Relatório confirma: “cabo que unia as duas cabines cedeu no ponto de fixação” e sistema de emergência não era "redundante à falha" no Elevador da Glória

6 set 2025, 19:55
Elevador da Glória (AP)

Foram 50 segundos de horror, 170 metros em queda livre. O derradeiro embate, na parede, deu-se a 60 quilómetros por hora. O guarda-freio fez o que lhe competia para evitar o pior. Naquele contexto de falha, diz a investigação do GPIAAF, o sistema não era verdadeiramente redundante. Restam agora duas dúvidas importantes: se o sistema pneumático automático funcionou ou não, qual é a entidade pública responsável pelo elevador. Daqui a 45 dias haverá relatório preliminar. Final só dentro de um ano

O primeiro relatório do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) confirma que "o cabo que unia as duas cabinas cedeu no seu ponto de fixação dentro do trambolho superior da cabina n.º 1", ou seja, a que estava na parte de cima do percurso.

"O restante cabo, o volante de inversão e as polias onde este desenvolve o seu trajeto encontravam-se lubrificadas e sem anomalias aparentes. O cabo no trambolho superior da cabina n.º 2 encontrava-se também sem anomalias aparentes", pode ler-se no documento.

As imagens disponíveis no relatório evidenciam o local da falha e estado em que ficou o cabo.

O GPIAAF dá conta de que "a zona onde o cabo se separou não é passível de visualização sem desmontagem". Ou seja, a inspeção visual que teve lugar na manhã do acidente não poderia ter identificado a falha.

As evidências mostraram que "o freio pneumático e também o freio manual foram rapidamente aplicados pelo guarda-freio da cabina n.º 1, mas que na configuração existente os freios não têm a capacidade suficiente para imobilizar as cabinas em movimento sem estas terem as suas massas em vazio mutuamente equilibradas através do cabo de ligação".

Em conclusão: "desta forma, não constitui um sistema redundante à falha dessa ligação".

Antes disso, a nota informativa divulgada este sábado ao início da noite, realçava que "o sistema de emergência existente no volante de inversão localizado no cimo da Calçada da Glória para em caso de perda de força no cabo proceder ao corte de energia às cabinas, funcionou como previsto, o que teria como efeito a aplicação imediata e automática do freio pneumático em cada uma delas".

E que "neste momento ainda não foi possível proceder às verificações de confirmação de que o sistema de aplicação automática do freio pneumático nos veículos como resultado da perda da força do cabo no trambolho tenha ou não funcionado".

A investigação constatou que o "ascensor não está na alçada da supervisão do Instituto da Mobilidade e dos Transportes, I.P., não detendo neste momento a investigação informação fidedigna e confirmada sobre qual é o enquadramento legal do ascensor da Glória nem sobre qual é a entidade pública que tem a obrigação de supervisionar o funcionamento e segurança deste sistema de transporte público".

Queda não terá durado mais de 50 segundos, embate foi a 60 quilómetros por hora

Também foi possível estimar a velocidade a que seguia, desgovernada, a cabine que acabou por ficar completamente destruída. "Estima-se, com uma margem de incerteza não negligenciável devido ao desconhecimento de alguns parâmetros, que o primeiro embate tenha ocorrido a uma velocidade da ordem dos 60 km/h, tendo todos estes eventos decorrido num tempo inferior a 50 segundos". Esteve em queda livre durante 170 metros.

No relatório fica claro também a distância que percorreu a cabine que deslizou mas permaneceu intacta:"a cabina n.º 2 recua bruscamente, sendo o seu movimento sustido cerca de 10 metros depois pela sua saída parcial além do final da via-férrea e enterramento do trambolho do lado inferior no final da vala do cabo".

Estas são as primeiras conclusões após as diligências que se seguiram ao acidente com o elevador da Glória. O GPIAAF vai publicar um relatório preliminar "previsivelmente no prazo de 45 dias". A expectativa é de que o relatório final esteja pronto dentro de um ano.

Empresa de manutenção reage

Após a divulgação destas conclusões, surgiu a primeira reação da empresa de manutenção, a Main, através do advogado que a representa, Ricardo Serrano Vieira.

“Este é um momento de grande dor e consternação, pelo que a MNTC – Serviços Técnicos de Engenharia, Lda. se encontra, desde o primeiro momento, a colaborar com as autoridades, para que as causas do acidente sejam rapidamente determinadas e assim dar também uma resposta às famílias das vítimas, às quais expresso as mais sentidas condolências”, começa por afirmar.

E conclui: “Qualquer conclusão nesta fase seria prematura, mas aquilo que podemos confirmar é que o Elevador da Glória foi alvo de uma inspeção na manhã de quarta-feira, tendo nessa ocasião sido considerado em condições adequadas de funcionamento”.

Atraso na divulgação

A divulgação da nota informativa estava inicialmente prevista para esta sexta-feira, mas acabou por ser adiada para a tarde deste sábado. E só aconteceu no início da noite deste sábado.

“Atendendo a que, como é do conhecimento público, a remoção dos veículos e destroços envolvidos no acidente se prolongou por toda a noite e madrugada e que o GPIAAF teve também a necessidade de acompanhar, esta tarde, diligências adicionais promovidas pelo Ministério Público, que terminaram há pouco, não é possível proceder hoje à publicação da Nota Informativa. A sua publicação será feita durante a tarde de amanhã, sábado”, tinha explicado o organismo.

O elevador da Glória, em Lisboa, descarrilou na quarta-feira, causando 16 mortos e 23 feridos. Entre as pessoas que morreram no acidente estão cinco portugueses, dois sul-coreanos, um suíço, três britânicos, dois canadianos, um ucraniano, um americano e um francês. De acordo com a Proteção Civil, do acidente resultaram ainda 23 feridos, sendo que dez estão em estado grave.

Só um investigador

Desde agosto de 2023 que o GPIAAF apenas dispõe de um investigador para este setor, e que, desde março deste ano, que o organismo aguarda que o processo de admissão de um segundo investigador para o setor tenha autorização por parte do ministério das Finanças.

Em conferência de imprensa realizada na quinta-feira com várias entidades, na sede da PJ, em Lisboa, o coordenador do GPIAAF assegurou que será analisado “tudo o que seja relevante para a investigação”.

Nelson Oliveira recusou comprometer-se com um prazo final para a conclusão da investigação, reiterando que apenas pode prometer um relatório preliminar no prazo de 45 dias e que o tempo de elaboração do relatório final “dependerá dos meios com que o GPIAAF venha a ser dotado, entretanto”.

“Deve ficar também claro que a admissão de um ou dois investigadores não resolve as situações de imediato, porque um investigador para ser formado necessita de dois anos. Mas eu não me queria alongar sobre esta matéria, este não é o momento nem o local. Nós estamos num dia de luto nacional e municipal devido a este trágico evento”, explicou este responsável.

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