Trabalhos manuais são a causa mais provável da tragédia do Elevador da Glória

26 set 2025, 11:11

Veja no vídeo acima como o cabo era fixado à carruagem

Um processo artesanal é a causa próxima do acidente de 3 de setembro. Trata-se da fundição do cabo às peças que o amarram às carruagens. Antigamente, essa fundição era executada com chumbo, hoje são usadas outras ligas metálicas, por razões ambientais. 

A chumbagem começou a ser executada nas oficinas da Carris desde a entrada em funcionamentos dos funiculares de Lisboa: Lavra (1884), Glória (1885) e Bica (1892). Atualmente, por contrato, é da responsabilidade da Main, empresa concessionária do serviço de manutenção desde 2019. De acordo com fontes da Carris, a empresa privada continuava a pedir a colaboração dos operários mais experientes da empresa municipal para executar o procedimento.  

O procedimento é tecnologicamente semelhante ao do vídeo de demonstração da companhia alemã Carl Stahl GmbH, especializada em tecnologia de guindastes e elevadores. Essas imagens permitiram a José Luís Pinto de Sá, professor jubilado do Instituto Superior Técnico, explicar o procedimento passo a passo: o cabo é desfiado, meticulosamente limpo para garantir a aderência de cada um dos seus arames à fusão e colocado no interior da peça de fixação. Uma liga metálica a alta temperatura faz o casamento do cabo com a peça, que deveria ser para toda a vida.  

Trabalhadores da Carris tiveram logo a mesma suspeita

Um “cone” de fixação consta da lista de equipamentos a fornecer para a manutenção. Fontes próximas da investigação contribuíram e validaram a reportagem ontem exibida pela TVI, do mesmo grupo da CNN Portugal. Pediram apenas mais tempo para «esclarecer outros aspetos técnicos com detalhe, como a geometria da peça de chumbagem e a sua instalação dentro do trambolho». 

Como já noticiado pela CNN Portugal, outros fatores concorreram para o acidente, como o óleo e a sujidade na calha onde se deveria amarrar o travão pneumático. Aliás, o principal problema dos elevadores de Lisboa é a falta de equipamentos de segurança fiáveis, alternativos ao cabo. Como explica Pinto de Sá, na edição de hoje do jornal Nascer do SOL, são os únicos no mundo que nunca beneficiaram de reformas tecnológicas para proteger a vida dos passageiros. 

A CNN Portugal confrontou as duas empresas envolvidas. «Considerando que estão a decorrer processos de inquérito promovidos, respetivamente pelo GPIAAF e pelo Ministério Público, no decurso do acidente com o Ascensor da Glória, neste momento não nos podemos pronunciar sobre estas matérias», respondeu a Carris, por escrito.  

Fontes da empresa, no entanto, confidenciaram-nos que o problema agora revelado começou a ser falado entre os colaboradores no dia do acidente. A Carris, no entanto, “aguarda pelos resultados das investigações, para poder retirar também as devidas conclusões. 

A Main não respondeu à nossa tentativa de contacto. 

País

Mais País