Cinco equipas de psicólogos do INEM assistiram quase 40 pessoas no Elevador da Glória. É assim que atuam os psicólogos em situações de emergência

4 set 2025, 10:35

Sónia Cunha, coordenadora nacional do Centro de Apoio Psicológico de Intervenção em Crise do INEM, explica que existem vários níveis de atuação e que o papel do psicólogo no terreno, em situações como a do Elevador da Glória, é “fundamental, para prevenir um potencial risco de vir a desenvolver psicopatologias, como stress pós-traumático”

Ajudam as vítimas diretamente envolvidas nos acidentes, os seus familiares, amigos, quem assistiu às tragédias e os próprios profissionais de socorro que estão a atuar no terreno. É assim que atuam os psicólogos do INEM em cenários de tragédia como o que se viveu esta quarta-feira, em Lisboa, com o acidente no Elevador da Glória. Esta quarta-feira, de acordo com Centro de Apoio Psicológico de Intervenção em Crise (CAPIC), os psicólogos do INEM ajudaram um total de 37 pessoas, entre “vítimas primárias, familiares e operacionais”.

“Os psicólogos fazem parte das equipas de emergência pré-hospitalar. No dia-a-dia, sempre que há necessidade, as equipas são enviadas para o terreno. Ontem chegámos a ter cinco equipas no terreno. À medida que foram identificadas as necessidades, foram sendo reforçadas”, explica Sónia Cunha, psicóloga do INEM e coordenadora nacional do CAPIC.

“Ontem estivemos em articulação direta com todos os hospitais que receberam feridos. Hoje estamos a dar continuidade a este trabalho. Estamos em ligação telefónica com as vítimas. Havendo necessidade, vamos para o local”, acrescenta Sónia Cunha.

Cada equipa, a Unidade Móvel de Intervenção Psicológica de Emergência (UMIPE), é constituída por um psicólogo e por um técnico de emergência hospitalar, com formação na área de intervenção psicológica em contexto de crise. O trabalho destes profissionais passa por “recolher informação no terreno sobre o que já foi feito” e iniciar a intervenção “pelas pessoas com maior necessidade”, que podem ser vítimas diretas da tragédia ou vítimas secundárias, como familiares e amigos das vítimas, e terciárias, como técnicos de emergência ou pessoas que assistiram à tragédia.

“Aquilo que baseia as necessidades são as reações e as intervenções das pessoas. Um dos grandes objetivos é a identificação de potencial risco de vir a desenvolver psicopatologia, por exemplo stress pós-traumático ou perturbação da ansiedade”, explica Sónia Cunha. “As pessoas com vulnerabilidade correm maior risco de desenvolver psicopatologia”.

“É um acontecimento traumático. Não é expectável que as pessoas tenham uma reação positiva. É importante que os psicólogos no terreno estejam atentos aos sinais de alarme, como alterações de comportamento ou reações desadequadas, e criar uma bolha de apoio e de conforto, que possam servir de almofada para as pessoas terem tempo para ativarem os seus mecanismos internos para melhor lidar com a situação”, acrescenta Sofia Ramalho.

A bastonária da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) considera que a presença dos psicólogos em cenários de tragédia “é tão importante como a presença de outros profissionais de socorro, até para garantir que esses profissionais possam fazer o seu trabalho sem interferências das próprias vítimas”.

Sofia Ramalho acrescenta que, depois do trabalho no terreno, é feita uma “articulação com todos os serviços de saúde, nos cuidados de saúde primários e nos hospitais” e que, idealmente, o acompanhamento das vítimas é feito durante pelo menos três meses. Missão, muitas vezes impossível, por falta de capital humano. Por isso, sublinha, “é fundamental o reforço dos psicólogos nas comunidades, nos serviços de saúde e no INEM”.

“Estes acontecimentos mostram-nos a importância que os psicólogos têm nos mais diversos setores. É nestas alturas que percebemos a importância dos psicólogos nas comunidades”, sublinha a responsável da OPP.

As duas profissionais sublinham a importância do cuidado também de um “quarto nível de vítimas”, que são as pessoas com proximidade emocional com a situação, e ainda um quinto nível, que são as pessoas que estão expostas às imagens e às notícias veiculadas pelos meios de comunicação. “A ordem tem tido preocupação de criação de literacia, para que as pessoas não se exponham em demasia a estas imagens. Também há orientações para os próprios psicólogos. A Ordem construiu um guia para o autocuidado do psicólogo. O autocuidado também se consegue mais facilmente quando as condições para a profissão são dadas. E é transversal a todos os psicólogos, porque trabalham com os grupos mais vulneráveis”, sublinha Sofia Ramalho.

País

Mais País