Se eu ganhasse um desejo por cada campanha eleitoral dos últimos anos, não estava rico — mas tinha um stock de desilusões com prazo de validade infindável.
O desejo, aliás, é sempre o mesmo: que os políticos que nos pedem o voto nos tratem como gente crescida. Que nos falem como quem sabe pensar, fazer contas e viver no mundo real. Só isso.
É claro que, sejamos honestos, também temos o nosso quinhão de culpa. Há muito eleitor que prefere embalos a verdades difíceis, contos de fadas a contas certas.
Mas o tal mundo real é difícil de esconder. Ele está aí, virado do avesso, a gritar-nos que se adormecermos à espera de sonhos doces, arriscamos acordar num pesadelo com IVA a 23%.
Vem isto a propósito da mais recente sessão de tempo de antena disfarçada de pose de Estado protagonizada por Luís Montenegro. Lá estava ele, em direto, a dizer que é preciso “adultos na sala”. Que não vamos lá com ilusões, nem com a irresponsabilidade e impreparação de certos protagonistas políticos.
Soou a aviso — ou provocação — dirigido a Pedro Nuno Santos, que à noite devolveu a bola com outro soundbite: “Também é preciso gente séria na sala”.
Os dois a discutirem atributos morais e psicológicos, numa suposta sala que começa a parecer uma sala de aula. Ou um recreio.
Ora, é verdade que o líder do PS facilitou a vida aos críticos quando, na apresentação do programa eleitoral, foi ao baú das promessas mágicas e sacou o velho coelhinho: menos impostos, menos horas de trabalho, salários mais altos. Tudo junto, servido a quente, sem se perder com os detalhes chatos como quem paga a conta.
É difícil não ver ali um ilusionista em campanha.
Mas o primeiro-ministro e cabeça de lista por Aveiro, que tanto apela à maturidade, não anda muito longe na arte da ilusão. Veja-se o anúncio de que Portugal vai antecipar a meta dos 2% de despesa na Defesa. Montenegro lançou a boa nova como se fosse uma grande novidade, mas não só não era nova como não era particularmente boa: já a tinha dito em janeiro, continuou sem divulgar novos prazos e — pior — o secretário-geral da NATO, ao lado do próprio Montenegro em Lisboa, já tinha avisado que 2% não chegam.
Eis-nos, portanto, a discutir um teto que já nasceu baixo, com o ar triunfante de quem nos está a oferecer um presente.
Mas o momento mais revelador da política fofinha para não incomodar, chegou logo depois. O ministro da Economia, Pedro Reis — cabeça de lista por Castelo Branco - foi ingénuo o suficiente para levar à letra aquilo dos adultos na sala. Dando como exemplo o potencial caos económico mundial cortesia Trump, disse que “ninguém pode garantir que não haja défice”. E acrescentou: “realisticamente”.
Só que o problema é mesmo esse: a realidade é péssima para servir em campanha. Dá azia, tira votos e não cabe num outdoor.
Num instante, Pedro Reis recebeu um daqueles olhares de quem manda e percebeu que tinha falado demais. Engoliu o que disse, reviu o guião e voltou à cena como um menino bem comportado: “Não, não, défice é que não, de certeza absoluta.”
Foi só um episódio, absurdo e embaraçoso, mas suspeito que teremos muitos assim. A campanha, especialmente dos partidos que nos têm governado, vai ser muito disto: unicórnios e potes de ouro no fim do arco-íris. E depois, logo se vê.
Luís Montenegro apresenta hoje o programa eleitoral da AD. É uma boa oportunidade para provar que quer mesmo ter uma conversa adulta connosco.
Mas como eu já vi muitos filmes e consigo antecipar o final, vou ali atirar mais uma moedinha para a fonte. Fecho os olhos e, com a inocência de uma criança, peço o mesmo desejo de sempre: que, desta vez, alguém cresça.