 e 30 anos a criar uma família, Glória pensou que tinha perdido a oportunidade de viajar. Então, aos 51 anos, partiu para as suas primeiras férias a solo e não parou de viajar desde então.
Fonte: Gloria Caseiro | Gráfico: Way Mullery, CNN

 

Muitas mulheres inspiradas por "Comer, Orar, Amar" pensavam que as suas oportunidades de viajar já tinham passado. As carreiras e as famílias ocupavam o seu tempo e energia; as férias eram para visitar faculdades para os filhos ou parentes. Quando viajar sozinhas se tornou uma opção, elas não estavam interessadas em dormir em quartos partilhados em albergues, mas perguntaram-se como fariam amigos ou encontrariam relações de outra forma.

“No início, foi um pouco estranho viajar sozinha”, diz Caseiro. Inicialmente, ela sentia-se constrangida ao comer sozinha num restaurante e questionava-se se as pessoas sentiriam vergonha por ela. "Mas, na verdade, tem sido alegre, libertador e revigorante", declara.

O mantra de três palavras que se tornou um grito de guerra

Elizabeth Lahiff era uma recém-formada americana que trabalhava no México no início dos anos 2000 quando alguém disse: "Estáa a fazer aquela coisa do “Comer, Orar, Amar”, não é?"

Intrigada, Lahiff procurou um exemplar do livro.

“Quando o li, tudo me tocou profundamente. E pensei: sim, estou a fazer algo fantástico. Então, para mim, o livro foi realmente reconfortante.”

O mapa de Elizabeth Lahiff
O passaporte de Elizabeth para o mundo foi o seu trabalho em desenvolvimento internacional, que a levou a lugares como México, Ucrânia, Iraque e sua atual base, o Tajiquistão.
Fonte: Elizabeth Lahiff | Gráfico: Way Mullery, CNN

A história de Lahiff, tal como a de Gilbert, começou com a protagonista como uma jovem mulher de carreira em Manhattan, Nova Iorque. Embora estivesse cheia de sonhos de mudar-se para a grande cidade e ser bem-sucedida, a indignidade e a monotonia do seu emprego inicial numa empresa de consultoria levaram Lahiff a questionar se tinha tomado a decisão certa.

Acabou por deixar o emprego e mudar-se para as Ilhas Marshall, um lugar do qual nunca tinha ouvido falar, para um trabalho temporário.

Elizabeth Lahiff no Cazaquistão (à esquerda) e nos Emirados Árabes Unidos (à direita). Cortesia de Elizabeth Lahiff

Duas décadas depois, Lahiff vive em Dushanbe, no Tajiquistão, e trabalha com desenvolvimento internacional. É literal e figurativamente um mundo distante de onde ela cresceu, numa pequena cidade no interior do estado de Nova Iorque.

"Viajar sozinha dá-te muito em termos do que sentes que podes realizar", afirma. "Também acho que é o mais próximo da liberdade que alguém pode sentir, porque não há expectativas em relação a ti."

Antes, durante ou depois das suas viagens, o livro continuou a ressoar nos seus leitores. Glória Caseiro ainda tem a sua cópia original do livro, agora transformada numa espécie de álbum de recortes, pois ela colocou flores secas e bilhetes de comboio entre as páginas e escreveu notas nas margens. O livro começou como a bíblia de viagem de Caseiro e agora é uma lembrança.

Julia Roberts interpretou Gilbert na versão cinematográfica de "Comer Orar Amar". Columbia/Kobal/Shutterstock

Tantas pessoas escreveram a Gilbert sobre as suas viagens inspiradas em "Comer, Orar, Amar" que a sua editora as reuniu num livro: "Comer, Orar, Amar fez-me fazê-lo: viagens de vida inspiradas nas memórias best-seller" [tradução livre].

Atualmente, a ideia de “Comer, Orer, Amar” transcendeu completamente o livro de memórias original. Gilbert conta que, recentemente, alguém lhe contou sobre uma viagem sozinha pela Ásia e sobre ter conhecido outra mulher, na Tailândia, que também estava a viajar sozinha. "E ela perguntou à mulher: ‘O que estás a fazer aqui na Tailândia?’, conta Gilbert. "E a mulher respondeu: 'Bem, estou a fazer a minha coisa do 'Comer, Orar, Amar'. Estou no meu ano de “Comer, Orar, Amar”. E a pessoa que me contou a história disse-lhe: “Oh, queres dizer como no livro?”

"E ela respondeu: 'Que livro?'"

Marketing para a geração "Comer, Orar, Amar"

O livro também serviu, inevitavelmente, como modelo de marketing, à medida que uma nova safra de negócios surgiu para atender às necessidades dos novos viajantes. Resorts de bem-estar de luxo anunciavam a ideia de que um hóspede poderia vir e experimentar meditação e cura espiritual sem ter que dormir no chão, abster-se de álcool ou fazer um voto de silêncio.

“Comer, Orar, Amar” tornou-se um slogan que proprietários de spas e hotéis podiam usar para atrair um novo tipo de cliente. Não, um resort em Bali não podia prometer que alguém se apaixonaria por Javier Bardem enquanto estivesse lá, mas podia vender um feed do Instagram cheio de tigelas de cereais saudáveis e mulheres magras a fazer ioga em campos de arroz.

Para Sasha Astiadi, que é indonésia e passou parte da sua juventude em Bali, "Comer, Orar, Amar" estava em toda parte — mesmo que ela ainda não tivesse lido o livro ou visto o filme.

Sasha Astiadi em Mont Rebei, Espanha. Cortesia de Sasha Astiadi

Sasha diz que era impossível não testemunhar a transformação que "Comer, Orar, Amar" provocou na ilha, com a chegada de dezenas de milhares de turistas, que gastavam até cinco dígitos em retiros de meditação que pessoas locais como ela não podiam pagar. Muitos moradores locais passavam-se por curandeiros, diz, para lucrar com as multidões de mulheres que vinham em busca de sua própria experiência gibbertiana.

Bali, diz, “não é como nos filmes. Há trânsito constante. Há uma língua que não entendes. Há mosquitos. Há muita burocracia”.

Mapa de Sasha
A vida de Sasha mudou aos 16 anos. A indonésia ganhou uma bolsa de estudos para estudar nos Estados Unidos e foi contagiada pelo vírus das viagens. A sua instrução levou-a a viajar pelo mundo. Atualmente, mora na Alemanha.
Fonte: Sasha Astiadi | Gráfico: Way Mullery, CNN

Astiadi foi contagiada pelo vírus das viagens quando ganhou uma bolsa de estudos para estudar nos Estados Unidos quando era adolescente. Após uma temporada numa pequena cidade do Texas, rapidamente percebeu que a formação seria o seu caminho para sair da pobreza e da Indonésia. Os seus estudos académicos levaram-na da China à Hungria e aos Emirados Árabes Unidos. Agora, ela é programadora informática em Berlim.

Apesar de ter viajado muito, a sua movimentação pelo mundo não tem sido a experiência tranquila abraçada pelos fãs ocidentais, em sua maioria brancos, da obra de Gilbert. Sasha fala seis idiomas, mas diz que é vítima de discriminação racial quando viaja, enquanto turistas brancos que falam apenas inglês passam pela alfândega sem problemas.

Os EUA têm um dos passaportes mais poderosos do mundo, com os seus titulares a poderem aceder a 179 países e territórios sem visto ou com visto à chegada. A Indonésia, por outro lado, ocupa o 64.º lugar no ranking anual.

Além disso, Astiadi diz que muitas vezes é discriminada durante as viagens devido à cor da pele.

“Enquanto isso”, acrescenta, “os turistas que vêm para Bali só precisam de descer do avião e tudo está resolvido”.

Astiadi diz que precisa de manter suas visitas à Indonésia curtas, porque se ficar longe da Europa por muito tempo, corre o risco de ter o visto cancelado. Quando era criança, Astiadi adorava o Ursinho Paddington e ainda sonha em visitar Londres para ver a estátua de Paddington e comprar um ursinho de peluche para si. Mas, como é apenas residente na Alemanha, e não cidadã ou portadora de passaporte, os obstáculos são muito maiores.

"Acho que a minha cura espiritual vem principalmente de superar obstáculos e dificuldades", diz.

Quando o livro termina, mas a vida continua

As memórias de Gilbert proporcionaram aos leitores um final feliz perfeito, ao formar um casal com o belo empresário brasileiro por quem se apaixonou ao longo do caminho. Os dois casaram-se e estabeleceram-se nos EUA, mas a vida real de Gilbert era menos simples. Uma dúzia de anos depois, Gilbert deixou o marido pela sua melhor amiga, Rayya, que morreu de cancro pouco tempo depois, uma experiência que deu origem a outras memórias, mais controversas.

Elizabeth Gilbert e a coordenadora de eventos Susan McBeth na Warwick's Books, na Califórnia, durante a digressão promocional de "Comer, Orar, Amar". Cortesia de Elizabeth Gilbert

"Estou sempre a lembrar às pessoas que escrevi 'Comer, Orar, Amar' quando tinha 34 anos. E isso é muito jovem para ter toda a sua vida planeada”, diz. Enquanto a história de Julia Roberts como Liz Gilbert terminou, Liz Gilbert como Liz Gilbert continua avançando, de forma honesta e imperfeita.

Ainda assim, a versão original de Gilbert continua a guiar ou inspirar mulheres que querem ver mais mundo e realizarem-se mais a si mesmas.

"Acho que a história de Elizabeth Gilbert é muito semelhante à minha", diz Merridith Ng.

Ng, natural de Maryland, vive agora na Nova Zelândia. Mas a sua jornada para ver o mundo começou, tal como o livro de Gilbert, em Itália. "Quando percebemos que existem lugares fora dos Estados Unidos que também são incríveis, algo muda um pouco em nós", diz Ng.

O mapa de Merridith
Merridith foi para a Nova Zelândia com um visto de seis meses. Apaixonou-se por um morador local — e ambos exploraram o mundo juntos antes de se fixarem em Wellington.
Fonte: Merridith Ng | Gráfico: Way Mullery, CNN

Ng buscou seu lado espiritual frequentando cultos numa igreja na Nova Zelândia, onde conheceu o homem que mais tarde se tornaria seu marido — uma combinação perfeita de Orar e Amar. Agora eles têm três filhas — a mais velha, em homenagem ao país que despertou o desejo de explorar o mundo, chama-se Siena.

Merridith Ng com o marido, Richard Ng, em Gisborne, Nova Zelândia. Cortesia de Merridith Ng

"Nunca esquecerei a cara da minha mãe quando lhe disse que queria ficar noiva de alguém do outro lado do mundo", conta Ng. "A cara dela ficou completamente pálida. E disse: 'E quando tiveres filhos?' Acho que ela foi muito corajosa naquele momento, ao permitir que eu perseguisse o meu sonho e fosse para o outro lado do mundo."

Quando Ng se mudou para o estrangeiro, contava com cartões postais e ligações internacionais caras para manter contacto com a família. Hoje em dia, porém, eles podem usar o FaceTime e o WhatsApp. E embora ela passe muito menos tempo a viajar por lazer atualmente, o trabalho de Ng como coordenadora de estudantes estrangeiros que vêm estudar na Nova Zelândia faz com que ela recorra às suas memórias de viagem — e de estar assustada, sozinha e longe de casa — todos os dias.

Ng diz que, quando as suas filhas forem mais velhas, espera mostrar-lhes o filme "Comer Orar Amar" como uma forma de contar a sua própria história — como um ponto de partida para falar sobre como uma rapariga dos subúrbios de Washington DC conheceu um rapaz do outro lado do mundo e acabou por constituir família.

Elizabeth Gilbert na Índia, 2004. Cortesia de Elizabeth Gilbert

Gilbert diz que, no início, ficou preocupada com o facto de os seus leitores estarem a tentar seguir o seu exemplo de perto, fazendo uma "recreação ritualizada do livro", na qual "tentavam ficar no mesmo bairro em Roma, comer a mesma pizza que eu comi em Nápoles, encontrar o ashram onde estive na Índia e experimentar os curandeiros que consultei em Bali". E tentou, diz, encorajar as pessoas a não fazerem as mesmas coisas que ela tinha feito.

"Mas percebi, em algum momento", prossegue, "que se poderia fielmente, passo a passo, recriar completamente a minha jornada e ainda assim ter a uma jornada própria". A experiência pessoal de cada um com a pizza, ou com a cura, ou com o despertar espiritual, afirma Gilbert, seria completamente diferente.

"Então, naquele momento, pensei: faça o que quiser com isso", diz. "Mesmo que tentes ser como eu, acabarás sendo tu mesmo."

 

Pode ver aqui uma versão maior da entrevista com Elizabeth Gilbert.

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