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Físico, Estratega & Ex Cripto-céptico

A energia diurna está quase de borla, mas porque é que ninguém fala nisto?

30 mar, 07:45
energia.eolica.dreamstime

Até parece mentira, mas é a mais pura das verdades:a energia elétrica durante o dia é praticamente gratuita. Mas também parece que ninguém quer falar neste assunto

Lembra-se dos tempos dos tarifários bi-horários? Aqueles em que escolhíamos uma tarifa especialmente baixa durante a noite, mas que cobrava bem mais durante o dia? E lembra-se porque é que os escolhia? Sim, é tipicamente durante a noite que temos mais consumo na nossa casa e o “energy mix” do momento permitia que os preços nocturnos fossem bastante baixos, mas também é verdade que a massiva instalação de projetos solares levou os preços a quase zero durante o dia.

A situação é tão insólita que, por vezes, os preços são até negativos, ou seja, quem vende paga para produzir e quem compra recebe por consumir. Quando digo que “quem compra recebe por consumir” note bem que estou a falar do preço de energia. O preço da energia pode, de facto, ser negativo no mercado grossista, mas para o consumidor doméstico a fatura raramente fica negativa porque existem custos fixos, taxas e componentes reguladas que não desaparecem.

Quer Portugal, quer Espanha, alcançaram um nível de produção solar, assim como de renováveis no geral, que descalibrou aquilo que era o comum nos mercados de eletricidade. O período das 9 da manhã às 7 da tarde é hoje o período em que a energia é muito mais barata, e parece que poucos estão a retirar as devidas vantagens deste facto e é fácil perceber porquê. Não há oferta ou, quando a há, é extremamente difícil de a perceber.

O paradoxo: energia barata de dia, energia caríssima de noite

Com a crise nos preços de petróleo e gás, a energia noturna tem estado a preços muitíssimo altos, mas isso não tem trazido a discussão devida para cima da mesa. Se os preços são assim tão díspares, havendo situações em que custam 150 €/MWh de noite e 2 ou 3 €/MWh durante o dia, urge discutir soluções que permitam “empurrar” o máximo do consumo para o período diurno. Com isso, salvam-se muitos euros do bolso dos cidadãos e empresas mas também se salvam as reservas de petróleo e gás que podem, efetivamente, vir a escassear ou mesmo a esgotar.

Não há, de facto, semelhante situação em toda a Europa, e isso é uma grande vantagem se a soubermos explorar como tal.

Precisamos de políticas que incentivem o consumo diurno

Antes de se discutir qualquer outra forma de resposta à situação energética atual, necessitamos que o governo, e eventualmente entidades privadas, se unam para abordar este tema e encontrar soluções que incentivem ou provoquem esta mudança de consumo.

É certo que muitos operadores estão agora a instalar baterias nos projetos solares para empurrar a venda de energia para os períodos em que a energia é mais cara mas, pensando friamente, os promotores estão a fazê-lo porque há inércia dos consumidores em retirar vantagens das condições atuais do mercado.

O erro de manter a lógica antiga dos tarifários bi-horários

A tal tarifa bi-horária em que andámos muito tempo, e que acabou em desuso, explorava uma questão para além do preço da energia em si: o custo das redes. Nesses tempos, para além do tal energy mix assente no carvão, gás e hídrico, havia um custo de redes de transporte mais baixo de noite do que de dia. É por isso que tentávamos ligar as máquinas de lavar durante a noite para poupar na conta do mês.

Quando mudam os pressupostos, devem mudar as soluções. Neste momento, faz muito mais sentido reduzir ou isentar custos de transporte de energia durante o dia, para que os consumidores consumam mais de dia.

Não se conhece uma proposta de nenhum lado político que toque nesta questão. Pelo contrário, temos andado numa atitude de miserabilismo e de quase conformação perante os custos de energia e de gasolina, em vez de nos focarmos nas possibilidades que a nossa condição única como país permite.

Não é só o preço, é a falta de petróleo e gás

Não se trata apenas do preço de petróleo nem de gás. Trata-se da falta dele. Podemos chegar ao ponto de não o ter, se não moderarmos o nosso consumo de forma que permita manter as reservas a níveis mais ou menos seguros.

Que sentido faz os carros elétricos carregarem durante a noite usando energia produzida por gás, podendo carregar durante o dia com energias renováveis e ainda por cima a um preço próximo de zero ou mesmo zero a muitas horas? Será que o governo não deveria, desde já e provisoriamente, incentivar a que o máximo da mobilidade elétrica consumisse energia diária e não noturna?

Os tarifários indexados podem ir de bestiais a bestas

Mas há mais: os famosos tarifários indexados, em que não existe muita lei nem muito roque. Um tarifário indexado definido a 15 minutos pode fazer sentido para quem consuma de dia, mas pode ser uma catástrofe para quem consuma de noite. Um tarifário indexado ao preço médio intradiário pode ser um disparate mais pequeno, mas continuar a sê-lo, por exemplo, para um espaço comercial que consome precisamente durante o dia.

Imagine que o preço intradiário tem preços de 150 €/MWh durante a noite e zero durante o dia. Vamos até simplificar e considerar que metade do dia é de 150 e a outra metade de zero. O preço médio do dia é de 75 €/MWh. Se consumir mais de noite, fica a ganhar; se consumir mais de dia, fica a perder.

Os tarifários indexados obrigam os clientes a serem experts de energia e a controlar de forma exímia o seu consumo, caso contrário, pode ser um soco no estômago. O mesmo tarifário pode ser excelente para mim e péssimo para o leitor. Urge alguma clarificação e até, porventura, alguma normalização neste tipo de tarifários. A maior parte das pessoas não os percebe nem tem como os perceber. Estes tarifários podem ser os bestiais, mas também podem ser as bestas.

Legenda

 

Temos uma vantagem única mas falta transformá-la em estratégia nacional

Sim, a energia pode ser zero e, diga-se o que se quiser das renováveis, são elas que permitem este nível de competitividade, independência e resiliência. Mas é talvez altura das entidades certas - Estado, reguladores, operadores e promotores - se juntarem para desenharem políticas energéticas efetivamente construtivas para todos.

No final do dia, consumidores residenciais, indústria, comércio e mobilidade elétrica têm muito a ganhar com o que temos hoje e há muito mais a fazer do que simplesmente olharmos para o preço da gasolina, para o IVA e para o ISP da gasolina.

Além disso, é do interesse de todos poupar petróleo e gás. Não apenas porque estão caros, mas porque podem vir a faltar. A guerra na Europa e a instabilidade no Médio Oriente mostraram-nos como tudo pode mudar de um dia para o outro. Se não moderarmos o consumo e não aproveitarmos ao máximo a energia renovável abundante que temos durante o dia, arriscamo-nos a transformar uma crise energética em algo ainda pior. Não se trata de alarmismo, trata-se de prudência. E, se há momento para sermos prudentes, é agora.

Os consumidores não sabem o que devem fazer para se proteger. As ofertas são difíceis de ler, difíceis de comparar e, muitas vezes, impossíveis de compreender. O mercado tornou-se tão técnico que o cidadão comum está completamente desarmado. O regulador tem de aparecer de forma categórica, clara e pedagógica para explicar, orientar e proteger. Os consumidores precisam de ajuda que ninguém lhes está a dar.

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