A família chegou a ser encaminhada pelas autoridades para o Instituto de Medicina Legal, no Hospital de São José, para identificar o cadáver do homem. Olharam para fotografias mas nenhum correspondia à imagem do familiar
Dos destroços do Elevador da Glória saíam gritos. E entre os gritos ouvia-se o choro de uma criança.
Farid Shovro, de 35 anos, oriundo do Bangladesh, estava à porta da loja de souvenirs que gere há dois anos quando ouviu um "som estrondoso" do outro lado da Praça dos Restauradores, conta ao Expresso. Logo a seguir, viu uma nuvem de fumo e "não pensou duas vezes": começou a correr em direção ao acidente. A ele juntou-se António, um condutor de tuk-tuk que estava estacionado ao pé da loja de Farid.
No meio do caos viram uma criança presa, que chorava, com sangue a escorrer-lhe pela cara. “Ele estava a chorar muito e estava um pouco ensanguentado. Tinha cortes no rosto e na perna”, partilha. Poucos minutos depois, um polícia à paisana conseguiu chegar até à criança. Puxou-o, libertou-o e tirou-o dali ao colo. Depois, entregou-o a António e voltou para os escombros na tentativa de resgatar mais pessoas. “Calma, calma”, dizia à criança o condutor do tuk-tuk.
A psicóloga clínica Marta Fialho explica à CNN Portugal que, com três anos de idade, “não se tem uma compreensão plena do que está a acontecer” - mas compreende-se o medo, a ausência, o vazio repentino de não ver os pais.
“É uma situação de grande impacto emocional e de um grande trauma porque a criança está feliz com os seus pais a passear por Lisboa, depois de repente ouve todo aquele barulho, toda a forma abrupta como aconteceu, dá por si com sangue, sem ver os pais, sem saber onde é que eles estão. Isto tudo traz um impacto muito traumático e avassalador para o sistema nervoso de uma criança desta idade.”
O agente da PSP foi entretanto ter com o condutor do tuk-tuk e ficou com a criança ao seu cuidado. Acompanhou-a para todo o lado. As mãos da criança não largaram o pescoço do agente.
A primeira noite
A criança foi levada para o Hospital de Santa Maria. Tinha uma fratura, mas estava fora de perigo.
Horas depois, chegou a notícia: o pai foi dado como morto; a mãe, em estado crítico, lutava pela vida nos cuidados intensivos do mesmo hospital.
A psicóloga clínica Marta Fialho explica que, nestas alturas, “a verdade tem de ser dita à criança”. No entanto, recorrendo a certas técnicas e apoio especializado. “Temos de preparar o terreno da criança para ela receber esta notícia. Não pode ser de forma abrupta, como ‘olha, o teu pai faleceu, nunca mais o vais ver’. Isso é muito avassalador. Tem de ser feito adaptado aos três anos de idade. Por exemplo, recorrer a desenhos; dizer que há pessoas que, com os remédios que os super-heróis médicos dão nos dói-dóis, recuperam, mas que há outras que não conseguem recuperar - mesmo com toda a ajuda. E aí vão partir para o céu, para as estrelinhas ou para perto dos avós que já faleceram. É preparar o terreno, preparar para a ausência.”
A partir daquele momento, a criança ficou à espera dos avós e da tia, que vinham de Hamburgo com a notícia de que o familiar estava morto.
O luto que afinal não era luto
Na manhã seguinte, a família foi encaminhada para o Instituto de Medicina Legal para identificar o corpo do homem. Olharam para fotografias de cadáveres, mas nenhum correspondia à imagem do familiar.
Decidiram mostrar uma fotografia do homem a um polícia que estava nas imediações do Instituto. Foi assim que tiveram outra porta aberta: havia um ferido sem identificação no Hospital de São José. O agente encaminhou-os de imediato e a família viu-o com os próprios olhos. Era ele. O pai da criança estava vivo.
Na manhã desta sexta-feira, a Polícia Judiciária confirmava: o cidadão alemão dado como morto encontrava-se, afinal, internado. O luto transformou-se em reencontro.
A criança teve alta. Está agora acompanhado da tia e dos avós. O pai recupera no Hospital de São José, em Lisboa. A mãe, apesar de continuar internada, está estável. A CNN Portugal sabe que já foi operada às duas pernas.
O que fica para depois: o trauma
A criança viveu um medo avassalador, sublinha a psicóloga clínica Marta Fialho: o barulho, os gritos, o sangue - ficou tudo gravado. “Apesar de ele não ter a estrutura intelectual para compreender o que é que aconteceu, fica guardado nas memórias do cérebro as sensações que teve. No futuro, um barulho semelhante, uma viagem de comboio ou até mesmo ver na televisão um acidente... As caixinhas do cérebro dele vão abrir-se e as emoções que teve naquela altura vão reativar-se".
Existe ainda outro aspeto. Durante horas, acreditou-se que a criança tinha ficado órfã. Se lhe transmitiram essa informação, o seu consciente iniciou um processo de luto, que depois foi corrompido. “Se lhe disseram que o pai tinha morrido e depois lhe disseram que afinal estava vivo, isso pode condicionar a forma como se vai relacionar e confiar nos adultos no futuro porque disseram-lhe algo que não era verdade.”
No entanto, a psicóloga refere que a criança tem o “fator protetor de o seu sistema nervoso” ter apenas três anos. “As memórias ficam mais gravadas dos seis anos para a frente”. Além disso, o “acolhimento do polícia” pode ter um “fator altamente reparador do trauma” que viveu.
“O polícia agarrou na criança, ela sentiu que ele estava a protegê-la daquele ambiente atroz e agarrou-se a ele e ele permitiu esse acolhimento. Portanto, eu acho que foi uma mais-valia muito importante. Conteve-o emocionalmente. Foi incrível encontrar alguém com a sensibilidade de lhe transmitir segurança imediata.”