Elevadores históricos de Lisboa: revelamos aqui os planos para o futuro

28 ago, 21:02
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Elevador e calçada da Glória totalmente reconstruídos

O Elevador da Glória não vai ser reparado. Vai ser substituído por um equipamento novo, com padrões de segurança contemporâneos. Isso implica a reconstrução da Calçada da Glória, canal onde circula.

Para se perceber o salto necessário, vale a pena olhar para o que se faz por este mundo fora nas encostas mais difíceis. Por exemplo, o comboio do Pilatus, na Suíça, vence declives de 48% desde 1889, sem um acidente que se registe. Consegue-o porque as suas rodas dentadas prendem literalmente a carruagem ao terreno. A vida dos passageiros não está presa por um único cabo, mas por múltiplos sistemas de travagem e de monitorização eletrónicos. O futuro elevador da Glória deverá oferecer a mesma fiabilidade. Para além disso, as carruagens terão de resistir a embates, por mais improváveis que venham a ser considerados, graças aos outros sistemas de segurança.

A segurança do Elevador da Glória foi degradada ao longo do tempo. Inaugurado em 1885, começou por perder a cremalheira. Depois sofreu várias remodelações críticas, como por exemplo o aumento de peso sem reforço dos travões. O uso intensivo e a incúria na manutenção também conspiraram para a tragédia. Entre outubro de 2024 e setembro de 2025, não foi feita uma única inspeção — nem a que o Instituto de Soldadura e Qualidade recomendara para o prazo máximo de doze meses,  nem as inspeções mensais previstas nas normas europeias.

Santa Justa em janeiro

O Elevador de Santa Justa é o único com continuidade garantida nos moldes atuais. Além do cabo novo, está a ser submetido a auditorias de segurança que envolvem o fornecedor e uma entidade notificada —organismos que a União Europeia acredita para verificar a conformidade de instalações por cabo, e que se concentram sobretudo nos países alpinos.

O Lavra, irmão gémeo do Glória, virá a seguir, e poderá beneficiar da experiência do primeiro projeto. Ambos partilham a característica que os torna únicos no mundo: os motores elétricos viajam dentro das próprias carruagens.

O funicular da Bica é um caso à parte. O motor não viaja com os passageiros — está no topo, sob a calçada, e é ligado à distância. Antes de cada viagem, o guarda-freio telefona a um colega para pôr a máquina a trabalhar. Essa diferença abre uma porta que os outros dois não têm: manter o sistema atual com reforços de segurança, em vez de o substituir.

Suspeita sobre as obras do túnel do Rossio

A Carris vai investir no levantamento topográfico minucioso da Calçada da Glória. Engenheiros da empresa suspeitam que as irregularidades do empedrado tenham contribuído para a perda de força com que as garras do travão pneumático encostam aos perfis metálicos embutidos no pavimento. Se o estudo confirmar essa relação, restará explicar a origem das deformações.

É aqui que entra o Túnel do Rossio, que passa mesmo por baixo da Calçada da Glória — e passa perto. Nos primeiros trezentos metros a contar da estação, corre a menos de dois metros e meio da superfície. As fichas técnicas ferroviárias dão dois metros no ponto da calçada, a cota mais baixa de todo o percurso.

Aquele chão já cedeu por causa dele. Durante a construção original, entre 1887 e 1890, a abóbada desceu 1,40 metros naquele ponto, provocando "um abatimento sensível do solo e conseguintemente um escorregamento do terreno superior", como descreveu uma publicação da época. A Companhia Real dos Caminhos de Ferro comprou por altos preços as casas em risco e demoliu algumas.

O túnel já parou o elevador duas vezes ao longo da História. A última aconteceu há 20 anos, durante a empreitada de reabilitação do túnel. A Rede Ferroviária Nacional (REFER), empresa pública entretanto extinta, encerrou o túnel de urgência, a 22 de outubro de 2004, perante a ameaça de derrocada. Seguiram-se três anos de escavações, sondagens geotécnicas e vistorias aos edifícios da envolvente, num trabalho que o especialista em túneis Matos Fernandes, da Faculdade de Engenharia do Porto, descreveu então como "uma operação de relojoaria". O túnel reabriu a 16 de fevereiro de 2008.

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