O Brasil que não cabe numa eleição

20 ago, 10:00
Bandeira do Brasil (GettyImages)
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ENSAIO || Uma eleição pode mudar o Governo. É muito mais difícil mudar as razões que levaram milhões de brasileiros a votar contra outros milhões. Uma democracia precisa de adversários. Tem um problema quando precisa de inimigos

No sertão seco da Bahia, onde a terra estala sob o calor e a paisagem parece reduzida ao essencial, António Conselheiro pregou um dia que o fim do mundo estava próximo. Enganou-se quanto ao apocalipse. Talvez se tenha enganado menos quanto ao Brasil. A República nascida em 1889 em nome da ordem e do progresso passaria décadas a tentar decidir o que essas palavras significavam para um país demasiado grande e desigual para caber numa única ideia de modernidade. Em Canudos, em 1896, essa dificuldade acabou em guerra. Mais de um século depois, regressa à política brasileira com outros protagonistas e sob outra forma.

Os Sertões, publicado em 1902 por Euclides da Cunha, parece à primeira vista o relato de uma campanha militar. É mais do que isso. É a tentativa de compreender um país perante uma parte da sua própria população que não cabia na imagem que a República construíra de si mesma. Da Cunha chegou a Canudos com as certezas do seu tempo. A República representava a civilização, o sertanejo representava o atraso e o Exército levaria a ordem a uma região que o poder central via sobretudo como um território a corrigir. Depois viu o que aconteceu quando essas certezas encontraram uma comunidade disposta a morrer por uma fé que o Estado considerava absurda.

A distinção entre civilização e barbárie começou então a perder nitidez. Os soldados enviados em nome da República praticaram uma violência difícil de conciliar com a missão que diziam cumprir. Os habitantes de Canudos, tratados como fanáticos, revelaram uma resistência que o Governo não tinha previsto. Da Cunha percebeu a contradição e fez dela o centro do seu livro. A República conseguira destruir aquilo que não conseguira compreender. A vitória militar resolveu o problema imediato. Não respondeu à pergunta que o tinha produzido.

Canudos continua, por isso, a dizer qualquer coisa sobre o Brasil. A geografia mudou, as instituições mudaram e a população urbana ganhou um peso que seria difícil imaginar no final do século XIX. Mas a distância entre aqueles que se consideram intérpretes do futuro e aqueles que sentem que o futuro lhes foi imposto não desapareceu. Em 2026, essa clivagem percorre São Paulo, Minas Gerais, a agroindústria do Centro-Oeste, as periferias do Rio de Janeiro, as igrejas evangélicas e pequenas cidades onde a política nacional chega através dos impostos, dos preços e das oportunidades que não aparecem.

O sertão, nesse sentido, mudou de lugar. Euclides da Cunha percebeu que a terra não era apenas o cenário da história. Moldava expectativas, lealdades e a relação com o Estado. O sertanejo era, na sua célebre formulação, antes de tudo, um forte, não porque a vida lhe tivesse oferecido alguma vantagem especial, mas porque lhe tinha retirado quase todas.

A força era uma forma de sobrevivência. Onde o Estado chegava pouco, a comunidade e a religião ocupavam o espaço deixado vazio. Os Sertões é simultaneamente uma obra profundamente marcada pelo racismo científico do seu tempo e uma das mais fortes denúncias do massacre de Canudos. A grande força do livro, que Mário Vargas Llosa também ecoa, está precisamente nas suas contradições. Euclides percebeu que havia ali qualquer coisa que essas ideias não explicavam. O sertanejo não era apenas um brasileiro atrasado à espera de ser modernizado. Era também o resultado de um país que o tinha deixado à margem e que depois se surpreendia com a sociedade que essa marginalização produzira.

O Brasil mudou profundamente, mas muitos cidadãos continuam a olhar para as instituições como qualquer coisa que existe longe deles. Os primeiros governos de Lula aproximaram o Estado de milhões de brasileiros como poucas vezes acontecera antes. Milhões de brasileiros sentiram então, talvez pela primeira vez, que o Estado podia melhorar concretamente a sua vida. Os rendimentos cresceram, o acesso ao ensino superior alargou-se e uma nova classe média começou a acreditar que os filhos poderiam viver melhor do que os pais. Essa experiência, porém, não resolveu a desconfiança em relação às instituições. Quando vieram a corrupção, a recessão e a crise política, parte dessa confiança revelou-se frágil. Foi nesse terreno que Bolsonaro cresceu.

Canudos foi uma dessas distâncias transformada em conflito. António Conselheiro reunira milhares de seguidores junto ao rio Vaza-Barris, num lugar onde a autoridade do Estado tinha pouca presença e onde a religião oferecia uma linguagem para interpretar a pobreza e a mudança. Havia resistência aos impostos, rejeição de algumas reformas seculares e uma desconfiança profunda perante uma República que muitos habitantes não sentiam como sua. O Governo interpretou aquela resistência como uma ameaça que precisava de ser eliminada.

Foram necessárias quatro expedições militares. Em outubro de 1897, Canudos estava destruída. Os seus habitantes foram mortos em massa e o corpo de Conselheiro foi exumado, tendo a cabeça sido enviada para Salvador para ser estudada. A República tinha vencido. Mas havia qualquer coisa de incompleto naquela vitória. O Estado conseguira impor autoridade sem conquistar confiança. A guerra fora apresentada como uma luta entre uma ordem moderna e uma população bárbara, quando aquilo que Euclides encontrou era mais desconfortável: uma comunidade agarrada à sua própria visão do mundo e um Estado tão convencido da superioridade da sua missão que deixou de distinguir entre desobediência e ameaça existencial.

A política brasileira de 2026 é outra coisa. Flávio Bolsonaro não é António Conselheiro, Lula não é certamente um general da República e as eleições não são uma repetição de Canudos. Mas há uma pergunta que atravessa os dois momentos: o que acontece quando o adversário deixa de ser visto como alguém com quem é possível partilhar o mesmo país? O campo bolsonarista apresenta o PT como uma oligarquia, apoiando-se no Mensalão e na Operação Lava-Jato, que acumulou influência e transformou a linguagem da inclusão numa forma de controlo.

O campo petista vê no bolsonarismo uma ameaça às instituições democráticas, sobretudo depois da tentativa de reverter a derrota eleitoral de 2022, que culminou nos ataques de 8 de janeiro e acabou por levar Jair Bolsonaro a ser condenado por tentativa de golpe de Estado.

Há acontecimentos que sustentam os dois relatos, embora estejam longe de ser equivalentes, e exageros que também os acompanham. O problema começa quando o adversário deixa de ser visto como legítimo. Pode perder hoje e voltar a disputar o poder amanhã. O inimigo tem de ser neutralizado. Quando essa linguagem se instala, o compromisso parece fraqueza e a derrota ganha uma dimensão quase apocalíptica. A eleição deixa então de ser apenas uma escolha sobre o Governo e passa a decidir quem tem autoridade para definir o país.

O sertanejo de Euclides era forte porque o Estado era fraco. O país conhece um Estado pesado nos impostos, na burocracia e na regulamentação e, ao mesmo tempo, surpreendentemente frágil naquilo que os cidadãos encontram todos os dias. Pode haver demasiada administração e pouca capacidade de execução. Uma repartição pode ser excessivamente poderosa e uma escola continuar sem condições. A autoridade pública pode estar em todo o lado e faltar precisamente onde mais faz falta. O Presidente pode ganhar a eleição, mas governa depois com o Congresso, com governadores, os interesses regionais, as bancadas religiosas, a agroindústria, as forças de segurança e o inevitável Centrão.

Lula parte da ideia de que é preciso recuperar capacidade pública e reduzir o espaço para mecanismos políticos pouco transparentes. O campo bolsonarista parte de uma experiência diferente: se o Estado cobra demasiado, regula demasiado e entrega pouco, talvez a solução passe por lhe retirar funções, reduzir impostos e deixar maior espaço à iniciativa privada. As duas posições respondem a experiências reais. A dificuldade está em transformar uma delas numa explicação suficiente para um país tão desigual. Uma terceira via não seria simplesmente escolher uma posição intermédia. Teria de oferecer uma ideia diferente de país.

Conselheiro dizia que o mundo estava a chegar ao fim. Para os habitantes de Canudos, acabou por chegar, embora de uma forma muito mais concreta do que ele imaginara. Chegou com soldados, fogo, fome e casas destruídas. Os apocalipses políticos funcionam muitas vezes assim. Para quem os anuncia, são abstrações sobre o destino de uma nação. Para quem os vive, têm moradas, datas e nomes. A política contemporânea conserva essa capacidade de transformar divergências reais em catástrofes.

O Brasil chega às eleições de 2026 num mundo em que várias certezas perderam força. Mas há também uma dificuldade interna: um país que continua a discutir intensamente os conflitos do passado tem dificuldade em formular uma ideia convincente do futuro. A China tornou-se indispensável à economia brasileira, enquanto Washington, sob Donald Trump, adota uma política externa mais transacional e imprevisível.

Lula fala de soberania e de um Brasil capaz de preservar espaço próprio entre os grandes centros de poder. O campo bolsonarista olha com maior simpatia para Trump e para uma relação mais próxima com os Estados Unidos. Por trás destas posições existe uma questão anterior: que país quer o Brasil ser fora de portas? Um país pode procurar autonomia e continuar dependente de mercados externos. Pode escolher as suas companhias, mas continuar a ser capaz de criticá-las.

Os Sertões não oferece uma resposta para 2026. Não oferece uma saída limpa do labirinto da polarização. O seu valor está noutra coisa. Euclides da Cunha mostrou como uma República pode construir uma imagem de si própria tão poderosa que deixa de conseguir ver aquilo que não cabe nela. Canudos era, aos olhos do poder, um problema a eliminar. Para os seus habitantes, a República representava uma força distante que chegara para alterar regras, crenças e formas de vida que ainda reconheciam como suas. Cada lado tinha uma história sobre o outro e, quanto mais acreditava nela, menos necessidade sentia de olhar para o que ficava fora dela.

É aí que o livro permanece atual. Uma democracia não se fragiliza apenas quando as instituições são atacadas. Também se desgasta quando uma parte do país deixa de reconhecer a outra como legítima e começa a acreditar que a convivência é apenas uma pausa entre duas batalhas. Em outubro, os brasileiros escolherão entre diferentes versões do seu país. Uma vencerá a Presidência e a outra estará na oposição, mas nenhuma desaparecerá na noite eleitoral. Continuarão a existir as cidades, as igrejas, os agricultores, as periferias, as classes médias e as expectativas que deram forma à contenda.

A República venceu Canudos. Não resolveu aquilo que tinha tornado Canudos possível. Essa diferença atravessa a história brasileira de uma forma mais discreta do que os grandes episódios políticos, mas talvez mais constante. Um Estado pode exercer autoridade e continuar distante. Um Governo pode vencer uma eleição sem convencer a metade do país que ficou do outro lado. Uma sociedade pode modernizar-se durante décadas e continuar sem resposta para aqueles que sentem que a modernização lhes pediu mais do que lhes devolveu.

No sertão da Bahia, a terra continua a estalar sob o calor. As estradas chegaram, as cidades cresceram e o país de Euclides da Cunha tornou-se quase irreconhecível. Mas algumas perguntas sobrevivem às estradas, aos governos e às eleições. Entre elas está a mais incómoda: quanto de um país pode uma República deixar para trás antes de começar, ela própria, a deixar de se reconhecer? Canudos não regressou. Regressa a dificuldade de uma República reconhecer, dentro das suas próprias fronteiras, aqueles que não se reconhecem nela.

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