Como os centros de dados da Inteligência Artificial podem afetar a nossa rede elétrica e até o abastecimento de água

CNN , Auzinea Bacon
2 fev, 18:00
Sines plano Data Center Centro Dados (Business Wire)

O problema ainda está só a começar

Os gigantes tecnológicos estão numa corrida desenfreada para construir centros de dados e dominar o panorama da Inteligência Artificial (IA). Mas os Estados Unidos poderão não estar preparados para a procura energética.

A envelhecida rede elétrica do país poderá ter dificuldades em acompanhar o aumento das necessidades de energia. E são as famílias norte-americanas que estão, em grande parte, a pagar a fatura destes custos adicionais.

A administração Trump e um consórcio de governadores de estados do nordeste estão a solicitar à PJM, o maior operador de rede elétrica da América, que atenue o pico nacional nos custos da eletricidade. As autoridades federais querem que a PJM realize um leilão de energia de emergência — algo que a Casa Branca e os governadores não podem impor - com as grandes tecnológicas, que pagariam pelos custos crescentes dos seus centros de dados. (A PJM referiu não ter recebido aviso prévio do plano).

Eis o que precisa de saber sobre o boom dos centros de dados.

Onde são construídos os centros de dados?

A Virgínia possui o maior aglomerado de centros de dados de todo o mundo. Atualmente, conta com 561 centros em 23 mercados, segundo o Data Center Map, entidade que monitoriza estas infraestruturas desde 2007.

Os desenvolvimentos estão também a expandir-se para localizações remotas, onde a energia é mais abundante e as redes estão menos sobrecarregadas, indica o relatório de agosto da McKinsey & Company sobre o setor. Espera-se que surjam centros de dados em Denver, Los Angeles e na Pensilvânia, entre outras regiões.

Alguns estados estão a incentivar estes investimentos. O Ohio, por exemplo, ofereceu isenções parciais ou totais de impostos sobre vendas a empresas que realizassem investimentos significativos, notou a McKinsey.

Que empresas lideram a corrida?

Os gigantes tecnológicos americanos estão a correr para estar na vanguarda do boom da IA. A Meta revelou ter gasto 17 mil milhões de dólares (cerca de 16 mil milhões de euros) em despesas de capital — o que normalmente se refere a dinheiro gasto em centros de dados e infraestruturas — no trimestre terminado em junho de 2025.

A Microsoft adiantou ter gasto 24,2 mil milhões de dólares no trimestre que terminou em junho passado, enquanto a Amazon anunciou que investiria 15 mil milhões de dólares no norte do Indiana para construir novos campus de centros de dados, para além de um investimento de 11 mil milhões de dólares anunciado em 2024. Já o Bank of America estimou, em setembro, que a despesa anual das empresas na construção de centros de dados atingiu os 40 mil milhões de dólares em junho.

Estão a encarecer as faturas de eletricidade?

As tarifas de eletricidade residencial subiram 5,2% em outubro, em comparação com o mesmo período de 2024, segundo o relatório mensal de eletricidade divulgado pela Administração de Informação sobre Energia (EIA). Os custos de eletricidade para áreas próximas de centros de dados aumentaram até 267% em comparação com há cinco anos, concluiu uma análise da Bloomberg News no ano passado.

O aumento deve-se, em parte, ao boom dos centros de dados, que está a impulsionar a procura e a sobrecarregar os recursos, nota Ryan Hledik, diretor na empresa de consultoria e investigação Brattle Group.

Mas há exceções: os preços podem cair se um centro de dados for construído numa área que tenha capacidade excedentária ou se operar fora das horas de pico de utilização, ressalva o especialista.

A infraestrutura elétrica envelhecida da América também não está a ajudar nos custos. A maioria dos aumentos de tarifas na última década pode ser atribuída ao sistema de distribuição do país, explica Hledik.

O sistema de distribuição requer investimentos mais dispendiosos devido ao aumento de custos na sequência do choque de oferta provocado pela pandemia, acrescenta o responsável.

Os centros de dados vão continuar a devorar energia?

Prevê-se que os centros de dados consumam cerca de 6,7% a 12% da eletricidade dos EUA em 2028, um aumento face aos 4,4% registados em 2023, de acordo com um relatório de dezembro de 2024 do Departamento de Energia.

Algumas empresas de serviços públicos já estão a intervir para evitar que a procura dos centros de dados afete os residentes, aponta Hledik, introduzindo novas tarifas para grandes clientes.

Os estados também estão a tomar medidas. O Oregon aprovou um projeto de lei que exige que os centros de dados "paguem pela pressão real que colocam na rede elétrica do Oregon".

Recentemente, a Microsoft afirmou também que pediria para pagar faturas de eletricidade mais elevadas nas áreas onde constrói os seus centros de dados.

Como afetam o abastecimento de água?

Os centros de dados necessitam também de quantidades significativas de água para arrefecer os seus sistemas complexos, segundo o relatório da McKinsey.

Espera-se que estas instalações necessitem de mais 170% de água até 2030, nota a consultora, citando um relatório da WestWater Research. Além disso, instalações como centrais térmicas, utilizadas para apoiar os centros de dados, também precisam de água para arrefecimento.

Isto remete para a questão mais ampla sobre se os centros de dados e as famílias americanas podem coexistir em harmonia, reflete Hledik.

"Como criamos as condições para que todos saiam a ganhar nesta situação, e não um cenário onde temos alguns vencedores e depois a comunidade local?", questiona o especialista.

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