E subitamente o elevador ficou completamente desgovernado, "como se tivesse sido atirado do Bairro Alto", embateu nas paredes enquanto as pessoas gritavam. "O elevador bate a última vez na curva da Calçada da Glória com a Rua da Glória e fica imóvel com um grande estrondo." É dia de luto nacional: 16 mortos, 23 feridos - incluindo uma criança de três anos
Bruno Pereira viveu 10 anos na Rua da Glória. Voltou esta quarta-feira ao local para ver a casa onde já morou. “Notei que o elétrico de baixo não parou exatamente onde devia parar. Houve um baque metálico, um barulho grande, e o elétrico saltou do carril e avançou cerca de dois palmos para o passeio da lateral da Avenida da Liberdade. Foi a primeira coisa estranha que se passou”, conta à CNN Portugal.
Quem estava por perto tentou ajudar os passageiros a sair, diz esta testemunha, ainda sem qualquer suspeita do que iria acontecer a seguir. “Uns segundos a seguir, vem o outro elétrico - que faz contrapeso com este -, completamente desgovernado, a embater nas paredes, as pessoas a gritar. Ele bate a última vez na curva da Calçada da Glória com a Rua da Glória e fica imóvel com um grande estrondo”, diz Bruno Pereira.
“Foi o pânico. Fomos todos a correr, todos os que estavam ali. Uns deram para tirar as pessoas debaixo do elétrico. A carroçaria ficou desfeita, havia pedras da calçada por todo o lado e as ranhuras metálicas, digamos assim, onde o elevador costumava circular saltaram todas.”
Bruno Pereira ficou no local durante algum tempo “porque havia turistas marroquinos que precisavam que alguém fosse falando com eles em francês, outros em inglês”. “Havia também portugueses. As pessoas não nos deixavam ir, abraçavam-se a nós. Às tantas veio um menino com os braços para cima a pedir colo”, lembra. O elétrico vinha a uma velocidade alucinante, como se tivesse sido atirado do Bairro Alto. “Veio como uma pedra a bater nas paredes.”
"É uma cena que eu nunca tinha visto"
Yasmin costumava apanhar o elevador da Glória todos os dias, tanto para subir como para descer. Esta quarta-feira decidiu ir a pé.
“Quando me deparei aqui, a sair da rua, em frente ao hotel, o elétrico já estava tombado. Pessoas a gritar, muita gente no chão já sem vida. Fiquei para ajudar uma senhora, de quem estou a aguardar notícias. É uma cena que eu nunca tinha visto. Muita gente a gritar, muito sangue. Eu nunca vi isto.”
À CNN Portugal, Yasmin disse que o horário a que ocorreu o acidente (pelas 18:04) é dos mais preenchidos. “Provavelmente [o elevador] estaria cheio. Com turistas, portugueses…”
Yasmin não consegue dizer se havia gente no passeio no momento do acidente. “A princípio, pelos olhares das pessoas que estavam por ali, disseram que só mesmo quem estava dentro [do elevador]."
Porém, Teresa d’Avó, outra testemunha que falou com a CNN Portugal, tem a certeza de que havia uma pessoa no passeio quando se deu o embate do elevador no prédio.
“Sei que pelo menos uma pessoa, eu tenho a certeza de que uma pessoa estava no passeio no momento em que o elétrico embateu contra o prédio”, diz.
Teresa corrobora a versão de Bruno sobre ter acontecido um problema com o primeiro elevador.
“Este elevador de baixo (…) estava no final do seu trajeto e desceu cerca de um metro e meio e isso deu-nos o alerta. Este aqui de baixo foi o primeiro a ficar sem travão, sem freio. Estava aqui em baixo a chegar, ficou sem freio, ainda fez um grande estrondo. Estava cheio. Nós ficamos logo a ajudar.”
“No momento em que vamos para ajudar, vemos o elevador de cima a vir desenfreado lá de cima. A única coisa que nós conseguimos fazer foi virar costas e começar a fugir para outro lado da avenida”, relembra a testemunha do acidente.
Filomena não assistiu ao acidente, mas mora no local e conhece bem a realidade do elevador da Glória.
“Lotação excessiva sempre, principalmente nesta altura com o turismo. Até vão pendurados do lado de fora do elevador. É vergonhoso. Vai muito cheio, não controlam o número de pessoas. Às vezes fico espantada (…), foi um estrondo, mas nunca me passou pela cabeça que fosse dali. Depois, estava com o telefone e vi as notícias e disse ‘não posso acreditar’”, contou à CNN Portugal.
A tragédia fez pelo menos 16 mortos e 23 feridos - entre os feridos está uma criança de três anos do sexo masculino, que está livre de perigo mas perdeu o pai - que morreu no acidente. Foram todos encaminhados para os hospitais de São Francisco Xavier, São José, Santa Maria e Dona Estefânia.
Os Sapadores Bombeiros de Lisboa foram rápidos a reagir. O alerta foi dado às 18:08, quatro minutos após o acidente, e chegaram ao local às 18:11, confirmou Alexandre Rodrigues, comandante do regimento. A pronta resposta valeu elogios do presidente da câmara, Carlos Moedas, na sua primeira intervenção perante os jornalistas no local. Que depois sublinhou tratar-se de “um dia trágico”. "É um dia muito duro para todos nós. Lisboa está de luto, é um momento trágico para a nossa cidade.”
A Câmara de Lisboa declarou três dias de luto municipal. "Infelizmente é gravíssimo. É um acidente que não deveria ter acontecido", lamenta Moedas, que expressou as suas condolências.
O Governo declarou um dia de luto nacional, que é cumprido esta quinta-feira. Num comunicado enviado às redações, o executivo e o primeiro-ministro referiram que "a prioridade imediata" é "o socorro às vítimas". "As autoridades competentes realizarão no devido tempo as averiguações necessárias ao apuramento das causas deste lamentável acidente", refere o Executivo.
O tom desta nota contrasta com a publicada no site oficial da Presidência da República, onde Marcelo Rebelo de Sousa pediu que a "ocorrência" no elevador da Glória "seja rapidamente esclarecida pelas entidades competentes". Marcelo manifesta também o "seu pesar e solidariedade" para com as "famílias afetadas por esta tragédia".
Quem também lamentou o acidente foi a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que escreveu em Português. "É com tristeza que tomei conhecimento do descarrilamento do famoso “Elevador da Glória”. Os meus sentimentos com as famílias das vítimas", escreveu no X.
O acidente corre mundo. BBC News, The New York Times, The Guardian, Sky News, El País, El Mundo, Folha de São Paulo e Le Monde são alguns dos sites que colocaram a notícia do acidente em manchete.
"Queixas sucessivas"
Não é conhecida, para já, a causa do acidente. Francisco Oliveira, dirigente do SITRA, o Sindicato dos Trabalhadores dos Transportes, diz, no entanto, que “tudo aponta para uma falha mecânica grave”.
“O facto de o elétrico [de baixo] ter descaído, de as pessoas terem sentido um impacto (…), é um indício de que algo falhou em termos mecânicos.”
Francisco Oliveira salienta que a Carris, que opera o elevador, “tem um historial de muita preocupação com a manutenção”. “Todos os ascensores que a empresa mantém têm um cuidado específico. Aqui teve de haver uma falha anormal. (…) Tenho mais de 30 anos de empresa e não me lembro de algo semelhante.”
Porém, à agência Lusa, Manuel Leal, dirigente sindical da Fectrans e do STRUP (Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários e Urbanos de Portugal), diz que os trabalhadores da Carris apresentaram “queixas sucessivas” quanto à necessidade de manutenção dos elevadores, inclusive o da Glória.
“Fundamentalmente, aquilo que nos parece sobre este acidente é que deve haver um inquérito rigoroso às suas causas […], deve haver este inquérito às causas profundas deste acidente, até porque os trabalhadores já vêm reportando de há muito tempo questões da necessidade da manutenção destes elevadores voltar à responsabilidade dos trabalhadores da Carris e não ser entregue a empresas exteriores, como é o caso concreto do elevador da Glória”, afirmou Manuel Leal.
“Os próprios trabalhadores iam reportando, de facto, estas diferenças em termos daquilo que a manutenção que há uns anos era feita pelos trabalhadores da Carris e as diferenças para a manutenção que é feita hoje, nomeadamente com queixas sucessivas dos trabalhadores que lá laboram quanto ao nível de tensão dos cabos de sustentação destes elevadores”, adiantou.
Na perspetiva do dirigente sindical, o descarrilamento do elevador da Glória, “lamentavelmente, […] veio dar razão a estas queixas dos próprios trabalhadores e deve levar o conselho de administração, perante um inquérito rigoroso a estas causas, a reequacionar a entrega a privados desta manutenção”.
A manutenção é assegurada há 14 anos por uma empresa externa, confirmou o presidente da Carris, Pedro Bogas. Neste momento, a manutenção é da responsabilidade da Main. Pedro Bogas defende, no entanto, que “o protocolo de manutenção foi escrupulosamente respeitado”.
“A manutenção geral ocorre de quatro em quatro anos, neste caso foi feita em 2022. A manutenção intercalar foi feita em 2024. Além disso, é feita a manutenção semanal e a manutenção mensal e as inspeções diárias”, explicou.
Questionado sobre uma eventual falha, Pedro Bogas remeteu esclarecimentos para o resultado de um inquérito interno.
O contrato que terá caducado
Uma das informações que surgiu poucas horas após o acidente, noticiada pelo jornal online Página Um, foi a de que o contrato de manutenção de segurança dos quatro ascensores de Lisboa, incluindo o da Glória, estava caducado desde domingo, 31 de agosto. Nuno Santos, diretor da CNN Portugal, salientou que esse dado "precisa de verificação".
"Não podemos falar disso e depois isso ficar no ar. Temos o dever de apurar esse dado e, depois, de o tratar com o rigor e o método que ele exige ao jornalismo. Mas, se isso está em causa, temos de ver o que pode suceder a seguir", sublinhou Nuno Santos.